Acordar cedo é lei em MPT

Saio da faculdade e me deparo com pessoas fazendo “cara de paisagem”, sem pressa e a dividir espaço nas calçadas esburacadas de Maputo (MPT).

Passo por vendedores de frutas que me oferecem maçãs, bananas e laranjas frescas. Falam comigo em inglês pensando que sou europeu, explico que sou brasileiro e que estou só de passagem. Mesmo assim, continuam a querer vender os seus produtos. “Leve pelo menos uma pêra meu chefe”, insiste uma comerciante.

Quando olho para o lado já vêm outros vendendo ovos, verduras, amendoins e castanhas. Olho novamente para o outro lado da rua e lá tem um monte de gente com roupas vermelhas e amarelas comercializando cartões para alguma empresa local de telefonia móvel. Continuo o meu trajeto.

Na esquina tem um banco com seguranças à porta e um bocado de idosos impacientes do lado de fora. Reparo na fila e percebo que já está começando a dar a volta no quarteirão.

Continuo. Passo por um poste caído e vejo cinco ou seis trabalhadores da energia elétrica de Moçambique mexendo em vários fios e não se entendendo sobre o problema da falta de luz na rua.

Na mesma calçada, vejo um posto de gasolina que oferece ducha para quem colocar no tanque do carro 800 Meticais – (Mtc). Uma fila enorme de carros. Todo mundo querendo uma ducha “mahala” – grátis no dialeto changana.

Comércio informal nas ruas de Maputo

Atravesso a rua. Do outro lado, uma banquinha vende livros usados esparramados pelo chão. No mesmo espaço outros vendedores negociam roupas e sapatos usados. Uns sentados no chão e outros em pé. E outros tantos, a vender artigos eletrônicos. “Vai um pen drive de 16 Giga, chefe? É preço justo meu “brada” – irmão no dialeto changana. Não, obrigado! Respondo e prossigo.

Agora vejo uma mulher que varre a rua. Vejo também outra no mesmo momento a jogar o resto do sanduíche que comia no chão. Uma olha para a outra. A que varria balbucia algo em changana que não entendo. Parece que ela não gostou do que a outra fez.

Prossigo. Passo em frente a um ponto do “chapa” (van no dialeto changana). Pessoas achando que também quero pegar a van trombam comigo querendo um espacinho naquele veículo caindo aos pedaços. Entram todas. Umas vinte e tantas lá dentro, calculo. Olho tudo aquilo e sigo andando.

Em meio àquele aglomerado de gente que gesticula e fala alto, um homem empurrando um carrinho de cimento tromba com minhas pernas logo à frente. Peço desculpas por ter sido atropelado.

Recomposto do susto ao olhar para frente vejo bares, lanchonetes e restaurantes a receber gente com fome. E eu? Saindo da faculdade também com fome, esqueço os reclames do meu estômago e fico ali a admirar toda aquela movimentação. Já são 12h30 e estamos na hora do almoço. De onde estou vejo estudantes esfomeados saindo das escolas e das universidades. Paro ali para olhar. A poeira das ruas paira no ar e atinge minhas narinas. Carros se engalfinhando por espaços nas vias principais de Maputo dão agora passagem ao comércio informal e a dezenas de jovens com mochilas nas costas e fones de ouvido atravessados no pescoço. Será o que escutam? Me pergunto.

O comércio e a movimentação de gente na região central estão à pino como o sol que não dá trégua. E acho que essa mesma movimentação começou muito antes desse mesmo sol dar o ar da graça.  

Antes do galo cantar

As manhãs iniciam sempre bem cedo para quem vive em Maputo. Principalmente, para a massa menos privilegiada que não tem um emprego no Estado, na iniciativa privada ou é um profissional com graduação superior.

“Para quem vive do comércio informal a rotina começa antes mesmo do sol nascer. E não é diferente para os homens e mulheres. Ambos estão de pé bem cedo para fazer valer o dia”, me confessa uma mulher que vende cigarros na esquina onde eu estava.

Homens se dirigem aos seus empregos na construção civil e comércio. E mulheres, geralmente, transportando os seus filhos menores às costas nas famosas “capulanas” (tema de um futuro post, prometo) iniciam seu dia realizando tarefas em casa, nas suas “machambas” – hortas e quintais no dialeto changana – para só depois saírem às ruas para comercializar seus produtos.

Mercado Central de Maputo

Muitas delas saem de casa 4h30 da manhã para pegar “chapa” e se dirigirem até à Baixa da cidade ou à região central de Maputo, onde o comércio é mais intensificado. Outras rumam para os mercados: central e do peixe (ainda vou escrever sobre esses locais).

 Assista a um video que mostra um pouco como é a cidade.

Temperatura e o horário comercial

Desde que cheguei a Maputo, tenho me admirado com a variação da temperatura por aqui. Às 6h30, horário que geralmente acordo, a temperatura está lá pelos seus 13° C com um ventinho cortante vindo do mar. A cidade é plana e o vento corre ligeiro.

Lá pelas 9h o sol começa a esquentar e me faz lembrar que estou na África. Às 13h, o astro rei não poupa ninguém. Talvez por isso, todos fazem uma pausa para almoço que aqui é “sagrado”. O comércio, as instituições públicas e bancos fecham suas portas para um pequeno intervalo.

O que vejo aberto nesses horários são os restaurantes e lanchonetes que recebem os moçambicanos e as outras etnias que aqui estão para almoçarem.  E detalhe: sem pressa.

Já às 15h30 o comércio que havia fechado reabre as portas. Outro detalhe: esse mesmo comércio estava aberto desde às 7h30. Uma justa parada, eu acho.

Quando é por volta de 17h à temperatura começa a cair bruscamente e já se começa a sentir o ventinho gelado das monções do Índico.  O sol se põe cedo e a noite vem rápida. É hora, então, dos bancos e instituições privadas e públicas cerrarem novamente suas portas. E o que percebo é que os funcionários querem agora é tomar o rumo de casa ou fazer um “happy hour”.

Há parte do comércio que permanece aberta até às 18h30. Alguns chineses, árabes e indianos insistem com suas lojas até às 19h30. Mas a essa altura, já é noite e quem consegue já está em casa.

Aqui se dorme cedo. Talvez porque o dia começa também cedo, é longo e repleto de desafios. Na capital de Moçambique, apesar do trabalho árduo que percebo e o dia vir antes do sol raiar, as pessoas (ao contrário de muita gente que vive em grande centros urbanos no Brasil) não são tão apressadas ou estressadas por isso. Carregam sempre um sorriso no rosto e começam suas rotinas bem cedo porque aqui, a vida é muitas vezes injusta e breve.

Praia Costa do Sol

Enfim, um ritmo um pouco diferente do que estamos acostumados. E nos finais de semana os maputenses relaxam. São neles que muitos vão à praia da Costa do Sol para jogar aquela pelada, tomar uma cervejinha e sentir as brisas revigorantes do Índico.

Nos próximos post’s falo um pouco sobre a história de Moçambique e trago mais detalhes da vida em Maputo.

Hambanine. Até…