Nyau e a mbira

Conheça uma dança típica de Moçambique e um instrumento originário da África Austral

 “O nyau é uma dança um pouco difícil para as pessoas entrarem. Porque antes de entrar as pessoas tem que decidir se desejam o Nyau realmente. Lá tem que cumprir tudo que vão lhe dizer. Para sair da dança não é fácil. Depois dos primeiros ensinamentos você deve segui-los à risca. Não é uma dança, por exemplo, que você pode dançar uma  vez por ano. Não, você deve entrar para o Nyau e dançá-lo para toda a vida. Entrou…entrou, estás a ver”?

(Maneto C.Tefula – dançador de Nyau)

Há, em Moçambique, uma grande diversidade cultural. Cada província (estado) tem o seu aspecto próprio. Assim como no Brasil, as províncias aqui têm suas crenças e seus modos particulares de falar e se expressar culturalmente.

Como em nosso país, as manifestações culturais em Moçambique são bastante diversificadas. Partem da dança tradicional e contemporânea, das obras no artesanato e pintura, da execução teatral, da sonoridade dos instrumentos tracionais típicos, da poesia,  e vão até os ritmos essencialmente moçambicanos.

A efervescência cultural aqui me impressiona e é tudo muito intenso, o que mostra esse traço marcante do moçambicano: o talento natural para a arte.

Maneto C. Tefula

Em Maputo, encontramos toda essa diversidade reunida, pois vivem aqui milhares de moçambicanos de outras regiões do país. Nas minhas andanças pela capital, fiz um amigo moçambicano que me levou até um dançarino Nyau, da província de Tete que, agora, apresento para você.

O nome dele é Maneto Cafmo Tefula, tem 32 anos e é natural de Tete, capital da província de mesmo nome.  O artista é casado, tem dois filhos e vive no bairro de Mapanine C em Maputo. O convidei a falar para o “Terras de Moçambique” e ele aceitou de bom grado. Nesse post ele apresenta a dança típica de sua região e fala de um instrumento muito interessante. Está curioso (a) para saber mais? Então, vamos lá.

Um patrimônio oral da humanidade

O dançarino de Nyau foi iniciado na dança tradicional moçambicana ainda pequeno. “Desde criança respiro o mundo da cultura na minha povoação que é Tete. Meu falecido pai era criador de gados e no pasto mesmo iniciamos as danças de nossos antepassados. Meu pai e um empregado ensinaram a mim e aos meus irmãos a dançar o Nyau, além de nos incentivar a tocar alguns instrumentos tradicionais”, afirma Tefula.

Na entrevista com Tefula fui percebendo essa tradição histórica e cultural da província de Tete.  A Nyau que você está conhecendo foi declarada pela UNESCO, em 2005, obra prima do patrimônio oral e imaterial da humanidade. Bacana, não?

A origem da dança, segundo o historiador Fernando Dava, está associada à tradição oral do povo de Tete e se reporta a origem do Estado Undi que existia naquele território no século XVII . Na gênese da dança, o historiador sugere que “era uma forma de manifestação do poderio do Estado Undi sobre os povos conquistados”.

A história do Nyau tem sua estruturação dentro de Moçambique, ainda que seja também executada por países vizinhos. “O Nyau é praticado em Moçambique, no Malawi e em Zâmbia. Isso é porque a fronteira faz com que as povoações daqui imitem os ritos de outros países. Mas concretamente, o Nyau é uma manifestação cultural de Moçambique. São danças que se faziam antigamente mesmo. Muito antes da guerra contra os colonos, ainda no mato não se perdia a tradição. Em Tete a dança é praticada no distrito de Angônia, distrito de Changara e no distrito de Marávia, já fronteira com o Malawi”, disse Tefula.

Assista ao vídeo onde o dançarino se apresenta.

Os passos dos bailarinos são acelerados pelo ritmo de tambores. Outro aspecto interessante é que os dançadores usam coisas do dia a dia para se enfeitarem e os movimentos são bastante fortes.  “Quando se faz a dança da Nyau os outros membros devem tocar o chocalho e estarem fardados. Quem entra no Nyau tem que correr e gingar. Naquele momento você tem poder. São muitos movimentos enquanto se está a dançar. É mágica”, afirma o nyau Tefula.

Alguns usam fibras de cipós e penas de pássaros. Outros exibem máscaras de animais e de pessoas. A maioria pinta o corpo com argila e nas pernas usam chocalhos que contribuem para o belo visual que caracteriza a dança. “A roupa é geralmente feita de cipó e palha. Cortam-se as folhas, amassamos na pedra e depois das fibras finas, tecemos o fio para colocar no corpo, geralmente, na cintura, nos pés e no joelho”, comenta Tefula.

Conforme contou o bailarino, para entrar na dança Nyau é necessária uma ritualística. “Antigamente, para se iniciar eles batiam na gente com uma vara até sangrar. Só assim você estaria pronto para o Nyau. Primeiro tem que sofrer as consequências do “segredo Nyau” para você não divulgá-lo. Você fica estatelado e só depois de curado é que se torna um Nyau”, afirma.

Para além da máscara e fardamento que você viu no vídeo, a dança é conhecida como a “dança dos mistérios”. E uma característica marcante  é que é executada somente por homens.  “A dança Nyau é secreta e normalmente é praticada à noite. Quando os dançarinos aparecem no palco não vêm todos de uma vez. Cada dançarino não sabe quem é o outro companheiro que está ao lado na dança, porque a máscara e roupas usadas escondem tudo. É como se fosse um segredo”, declara Tefula.

Há alguns ritos interessantes em relação às indumentárias da dança. “Normalmente o uniforme de Nyau não se guarda em casa de alguém. Os uniformes e máscara são escondidos no cemitério tradicional da família junto aos antepassados. Lá é um sítio que ninguém entra de qualquer maneira. Lá só pisam quando estão a enterrar alguém e para pegar as roupas da dança”, relata o dançarino.

Segredos revelados ou não por Tefula, resolvi perguntar a ele se essa dança evocam os antepassados.  E ele respondeu sem pestanejar. “Nessa dança não evocam os espíritos, apenas remoramos os nossos familiares que já se foram. Só a dança mafue e o malombo evocam os antepassados e espíritos. No nyau apenas a pessoa coloca o uniforme para não ser reconhecida”, disse.

O que percebi ao final da entrevista foi o quanto essa dança é importante para Tefula.  “Lá em Tete muitos que dançam Nyau são respeitados pela família. Eu gosto de executar o Nyau. Isso é parte de mim. Deixarei de executar quando eu me despedir dessa terra. Enquanto meu corpo aguentar quero dançá-la. Eu a executo com toda vontade e força. Daqui a alguns anos não terei força para executá-la, mas hei de ensinar os que vem depois. Orgulho-me por ser uma dança de Tete”, comentou um pouco emocionado o dançarino.

Abaixo segue um fragmento que extraí do site Uai Africa que enaltece o valor dessa dança. Confira:

“O Nyau ou “Gule Wankulo” é uma dança exótica milenar praticada por homens das comunidades situadas ao norte do rio Zambeze e adquire conotações diferentes de acordo com a ocasião em que é praticada, se em rituais de iniciação masculina, cerimônias fúnebres ou por puro entretenimento. Nyau significa o próprio dançarino, quando já paramentado por suas vestimentas e adornos e “Gule Wankulo”, “a grande dança”.

Sua origem está associada ao surgimento do Estado Undi em meados do século XVII – essa manifestação popular de elevadíssimo valor cultural corre risco de extinção e é ameaçada pelo progresso do mundo globalizado avançando sobre terras africanas, pela educação formal cada vez mais substituindo a tradicional limitando a transmissão do conhecimento da dança entre as gerações, assim como pela constante migração do homem do campo para a cidade e entradas culturais do mundo globalizado nas culturas tradicionais.

Reconhecida toda a sua relevância como meio de integração social e ajustamento dos comportamentos individuais do sujeito às suas raízes, a UNESCO, em novembro de 2005 reconheceu a dança como “Obra-Prima do Patrimônio Oral e Intangível da Humanidade” e desde então ingressou na lista das 90 obras protegidas pelas nações unidas.”

Instrumento curioso

Na entrevista com o dançarino Nyau, conheci também um instrumento singular da África Austral com um som tranquilo e harmonioso. E claro, eu não poderia deixar de dividir isso. Você conhece a Mbira? Clique no video abaixo e curta o som.

Mbira

Não se sabe ao certo onde surgiu esse instrumento tradicional, pelo que percebi. No entanto, muitos moçambicanos dizem que foram eles que criaram a “mbira”. “Os nomes que damos a ele lá em Tete é insanse, calimba e xitata. Há muita gente que não sabe a sua real origem. Há pessoas que dizem que é de Moçambique e tem outras quem falam que é do Zimbábue”, comenta o dançarino e tocador de “mbira”.

De acordo com ele, a proximidade de Tete com o Zimbábue e a forma de  colonização podem ter gerado essa dúvida. “Como Tete faz fronteira com o Zimbábue, os nossos antepassados que iam para o país vizinho a procura de trabalho levaram o instrumento para lá”, afirma.

Tefula esclarece ainda que “o  Zimbábue foi colonizado por ingleses que conseguiram assimilar melhor a cultura dos povos de lá. Eles valorizaram mais a “mbira” tocada naquelas terras e se puseram a disseminar o instrumento como se fosse do Zimbábue. Só que isso é um erro. Na verdade, a “mbira” é um instrumento de Tete. Muitos países de África pensam que esse instrumento é de origem do Zimbábue, mas no fundo no fundo, é de origem moçambicana”.

A “mbira” é como se fosse uma placa de som ligada numa cabaça de madeira que faz um som mais acústico. Vulgarmente, seria um pequeno piano para ser tocado basicamente com os polegares.  A caixa de som de madeira, geralmente em formato de abóbora, faz ressoar o som das ligas de metal do instrumento. “Para fazer uma mbira são tecidas placas metálicas na forma de teclas de piano e se colocam dentro de uma cabaça ao redor para o som ficar mais evidente”, afirma.

Segundo Tefula, a mbira em Tete tem algumas particularidades. “Na minha região esse instrumento chama-se “mbira nhonga-nhonga” que é um nome do Zimbábue e tem 15 teclas. Mas a primeira mbira moçambicana levada para o Zimbábue fazia-se com 14 teclas. Aos poucos o instrumento foi evoluindo no Zimbábue e hoje já se faz esse instrumento com 16, 21 e até 32 teclas. A “calimba”, um tipo de “mbira” por exemplo, leva 32 teclas. As “mbiras” com mais teclas são diferentes na forma de executar, com mais teclas toca-se diferente. O que faz a diferenças das “mbiras” tocadas aqui ou no Zimbábue é a quantidade de teclas”, declara.

Espero que tenha gostado. Hambanine e até o próximo post!

Fontes de pesquisa para esta matéria:

Uai África

Giselda Costa – Dança Nyau

Museu da Música

Music Edu