Onde nasce o sol

Banda moçambicana preserva raízes musicais africanas

“Wuchene” no dialeto ronga significa: “onde nasce o sol – a nascente”. Esse é nome do grupo de rapazes do Polana Caniço B e de Maxaquene (bairros pobres de Maputo), que fazem um som muito bom de se ouvir.

Esses garotos de vinte e poucos anos cultuam suas raízes africanas e, em seus ensaios num estúdio improvisado num fundo de quintal de uma casinha, fazem pulsar a essência da tradicional música africana. Eles ensaiam de segunda à sexta, das 08h30 às 10h30, e desses encontros fazem “nascer” e “renascer” o que há de melhor da velha música do continente mãe.

Assista a um video do ensaio


Peguei um “chapa” (van, no dialeto changana) e fui até o estúdio dos garotos no bairro Polana Caniço B. Participei de todo um ensaio dos garotos e confesso: foi sensacional presenciar a musicalidade africana que existe nesses meninos guerreiros. 

Eles fazem tudo na raça, improvisam mesmo e desse improviso, transcendem e deixam fluir o seus talentos. Tive muito prazer em fazer essa matéria e agora, divido com você um pouquinho disso.

O sol nasceu há tempos

Pensa que eles começaram agora? Não. Conforme fui informado, o “Wuchene”, com a formação atual da banda estão juntos há 9 anos. “Para nos unirmos partiu da vontade de cada um. Durante esses 9 anos estamos a trabalhar. E a nossa meta é preservar a sonoridade dos instrumentos puramente tradicionais que utilizamos. Como por exemplo, no lugar da bateria convencional usamos um tambor típico” afirma Elias José Manhiça, de 26 anos e líder da banda.

Cada um tocava desde criança no seu canto em casa. Então, como eram amigos, decidiram se juntar para fazer algo um pouco mais visível. E tocam, essencialmente, uma música tradicional moçambicana, com algumas influências de outras regiões da África. “Em termos de gêneros musicais tocamos a “marrabenta”, que é o ritmo mais divulgado aqui em Moçambique. Temos diferentes ritmos tradicionais africanos, temos um pouco da pegada “reggae” e temos a “mandinga” também. Tocamos ainda ritmos da Africa Ocidental”, declara o tocador de mbila, Zarias Vasco Marquel.

Segundo Manhiça, tocar instrumentos africanos é uma das metas do grupo. “Temos “janbei” que é um instrumento milenar de origem africana. Temos a “mbila”, os “choopes”, e aqui temos os “junjuns”. Esses instrumentos são da África Ocidental. Temos também outros instrumentos que não estão aqui conosco, mas que fazem parte. Como por exemplo, a “mbira” da tribo zizu e do shonas do Zimbábue. Temos o “talking-drumm”, conhecido na zona norte da África como “tama”. Por que fazemos isso? Porque no momento que levamos esses instrumentos para fora de Moçambique, estamos a falar de nossos instrumentos tradicionais que fazem parte de nossa raiz”.

Outras atividades e apoio

O grupo “Wuchene” faz parte de um projeto de uma organização não governamental de mesmo nome, que conta com financiamento internacional e se desdobra em outras atividades desde 2004. Além do grupo em questão que tem envolvimento com música e dança, há no projeto uma vertente que explora diferentes expressões artísticas de jovens moçambicanos, como o teatro, o canto, a poesia, a arte em esculturas e a dança típica do país. A organização faz às vezes de inscrevê-los em festivais e levá-los para fora de Moçambique.

Esses garotos, por intermédio da organização, estiveram recentemente a participar de um festival de música e dança em Xangai e Macau, na China. Nessas cidades apresentaram danças típicas moçambicanas e levaram seu som aos chineses. Outro momento interessante do grupo foi em julho desse ano, onde participaram do Festival Nacional de Cultura de Nampula, patrocinado pelo Governo Moçambicano. Quer saber mais sobre esse festival? Clique aqui

 Dos sonhos e desejos

Perguntei a eles se tinham vontade de conhecer o Brasil. Sabe qual foi a resposta? Entre olhos brilhando e sorrisos largos: “sim, muita vontade. Por acaso, lá em Macau, nos encontramos com um grupo brasileiro de dança chamado “Batubatê” e fizemos uma criação juntos”, respondeu entre sorrisos outro integrante.

Diante daqueles sorrisos largos não me contive e perguntei o óbvio. O que é a música para vocês? Mais risadas e olhares acumpliciados. “A música para nós representa a vida em diferentes vertentes. A vida como é. Nós sempre precisamos da música seja na perda de alguém, seja no ganho e no nascimento. É importante. Precisamos da música para celebrar. Significa muito. Nos inspiramos na música para falar do dia a dia. Cantamos em ronga, changana, maconde e em ndau”, declara o líder da banda.

Outra pergunta que me aguçou foi: vocês já gravaram algum CD? “Ainda não gravamos. Nossa intenção primeiro é sermos conhecidos. Nosso produto ser conhecido e ganharmos patrocínio. Conforme vê, aqui improvisamos. Por exemplo, esses amplificadores são individuais. Uma solidariedade que os artistas estão a dar para a banda. É um sonho, mas um sonho que ainda falta muito a chegar. Até agora o sonho principal é divulgar a banda”, disse Manhiça.

Clique no vídeo abaixo e veja um recorte da entrevista.

Naquela altura eu já estava absorto pelas conversas. Disparei: a música faz vocês se sentirem mais moçambicanos? Mais sorrisos, só que agora acho que os desconcertei. Mas a resposta veio imediata. “Claro, cantamos nossa identidade. Veja você que quando participávamos desse festival em Macau, encontramos lá uma cantora portuguesa chamada Carmem de Souza, que era a figura do cartaz do festival. Mas quando nós atuamos em nosso primeiro espetáculo lá já na segunda apresentação, nós viramos a figura de cartaz do festival. Gostaram do nosso trabalho porque trazíamos instrumentos tradicionais, vestiamos roupas tipicamente moçambicanas e apresentamos danças que representam todo o país. Isso é foi honra para nós”, avaliou Manhiça.

Entre a guerra diária e o sonho da arte. É esse o dia a dia de vários artistas moçambicanos que preservam suas raízes. Entre sorrisos largos, olhares talentosos e um som melodioso eu passei minha manhã.

Quer ver mais fotos do ensaios do “Wuchene”? Clique aqui

Quer ajudar? Me ajude a divulgar esse trabalho dos caras. Quem sabe esse “sol nascente” chegue até o Brasil? O telefone de contato dos garotos é +258-8291-86-872 e o email é: eliasputxana@gmail.com

Abaixo segue outro video que mostra um pouco mais do talento desses garotos.

Hambanine e até o próximo post!

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