“Terras de Moçambique” pelas “Terras de Moçambique”

Identidade, educação, atualidade e futuro. Confira o que pensa um dos maiores intelectuais do país

Ele divide seu tempo entre a família, os amigos, a docência acadêmica, a literatura, a direção de projetos culturais e a apresentação de um programa de entrevistas numa TV de Moçambique.

Carrega o olhar daqueles que realmente sabem o que dizem. De quem já viveu intensamente. De quem experimentou muito da vida e soube aproveitar as experiências. De quem sabe sentir e dar sentido.

Tem um olhar penetrante de quem fala com propriedade. De quem tem posições firmes. Sua luta de vida é como a de muitos moçambicanos e brasileiros. Venceu pelos méritos de sua formação intelectual e acadêmica.  Quem é ele? Uma mente pensante, que agora apresento para você.

Com timbre sereno e por vezes enérgico (quando o tom da conversa pede),  o professor Dr. Nataniel José Ngomane, 51 anos, casado e pai de duas jovens, PhD. em  Linguística e Literatura e Diretor da Escola de Comunicação e Artes – ECA da Universidade Eduardo Mondlane – UEM (maior universidade do país), falou para o “Terras de Moçambique” sobre a contínua construção da identidade moçambicana, ressaltou a importância da educação no processo de evolução de seu país, e ainda fez uma análise sincera sobre o futuro próximo dessa pátria e seus desafios.

Ngomane me recebeu em seu gabinete que se localiza no campus de Comunicação e Artes da Eduardo Mondlane, na parte baixa de Maputo. Nas quase duas horas que estive ao seu lado, percebi um sujeito simples e extremamente profissional.

Apresentou-me o campus que ele está à frente, e me deu de presente a possibilidade de conhecer professores e alunos de jornalismo. Sempre atencioso, contou-me de algumas melhoras significativas que a área de comunicação tem alcançado em Moçambique, e revelou alguns problemas.

A entrevista com ele começou na parte da manhã e se estendeu até o horário do almoço. Mas algo ainda estava incompleto. Minha entrevista não havia terminado. Faltava conhecer a pessoa.  Marcamos, então, uma cerveja para a noite. Num bar. Quer lugar melhor para conhecer uma pessoa? Longe dos ditames do trabalho, das inquisições do relógio e das convenções profissionais? Pois é, em meio a seus amigos pude perceber os traços marcantes de sua personalidade.

Um bom amigo, um cara generoso e alguém apaixonado por seu país. Percebi uma nuance interessante: um romance íntimo nutrido pelo Brasil. Um eterno flerte com o nosso país, eu diria. Gente reunida, cerveja e um papo agradável. E num dado momento das conversas no bar, pude ver o quanto ele é respeitado por seus amigos. Junto a Ngomane estavam literatos e gente envolvida com dramaturgia em Moçambique.

Num bate papo entre ele e Eduardo White, renomado escritor moçambicano, o poeta White deixou escapar sua admiração por Ngomane. “Brasileiro jornalista, olhe bem quem está diante de si. Este gajo tem estirpe libertadora êh pah. A linhagem desse senhor que está a sua frente transcende a guerra contra os colonos e chega à porta do clã de Thaca Zulo. De sangue azul esse tal”, brincou falando sério.

Por respeito, não ousei confirmar com White e Ngomane a veracidade do que acabara de ouvir. Se meu entrevistado tem ou não sangue nobre correndo nas veias, não me importou saber. Pois vi nele outro tipo de nobreza, para além da consanguínea que, por ventura, Nataniel poderia ter. Percebi a nobreza de um educador nele.

Isso tudo que disse acima foi só para chegarmos na entrevista que ele me concedeu. Aqui, ele fala coisas muito interessantes sobre Moçambique, mas bem que serviria para o nosso Brasil. Vamos a ela.

ENTREVISTA:

João: Ngomane, você pode falar para o “Terras de Moçambique” como você definiria a “moçambicanidade”?

Dr. Nataniel J. Ngomane: Há uma desvantagem para eu falar sobre essa tal moçambicanidade. Porque sou acadêmico e professor universitário. Isso me faz pensar objetivamente.

Eu acho que ninguém nasce moçambicano. Quer dizer, eu posso nascer nesse país, mas isso não significa que eu seja moçambicano.

Há muitos moçambicanos que não nasceram aqui. Nasceram lá fora, nasceram no Brasil, nos Estados Unidos, na Inglaterra e os pais foram até a Embaixada e registraram seus filhos como moçambicanos. É um passaporte apenas. E um passaporte é uma coisa que a gente pode mudar depois que cresce e quando desejar.

Quer dizer, se eu estiver cansado de viver no meu país, vou por exemplo para a Alemanha, e digo: olha, agora eu quero ser isto e pronto.

Quer um exemplo? Rui Guerra. Ele nasceu e cresceu em Moçambique, e hoje, é um cineasta brasileiro, com um trabalho reconhecido junto ao Chico Buarque e internacionalmente reconhecido como um cineasta legitimamente tupiniquim. Mas para mim Rui Guerra é um moçambicano. Então, é uma coisa meio complicada essa questão da identidade e da nacionalidade. Talvez, eu pudesse dizer que a nacionalidade é um pequeno componente da identidade.

Eu quando nasci, no tempo colonial, precisava de um bilhete de identidade, (no Brasil vocês chamam de RG) para ir à escola. E na altura, meu bilhete de identidade dizia que eu era um cidadão português. Foi na época quando ainda éramos colônia de Portugal, e no bilhete de identidade de capa azul vinha na capa que minha nacionalidade era portuguesa.

Ora, com o tempo, Moçambique ficou independente e trocamos os bilhetes dessa identidade que nos era obrigada. Deixamos de ser cidadãos portugueses para sermos cidadãos moçambicanos.

O que isso significa? Significa, que essa questão da identidade, como dizem alguns teóricos, é uma coisa em permanente construção. Para mim não existem elementos objetivos e concretos que façam de mim um moçambicano. A questão é mais sensível.

Eu costumo dizer que não é possível a gente sair para a rua e recolher uma série de elementos e desses mesmos elementos nos tornarmos um moçambicano. Não existe isso.

Ser moçambicano é uma construção ideológica e totalmente abstrata. E que só termina com a morte do sujeito. Enquanto o sujeito estiver vivo estará em permanente construção.

João: Ngomane, eu entrevistei uma fonte que me dizia que ser moçambicano é comer xima e abadia. O que você acha? Isso é conversar sobre a questão da identidade moçambicana de uma forma muito reducionista?

Dr. Nataniel J. Ngomane: Comer xima e abadia, coisas essencialmente moçambicanas, não torna a pessoa um moçambicano.

Um chinês, pode comer xima e abadia e ainda continuar sendo chinês. A gente pode comer matapa, mas isso não significa ser um moçambicano. Mesmo porquê, há indivíduos que são perfeitamente moçambicanos, e que preferem um espaguetti italiano. Uma coisa não tem a ver com a outra.

Há toda uma construção psicológica, ideológica e de identificação com uma série de situações. E muitas dessas questões são inexplicáveis porque pertencem ao nível do abstrato.

A gente sai e vai para Paris, por exemplo. Estou lá com minha esposa em um café e vejo uma pessoa. E digo: “eh páh”, esse sujeito é moçambicano. Mas como é que a gente sabe disso? Porque a roupa que ele usa qualquer pessoa pode usar, o penteado que ele usa qualquer pessoa pode usar. Aí, para saber vamos até a ele. Chegamos e perguntamos: desculpa, você é moçambicano? Sim, sou moçambicano da província tal.

Com vocês brasileiros ocorre o mesmo. Vemos um sujeito e logo pensamos: esse aí é brasileiro. Depois de ter com ele constatamos essa brasilidade.

Então, o que explica isso? Há uma construção psíquica e altamente abstrata sobre essa questão que comunga vários aspectos. E creio que a conjugação desses outros aspectos é fazem com que a pessoa se sinta um moçambicano, seja visto como um moçambicano e se torne ou não um moçambicano. Não há um, dois ou três elementos concretos sobre isso.

Há aqui, por exemplo, uma professora brasileira que conheço e que se casou com um moçambicano. Ela dá aulas em Maputo e tem filhas nascidas em Moçambique.

Um dia ela resolveu pleitear a nacionalidade moçambicana e conseguiu isso em termos de direitos civis, deveres e garantias. Mas para muitos ela continua e é uma brasileira. Então, como a gente explica isso? É uma construção e caminha no plano do abstrato.

Há um escritor da Martinica que diz que uma coisa que eu cito sempre: (…) “nós as pessoas, não somos um ser como a filosofia nos ensinou, somos na verdade um “permanente sendo”, “um permanente sempre”.

Quer dizer, a gente vai adquirindo novas qualidades e vai perdendo algumas qualidades. E é nessa interseção de adquirir e perder que se vai construindo um imaginário do que é ser um moçambicano.

Eu, por exemplo, me sinto perfeitamente moçambicano no meu imaginário. Mas no meu imaginário, o “sentir-se moçambicano”, não se identifica tanto com o tipo de comida que eu como, com o tipo de roupa que eu uso ou com tipo de penteado que eu faço.

O meu “sentir-se moçambicano”, tem mais a ver com os ideais do país. Quer dizer, eu quero Moçambique com mais escolas, com menos corrupção, com melhor saúde, com mais cultura, com menos gravidez indesejada, com mais nutrição, com mais técnicos formados, com mais música, com melhores casas, com menos doenças, etc. Quer dizer, o meu compromisso com o ideal de Moçambique é que faz de mim um moçambicano. Querer um país equilibrado. Esse é o meu lado moçambicano.

Há algum tempo, houve um debate no parlamento e nas escolas sobre o que é ser um moçambicano. Debateram o que é ser um moçambicano original, o que é um moçambicano de segundo grau e terceiro grau.

Ora, para mim, isso é infrutífero. Cair nessas questões do sujeito cujo os avós nasceram em Moçambique para falar que ele é moçambicano de primeira ordem é baboseira.

Isso é relativo visto que alguns que vivem aqui é bem capaz que tenham a cabeça lá nos Estados Unidos. E outros que somente o pai nasceu aqui, podem ter muitas relações com o dia a dia do país e muito mais proximidade.

Acho que falar em identidade é complicado. Porque só vamos descobrindo isso através das atitudes diversas das pessoas, dos sonhos, das inquietações e frustrações. Tudo isso faz um sujeito moçambicano.

João: Ngomane, como um intelectual do seu tempo, de que forma você vê o moçambicano?

Dr. Nataniel J. Ngomane: Olha, eu sou uma pessoa muito crítica. Eu morei em Cuba treze anos, depois morei oito anos em São Paulo. Já fui à França, Alemanha, Finlândia, Portugal, outros países da África, etc. Vi muita coisa e assimilei muita coisa que deixou meu olhar mais sensível, crítico e exigente. E muitas vezes faço uma comparação da realidade moçambicana com essa realidade outra que vivi lá fora.

O que costumo dizer a respeito? Costumo dizer coisas que, às vezes, minha mulher e filhas não gostam. Costumo dizer que esse país deveria ser substituído. Deveríamos dar um jeito de substituir esse país por um país melhor.

Eu acho que o moçambicano é uma pessoa muito devagar. A dinâmica social moçambicana é muito vagarosa, me parece uma lesma.

As dinâmicas de hoje são muito rápidas e ainda não conseguimos engrenar nessa velocidade.

Você vai para a rua e vê moçambicano com telefone celular e acesso à internet. Temos marcas de carro melhores que da cidade de São Paulo. Então, há qualquer coisa aqui que não está a funcionar direito. Em termos de, chamemos assim, “sistema da moçambicanidade”. Não está a funcionar.

Se por um lado, aparentemente, há este avanço tecnológico permitindo o moçambicano acesso a celulares, laptops e carros super modernos, vemos do outro a maior parte da população numa desgraça absoluta. E não há soluções para essas questões pelo menos a médio e curto prazo.

Então, vejo que é uma sociedade vagarosa nesse sentido. A gente ainda se preocupa de forma muito individual. E o moçambicano torna-se vagaroso, porque ele próprio não pressiona o sistema.

É como um panela de pressão. Se você tem uma panela de pressão e não coloca ela no fogo, não vai acontecer. Agora, se você coloca essa panela de pressão na fogueira, em algum momento vai dar resultado. E essa “pressão” não existe para parte do moçambicano. O moçambicano é muito conformista. A coisa está boa, ótimo. A coisa não está boa, paciência.

João: Como um professor universitário e diretor geral do departamento de comunicação e artes da maior universidade do país, você vê esse “embrião transformador” na mente dos seus jovens alunos?

Dr. Nataniel J. Ngomane: (risos) Eu tento estimular. A minha visão é de que a mentalidade está adormecida. E é preciso chacoalhar isso.

Eu digo palavrão em sala de aula. Eu percebo como as pessoas ficam desconfortáveis. Aí eu pergunto: por que vocês estão desconfortáveis com os palavrões que falo em sala de aula? Não deveriam ficar. Deveriam ficar desconfortáveis com a sujeira nas ruas e quando vêem alguém a urinar nas calçadas.

Chamo-os de idiotas. E essa coisa de chamá-los assim não é efetivamente chamá-los de idiotas. É mais que isso, é uma provocação. Eu quero que esses jovens universitários se libertem. Então, é o que faço. Instigo.

Eu provoco bastante. De tal forma que tenho orgulho que meu estudante seja um estudante diferente. No final do ano, ele se liberta, é capaz de criticar.

João: Você acredita que esteja injetando combustível nesse, digamos: “embrião adormecido”?

Dr. Nataniel J. Ngomane: Eu sempre digo. Olha, vocês são estudantes universitários. Não estão mais no primário ou secundário. As grandes mudanças em vários países, historicamente, começaram em ambientes universitários. No meu tempo não éramos tão quietos. No meu tempo provocávamos o professor. Queria algo mais.

Agora esses pequenos sinais de indisciplina são sinais de rebeldia. E são exatamente os caminhos do inconformismo que mudam algo.

Quando a gente começa a se conformar demais com o sistema alguma coisa está errada. Para citar o Garcia Marquez: “envelhecer não é você ficar com rugas, envelhecer é você perder a capacidade de criar como quando criava ainda jovem”.

Então quando você começa a olhar ao redor e a conformar-se com aquilo que existe você está a ficar velho. Vejo “jovens velhos” hoje com 18, 20 anos. E não pode ser, é preciso quebrar isso. É preciso questionar. Aquilo que o professor diz em sala de aula não é para você dizer sim senhor mestre. Não. É preciso analisar e discordar.

João: No ano de 2002, na primeira eleição que Lula venceu no Brasil, um candidato naquele momento de nome Cristovão Buarque, apresentou uma proposta que ganhou muita aceitação no país, levando grande parte da fatia do bolo eleitoral brasileiro. Buarque falava naquela época de uma Revolução pela Educação. Você acredita nesse mecanismo como forma de mudança de paradigmas sociais?

Dr. Nataniel J. Ngomane: Para mim a saída para Moçambique é a educação. Mas isso não quer dizer construção de mais escolas. A questão é injetar o vírus da tecnologia e da ciência na base da sociedade.

Eu muitas vezes, em sala de aula, uso a Coréia do Sul como exemplo. A Coréia do Sul há 50 anos não era nada. Estava no mesmo nível e patamar de desenvolvimento do Senegal.

Passados 50 anos e assumindo essas posturas de colocar a tecnologia na educação e implementar ainda na base dos estudantes a ciência e a formação acadêmica, a Coréia do Sul, está lá em cima e Senegal continua no mesmo lugar. E a grande pergunta é: o que a Coréia do Sul fez que o Senegal não fez?

Há pouco tempo vi uma matéria a falar que a Coréia do Sul está a implementar computadores com internet em todos as classes de ensino primário no país.

O que vão ser esses meninos que tem internet e acesso a uma educação de qualidade desde a tenra idade daqui há 10 ou 20 anos? Esses miúdos que tiveram uma educação orientada para fazer um bom uso da internet para adquirir mais conhecimento? O que serão? Eles serão. Essa é a resposta. Eles serão alguma coisa. E essa questão da educação aplica-se ainda com mais urgência para Moçambique que  para o Brasil, mas não nos esqueçamos que deve ser feita na base. Junto aos miúdos.

Aqui você ainda nota muitos absurdos pela falta de conhecimento das coisas. O que está a acontecer? Há todo um chão que está vazio e uma das formas de preencher esse chão para mim é a ciência por meio da educação.

O mais importante é o saber. E a partir do saber você respeitar o outro, proteger o outro e ajudar o outro a ser melhor. Para mim é por aí, sem educação esse país não vai a lugar nenhum.

Quer ouvir na íntegra a entrevista? É só clicar abaixo. Vale muito à pena!

 

Conversando com esse senhor de sorriso largo, que mais parece um jovem de 20 anos sonhador no jeito de falar e gesticular, vi que seu país precisa de suas palavras. E se a educação em Moçambique é o caminho, com certeza Ngomane é, a meu ver, uma rota.

Quer saber mais sobre o que pensa Ngomane? Clique aqui  e confira um texto dele falando sobre a “noção de lusofonia”. Espero que tenha gostado. Hambanine e até o próximo post!

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Nyau e a mbira

Conheça uma dança típica de Moçambique e um instrumento originário da África Austral

 “O nyau é uma dança um pouco difícil para as pessoas entrarem. Porque antes de entrar as pessoas tem que decidir se desejam o Nyau realmente. Lá tem que cumprir tudo que vão lhe dizer. Para sair da dança não é fácil. Depois dos primeiros ensinamentos você deve segui-los à risca. Não é uma dança, por exemplo, que você pode dançar uma  vez por ano. Não, você deve entrar para o Nyau e dançá-lo para toda a vida. Entrou…entrou, estás a ver”?

(Maneto C.Tefula – dançador de Nyau)

Há, em Moçambique, uma grande diversidade cultural. Cada província (estado) tem o seu aspecto próprio. Assim como no Brasil, as províncias aqui têm suas crenças e seus modos particulares de falar e se expressar culturalmente.

Como em nosso país, as manifestações culturais em Moçambique são bastante diversificadas. Partem da dança tradicional e contemporânea, das obras no artesanato e pintura, da execução teatral, da sonoridade dos instrumentos tracionais típicos, da poesia,  e vão até os ritmos essencialmente moçambicanos.

A efervescência cultural aqui me impressiona e é tudo muito intenso, o que mostra esse traço marcante do moçambicano: o talento natural para a arte.

Maneto C. Tefula

Em Maputo, encontramos toda essa diversidade reunida, pois vivem aqui milhares de moçambicanos de outras regiões do país. Nas minhas andanças pela capital, fiz um amigo moçambicano que me levou até um dançarino Nyau, da província de Tete que, agora, apresento para você.

O nome dele é Maneto Cafmo Tefula, tem 32 anos e é natural de Tete, capital da província de mesmo nome.  O artista é casado, tem dois filhos e vive no bairro de Mapanine C em Maputo. O convidei a falar para o “Terras de Moçambique” e ele aceitou de bom grado. Nesse post ele apresenta a dança típica de sua região e fala de um instrumento muito interessante. Está curioso (a) para saber mais? Então, vamos lá.

Um patrimônio oral da humanidade

O dançarino de Nyau foi iniciado na dança tradicional moçambicana ainda pequeno. “Desde criança respiro o mundo da cultura na minha povoação que é Tete. Meu falecido pai era criador de gados e no pasto mesmo iniciamos as danças de nossos antepassados. Meu pai e um empregado ensinaram a mim e aos meus irmãos a dançar o Nyau, além de nos incentivar a tocar alguns instrumentos tradicionais”, afirma Tefula.

Na entrevista com Tefula fui percebendo essa tradição histórica e cultural da província de Tete.  A Nyau que você está conhecendo foi declarada pela UNESCO, em 2005, obra prima do patrimônio oral e imaterial da humanidade. Bacana, não?

A origem da dança, segundo o historiador Fernando Dava, está associada à tradição oral do povo de Tete e se reporta a origem do Estado Undi que existia naquele território no século XVII . Na gênese da dança, o historiador sugere que “era uma forma de manifestação do poderio do Estado Undi sobre os povos conquistados”.

A história do Nyau tem sua estruturação dentro de Moçambique, ainda que seja também executada por países vizinhos. “O Nyau é praticado em Moçambique, no Malawi e em Zâmbia. Isso é porque a fronteira faz com que as povoações daqui imitem os ritos de outros países. Mas concretamente, o Nyau é uma manifestação cultural de Moçambique. São danças que se faziam antigamente mesmo. Muito antes da guerra contra os colonos, ainda no mato não se perdia a tradição. Em Tete a dança é praticada no distrito de Angônia, distrito de Changara e no distrito de Marávia, já fronteira com o Malawi”, disse Tefula.

Assista ao vídeo onde o dançarino se apresenta.

Os passos dos bailarinos são acelerados pelo ritmo de tambores. Outro aspecto interessante é que os dançadores usam coisas do dia a dia para se enfeitarem e os movimentos são bastante fortes.  “Quando se faz a dança da Nyau os outros membros devem tocar o chocalho e estarem fardados. Quem entra no Nyau tem que correr e gingar. Naquele momento você tem poder. São muitos movimentos enquanto se está a dançar. É mágica”, afirma o nyau Tefula.

Alguns usam fibras de cipós e penas de pássaros. Outros exibem máscaras de animais e de pessoas. A maioria pinta o corpo com argila e nas pernas usam chocalhos que contribuem para o belo visual que caracteriza a dança. “A roupa é geralmente feita de cipó e palha. Cortam-se as folhas, amassamos na pedra e depois das fibras finas, tecemos o fio para colocar no corpo, geralmente, na cintura, nos pés e no joelho”, comenta Tefula.

Conforme contou o bailarino, para entrar na dança Nyau é necessária uma ritualística. “Antigamente, para se iniciar eles batiam na gente com uma vara até sangrar. Só assim você estaria pronto para o Nyau. Primeiro tem que sofrer as consequências do “segredo Nyau” para você não divulgá-lo. Você fica estatelado e só depois de curado é que se torna um Nyau”, afirma.

Para além da máscara e fardamento que você viu no vídeo, a dança é conhecida como a “dança dos mistérios”. E uma característica marcante  é que é executada somente por homens.  “A dança Nyau é secreta e normalmente é praticada à noite. Quando os dançarinos aparecem no palco não vêm todos de uma vez. Cada dançarino não sabe quem é o outro companheiro que está ao lado na dança, porque a máscara e roupas usadas escondem tudo. É como se fosse um segredo”, declara Tefula.

Há alguns ritos interessantes em relação às indumentárias da dança. “Normalmente o uniforme de Nyau não se guarda em casa de alguém. Os uniformes e máscara são escondidos no cemitério tradicional da família junto aos antepassados. Lá é um sítio que ninguém entra de qualquer maneira. Lá só pisam quando estão a enterrar alguém e para pegar as roupas da dança”, relata o dançarino.

Segredos revelados ou não por Tefula, resolvi perguntar a ele se essa dança evocam os antepassados.  E ele respondeu sem pestanejar. “Nessa dança não evocam os espíritos, apenas remoramos os nossos familiares que já se foram. Só a dança mafue e o malombo evocam os antepassados e espíritos. No nyau apenas a pessoa coloca o uniforme para não ser reconhecida”, disse.

O que percebi ao final da entrevista foi o quanto essa dança é importante para Tefula.  “Lá em Tete muitos que dançam Nyau são respeitados pela família. Eu gosto de executar o Nyau. Isso é parte de mim. Deixarei de executar quando eu me despedir dessa terra. Enquanto meu corpo aguentar quero dançá-la. Eu a executo com toda vontade e força. Daqui a alguns anos não terei força para executá-la, mas hei de ensinar os que vem depois. Orgulho-me por ser uma dança de Tete”, comentou um pouco emocionado o dançarino.

Abaixo segue um fragmento que extraí do site Uai Africa que enaltece o valor dessa dança. Confira:

“O Nyau ou “Gule Wankulo” é uma dança exótica milenar praticada por homens das comunidades situadas ao norte do rio Zambeze e adquire conotações diferentes de acordo com a ocasião em que é praticada, se em rituais de iniciação masculina, cerimônias fúnebres ou por puro entretenimento. Nyau significa o próprio dançarino, quando já paramentado por suas vestimentas e adornos e “Gule Wankulo”, “a grande dança”.

Sua origem está associada ao surgimento do Estado Undi em meados do século XVII – essa manifestação popular de elevadíssimo valor cultural corre risco de extinção e é ameaçada pelo progresso do mundo globalizado avançando sobre terras africanas, pela educação formal cada vez mais substituindo a tradicional limitando a transmissão do conhecimento da dança entre as gerações, assim como pela constante migração do homem do campo para a cidade e entradas culturais do mundo globalizado nas culturas tradicionais.

Reconhecida toda a sua relevância como meio de integração social e ajustamento dos comportamentos individuais do sujeito às suas raízes, a UNESCO, em novembro de 2005 reconheceu a dança como “Obra-Prima do Patrimônio Oral e Intangível da Humanidade” e desde então ingressou na lista das 90 obras protegidas pelas nações unidas.”

Instrumento curioso

Na entrevista com o dançarino Nyau, conheci também um instrumento singular da África Austral com um som tranquilo e harmonioso. E claro, eu não poderia deixar de dividir isso. Você conhece a Mbira? Clique no video abaixo e curta o som.

Mbira

Não se sabe ao certo onde surgiu esse instrumento tradicional, pelo que percebi. No entanto, muitos moçambicanos dizem que foram eles que criaram a “mbira”. “Os nomes que damos a ele lá em Tete é insanse, calimba e xitata. Há muita gente que não sabe a sua real origem. Há pessoas que dizem que é de Moçambique e tem outras quem falam que é do Zimbábue”, comenta o dançarino e tocador de “mbira”.

De acordo com ele, a proximidade de Tete com o Zimbábue e a forma de  colonização podem ter gerado essa dúvida. “Como Tete faz fronteira com o Zimbábue, os nossos antepassados que iam para o país vizinho a procura de trabalho levaram o instrumento para lá”, afirma.

Tefula esclarece ainda que “o  Zimbábue foi colonizado por ingleses que conseguiram assimilar melhor a cultura dos povos de lá. Eles valorizaram mais a “mbira” tocada naquelas terras e se puseram a disseminar o instrumento como se fosse do Zimbábue. Só que isso é um erro. Na verdade, a “mbira” é um instrumento de Tete. Muitos países de África pensam que esse instrumento é de origem do Zimbábue, mas no fundo no fundo, é de origem moçambicana”.

A “mbira” é como se fosse uma placa de som ligada numa cabaça de madeira que faz um som mais acústico. Vulgarmente, seria um pequeno piano para ser tocado basicamente com os polegares.  A caixa de som de madeira, geralmente em formato de abóbora, faz ressoar o som das ligas de metal do instrumento. “Para fazer uma mbira são tecidas placas metálicas na forma de teclas de piano e se colocam dentro de uma cabaça ao redor para o som ficar mais evidente”, afirma.

Segundo Tefula, a mbira em Tete tem algumas particularidades. “Na minha região esse instrumento chama-se “mbira nhonga-nhonga” que é um nome do Zimbábue e tem 15 teclas. Mas a primeira mbira moçambicana levada para o Zimbábue fazia-se com 14 teclas. Aos poucos o instrumento foi evoluindo no Zimbábue e hoje já se faz esse instrumento com 16, 21 e até 32 teclas. A “calimba”, um tipo de “mbira” por exemplo, leva 32 teclas. As “mbiras” com mais teclas são diferentes na forma de executar, com mais teclas toca-se diferente. O que faz a diferenças das “mbiras” tocadas aqui ou no Zimbábue é a quantidade de teclas”, declara.

Espero que tenha gostado. Hambanine e até o próximo post!

Fontes de pesquisa para esta matéria:

Uai África

Giselda Costa – Dança Nyau

Museu da Música

Music Edu

A verdadeira lata de sardinha ambulante

Transporte público na capital de Moçambique é sinônimo de desrespeito

O transporte coletivo é parte essencial de uma grande cidade. Falei o óbvio, não? Mas aqui em Maputo o buraco é mais em baixo.

De acordo com uma matéria de um jornal de Moçambique, O País, a capital Maputo “tem um crescimento populacional de 1,2 por cento por ano. Segundo os resultados do Censo Geral da População e Habitação, a cidade contava com 1.094.315 habitantes em Agosto de 2007”, ou seja, a população tem crescido a cada ano e os serviços de  transporte coletivo não têm acompanhado o ritmo. Quer saber mais sobre isso? Clique aqui.

Me indignar com o que vejo os moçambicanos passando e sentir esses problemas do transporte público em Maputo na pele (afinal, sou também um usuário), me motivou a escrever esse post. Dos muitos lugares que conheci, talvez Maputo seja a cidade que mais sofre com o descaso político em relação ao transporte coletivo. Nem em La Paz, capital caótica da paupérrima Bolívia, percebi tantos problemas.

Para falar a verdade, acho que Maputo não tem de fato um sistema de transporte público. A TPM é uma TPM mesmo. A responsável TPM (Transportes Públicos de Maputo) está de brincadeira com a população.

O que vejo aqui é uma humilhação diária que os moçambicanos enfrentam. Bixas (filas, como dizem por aqui) intermináveis e preços altos dos “chapas” (van, no dialeto changana) que não condizem com a realidade do serviço prestado. Tudo isso é apenas a ponta do iceberg. Assim como em qualquer grande centro urbano no mundo, os moçambicanos  dependem diretamente do transporte coletivo para ir ao trabalho, ao médico, para a ir à escola, entre outros destinos.

A  dificuldade de locomoção da população por aqui beira o absurdo. Todos sabemos que os transportes públicos em um metrópole são fundamentais para levar as pessoas de um ponto a outro na área dessa grande cidade. E aqui não há ônibus (poucos, na verdade) ou metrô que prestam serviços minimamente decentes, como estamos acostumados em nosso país. Acha o transporte público ruim no Brasil? Experimente vir para Maputo (risos).

O transporte coletivo é feito na maioria esmagadora das vezes pelos “chapas” e o desconforto, as más condições dos veículos e a superlotação incomodam muito os usuários. Não se respeita o número máximo de passageiros dentro dos veículos e quando todos entram, vejo dezenas de passageiros ficarem com o bumbum para fora  e outros sentados na janela. Cinto de segurança? Ah, nem sei se existe isso para quem pega os “chapas”.

Na capital de Moçambique não há ônibus coletivos que ligam o centro aos bairros e os bairros ao centro. O que a população utiliza por aqui são essas vans de 15 lugares. Dependendo do horário você pode entrar numa van de 15 lugares e se deparar com  mais de 25 moçambicanos espremidos como sardinhas dentro de uma lata motorizada.

Uma cartilha politicamente correta daria conta de que o meio de locomoção coletivo de uma grande cidade deve propiciar aos munícipes condições plenas de se locomover, garantindo o seu direito de ir e vir. Ela poderia mencionar a luta por uma melhor qualidade de vida para a população, traduzida por condições de transporte dignas, com segurança e acessibilidade. Poderia ainda intencionar uma rede de transportes integrada e eficiente para o povo.

Só que aqui o “maputense” fica a ver “chapas” lotados, apressados e que não o atendem. Os veículos são superantigos e os motoristas despreparados dirigem como se estivessem dentro de um fórmula 1. Detalhe: muitas dessas vans que transitam em Maputo sequer tem a documentação regularizada junto aos órgãos próprios.

Debates pertinentes ao transporte público são sempre bem vindos em qualquer grande centro urbano do mundo, mas no caso de Maputo, acho difícil se chegar a uma conclusão precisa. Aqui, como na maioria das metrópoles brasileiras, o transporte coletivo é caótico. Além do tráfego intenso de automóveis, vias pouco sinalizadas, esburacadas e semáforos que não se entendem, a capital de Moçambique sofre com a falta de cuidados por parte do poder público.

Pelo que apurei, o transporte coletivo é um dos serviços mais criticados pelos moradores de Maputo. E não é difícil entender o porquê disso, concorda?

Estimativas do Conselho Municipal

Chapas desconfortáveis e em más condições, motoristas que não param nos pontos e desrespeito aos horários são as críticas mais recorrentes.

Pensando nisso fui até a “Direcção Municipal de Transporte e Trânsito” de Maputo, órgão responsável pelo trânsito na capital vinculado ao Conselho Municipal (entenda Prefeitura), para falar com o responsável. O chefe desse departametno não se encontrava no gabinete durante toda a tarde que esperei e os funcionários não quiseram se manifestar sobre o assunto. Lá obtive apenas dados interessantes que mostro a seguir.

De acordo como o órgão que cuida do trânsito, “o número estimado de passageiros transportados durante o mês pelos operadores de transportes coletivos cadastrados é de 2,870.640 passageiros”.  Pensei comigo: e os que não estão cadastrados? Bom, deixa isso para lá. Mas a verdade é que esse número é bem maior.

Veja abaixo o que pensam alguns usuários de chapa e chapeiros em Maputo.

Usuários:

Simião Alberto, 25 anos, comerciante informal. É morador do bairro de Zimpeto. 

“Deve mudar a atitude dos cobradores e dos motoristas, porque há muitos chapas, mas não há seriedade por parte deles. Eles encurtam as rotas e não chegam aos terminais. Isso provoca um grande fluxo de pessoas e bixas enormes. (…) penso que o município deve entrar em contato com os motoristas para sensibilizá-los a mudar de comportamento, porque sofremos muito quando há fluxo de pessoas nas paragens e tem aparecido oportunistas que furtam nossos bens. Os chapeiros encurtam a distância sempre. Como eu não tenho carro pessoal e moro longe, a minha deslocação depende dos chapas e só através deles chego ao meu setor de trabalho.

(…) o preço dos chapas é razoável. O que tem acontecido é que acabamos gastando mais em relação ao valor simbólico marcado devido as ligações que fazemos diariamente. Para chegar ao Museu saindo de Zimpeto subo três chapas e diariamente gasto 25 meticas”.

Isabel Fernando, 42 anos, doméstica. É moradora do bairro de Kongolote. 

“É difícil subir chapa. Diariamente para chegar em casa tenho de me sacrificar e entrar em qualquer chapa. Fico mais de 40 minutos a espera de chapa todos os dias. Apesar de existir muitos chapas para chegar em casa subo dois ou três chapas e em média gasto 30 meticais. O serviço só não é melhor porque falta planejamento. (…) o valor pago acho justo, mas nos tratam mal”.

 

Lucas José Cosabla, 52 anos, contabilista. Trabalha na Câmara do Comércio de Moçambique. É morador no bairro da Machava Socimol. 

“Tudo deve mudar porque diariamente tenho ficado duas horas a espera de chapas. Estou aqui a mais de 35 minutos a espera do transporte e até agora nada. Os motoristas devem parar de encurtar as rotas. O que acontece é que, por exemplo, os chapas que deviam ir a Machava Socimol nunca chegam até o destino final.

(…) para chegar em casa tenho de fazer outras ligações de chapas ou caminhar a pé até a minha residência, porque os chapas encurtam as rotas. Mas ainda acho  o valor dos chapas justo, tendo em conta o preço dos combustíveis e os custos de manutenção”.

 

Alice José Cuna, 20 anos, estudante da Escola Secundária Josina Machel. É moradora do bairro Ferroviário.  

“Tem muitos carros, mas não circulam devidamente. Por dia subo quatro chapas, dois a ir a escola e dois a voltar. Com isso, gasto 20 meticais por dia quando só devia gastar apenas 10 meticais. Por que? Porque os motoristas encurtam as distâncias e não chegam até os terminais. Pela distância que os chapas andam, o valor do chapa ainda é justo, mas sofremos, tem vezes que não abrem as cadeiras para sentarmos, somos sujeitos a viajar de pé e apertados. O chapa não é confortável, as cadeiras tem lugar para três pessoas, mas sentam quatro, nos chapas maiores nem sentamos. Numa chapa que comportam 15 pessoas são transportadas 25, 30 pessoas. Apertados como em uma lata de sardinhas”.

 

Chapeiros:

Um chapeiro não quis se identificar. Mas falou abertamente sobre a questão.

“Faço a rota do Museu-Massaroca. O horário de pico é na parte da manhã e no final da tarde. Acho um pouco difícil nos darmos com os passageiros, porque cada um tem sua maneira de pensar e de reagir.

Os preços do chapa são relativamente baratos. A pessoa que pega o chapa daqui para o Benfica, por exemplo, paga 7,50 meticais. Mas há outros que descem por exemplo no Jardim e pagam 5 meticais. Para mim o preço ainda está bom.  Acredito que se não houvesse o chapa iria haver muita dificuldade de circulação de passageiros em Maputo. Desde que trabalho como chapeiro, já me deparei com policiais um pouco chatos né, que não parecem racionais de vez em quando e se aproveitam da situação difícil no trânsito. Ficam sempre a extorquir dinheiro de nós motoristas”.

João F. Mateus, 40 anos, chapeiro há 9 anos.

“Os chapeiros tem muitos problemas. Temos tido problemas com engarrafamentos e com a tarifa paga que é um pouco baixa. A rota que faço e T3-Museu. Ultimamente, não tem hora morta, sempre muito trânsito e movimento.

Levando em conta o vencimento das pessoas as tarifas são até baixas e correspondem. Temos tido problemas com a polícia, em qualquer esquina tem polícias e você pode estar certo com todos os documentos que eles sempre arranjam algum problema.

(…) ser chapeiro não é rentável, quando faço as contas no final do mês vai me sair uns 25.000 meticais. Desses 25.000 gasto uns 7.000 com a revisão do carro, tenho que comprar pneus e tenho que pagar o trabalhador que cobras tarifas. No final, chego a ficar com uns 6000/7000 meticais por mês. Não é sempre muito rentável”.

Os cadeirantes não tem vez

Já andei bastante pelas ruas de Maputo e quase não vejo cadeirantes nas ruas. As ruas são queijos suíços (sem exceções), repletas de obstáculos. Quando penso nisso me revolto e fico a me perguntar: como um cadeirante transita por aqui? Não, ele não transita. Essa é a verdade.

Não há pontos de chapas descentes para quem tem dificuldade de locomoção, e imagine colocar um cadeirante dentro de um chapa lotado até na tampa? Não dá. Ponto. Triste constatação. E as autoridades competentes nisso tudo? Bom, devem estar tomando um chazinho gelado no Hotel Polana e com certeza não devem ter ninguém na família que é cadeirante ou deficiente visual.

Transitam apenas dentro de seus carros de vidros escuros com ar condicionado ligado e, com olhares indiferentes não percebem a dificuldade dos moçambicanos. Ponto.  Outra triste constatação.

Como você vê é difícil mudar esse quadro tendencialmente negativo. Mas para além desses problemas apresentados, tenho que mencionar  que me incomoda também  a resignação dos moçambicanos. Há um conformismo generalizado quanto a isso que me assusta.

Confira abaixo algumas das rotas de chapas em Maputo, Matola, Marracuene e Boane:

Terminais em Maputo: Museu, A. Voador, Xipamanine, Hulene, Malhazine, Benfica, Albazine, Zimpeto, P. Combatentes, Costa do Sol, Matendene, Magoanine, Drive In, B. Jardim, Laulane, Baixa – Praca dos Trabalhadores e Oliveiras.

Terminais em Matola: Zona Verde, Machava-Benede, Machava-Socimol, Machava-Sede, Liberdade, Patrice Lumumba, Congolote, São Damanso, Padaria Boane, Malhampswene, Km -15, Nkobe, Mapandane (1º de Maio), Licuacuanine (Khongolote), T3, João Mateus, Fomento, Cidade da Matola, Matola “C”, Tchumene, Intaka, Singathela, Boquisso, Matola-Gare e Unidade “J”.

Terminais em Boane: Boane, Namaacha, Bela Vista, Changalane, Catuane, Massaca, Saldanha, Goba, Mafuiane, Matola Rio, Salamanca, Estevel e Rádio Marconi.

Terminais em Marracuene: Mateke, Muchafutene e Gwava.

(Mc) = Marracuene           

(Mt) = Matola                                    

(B) = Boane

             De        Para      Via

 

Museu

Xipamanine

Marien Ngobi

 

Museu

Albazine

Praça dos Heróis

 

Museu

Hulene

Praça dos Heróis

 

Museu

Hulene

E.Mondlane/Av de Angola

 

Museu

Laulane

E.Mondlane/Av de Angola

 

 

Museu

Laulane

E.Mondlane/Av de Angola

 

Museu

Magoanine

E.Mondlane/Av de Angola

 

Museu

Magoanine

E.Mondlane/Av de Angola

 

Museu

P.Combatentes

H.Central/Praca O.M.M

 

Museu

Malhazine

Benfica

 

Museu

Malhazine

Marginal/Oliveiras

 

Museu

Matendene

Benfica

 

Museu

Zimpeto

Benfica

 

Museu

Zimpeto

Marginal/Oliveiras

 

A. Voador

Xipamanine

G.Popular/E.Mondlane

 

A. Voador

Costa do Sol

E.Mondlane

 

A. Voador

P. Combatentes

Kar Max/V.Lenine

 

A. Voador

P. Combatentes

Praça dos Heróis

 

A. Voador

Hulene

Praça dos Heróis

 

A. Voador

Hulene

Praça dos Heróis

 

 

A. Voador

Albazine

Praça dos Heróis

 

A. Voador

Albazine

Praça dos Heróis

 

A. Voador

Magoanine

E.Mondlane/Av de Angola

 

A. Voador

Malhazine

E.Mondlane/Av de Angola

 

A. Voador

Malhazine

E.Mondlane/Av de Angola

 

A. Voador

Benfica

Marginal/Oliveiras

 

Xipamanine

Hulene

Av de Angola

 

Xipamanine

Drive In

A.v de Angola

 

P.Combatentes

Benfica

Hulene/Malhazine

 

Costa do Sol

B. Jardim

Marginal/Oliveiras

 

Zimpeto

Cidade da Matola (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Zimpeto

Machava Socimol (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Zimpeto

P. Boane (B)

Marginal/Oliveiras

 

Zimpeto

Singathela (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Zimpeto

Singathela (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Benfica

Liberdade (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Benfica

1º de Maio (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Benfica

Inataka (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Benfica

Boquisso (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Benfica

Mapandane (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Baixa

Malhampswene (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Baixa

P. Lumumba (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Baixa

P. Boane (B)

Marginal/Oliveiras

 

Baixa

Fomento (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Baixa

Liberdade (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Baixa

Matola C (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Baixa

Machava Socimol (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Baixa

Cidade da Matola (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Baixa

Nkobe (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Baixa

Unidade H (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Junta

Cidade da Matola (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Junta

P. Boane (B)

Marginal/Oliveiras

 

Junta

Liberdade (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Junta

Machava Socimol (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Malhampswene (Mt)

Cidade de Matola (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Malhampswene (Mt)

Mozal (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Malhampswene (Mt)

Thcumene (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Malhampswene (Mt)

Boane (B)

Marginal/Oliveiras

 

Cidade da Matola (Mt)

P.Lumumba (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Cidade da Matola  (Mt)

P.Lumumba (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Cidade da Matola (Mt)

Liberdade (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Cidade da Matola (Mt)

Nkobe (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Cidade da Matola (Mt)

Khongolote (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Matola C (Mt)

Michafutene (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Matola-Gare (Mt)

Machava-sed (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Matola-Gare (Mt)

Tenga (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

T.3 (Mt)

Matlemele (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

T.3 (Mt)

Licuacuanine (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Liberdade (Mt)

Mulotane (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

P. Lumumba (Mt)

Nkobe (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Tsivene (Mt)

Boquisso (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Muhalaze (Mt)

Drive-in (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Machava (Mt)

Mozal (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Matendene (Mt)

Singathela (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Mavoco (Mt)

Unidade J (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Boane (B)

Namaacha (B)

Marginal/Oliveiras

 

Boane (B)

Bela Vista (B)

Marginal/Oliveiras

 

Boane (B)

Changalane (B)

Marginal/Oliveiras

 

Boane (B)

Catuane (B)

Marginal/Oliveiras

 

Boane (B)

Massaca (B)

Marginal/Oliveiras

 

Boane (B)

Saldanha (B)

Marginal/Oliveiras

 

Boane (B)

Goba (B)

Marginal/Oliveiras

 

Boane (B)

Cèlula (B)

Marginal/Oliveiras

 

Boane (B)

Mafuiane (B)

Marginal/Oliveiras

 

Boane (B)

Salamanca (B)

Marginal/Oliveiras

 

Boane (B)

Estevel (B)

Marginal/Oliveiras

 

Boane (B)

Radio Marconi (B)

Marginal/Oliveiras

 

Matola Rio (B)

Maputo

Marginal/Oliveiras

Espero que tenha gostado. Hambanine e até o próximo post!

O que é o “changana”?

Dialeto falado em Maputo e outras línguas

De acordo com o último recenseamento em Moçambique, “o idioma português mesmo sendo considerado a língua materna é falado apenas por 40% da população”. Interessante não? Em Maputo, sua capital, a maioria das pessoas falam um ou dois dialetos pelo menos. E o dialeto mais falado aqui é o changana.

O que me motivou a escrever esse post e falar sobre um dialeto que desconheço foi perceber a importância disso para o moçambicano. Tem a ver com a identidade do povo. E o “dialeto”, seja de que região for do país é, verdadeiramente, a expressão linguística da população aqui.

Faz parte do dia a dia do povo e isso me fez lembrar os nossos queridos e esquecidos tupi e guarani. Uma pena não os aprendermos na escola. Tantas cidades brasileiras com nomes indígenas e sequer sabemos o significado real disso.Tantas palavras de origem indígena em nosso português falado no Brasil e não nos atentamos sobre a questão.

Como mencionei acima, na apuração que fiz fiquei sabendo que, de acordo com Recenseamento Geral de 2007 em Moçambique, apenas 40% da população fala o português. Isso comprova essa diversidade linguística em Moçambique.

Já em Maputo, a mesma pesquisa apontou que 90% dos que vivem na capital falam correntemente a língua portuguesa. É interessante observar que a Constituição de Moçambique encara outros 30 idiomas de origem bantu, como por exemplo: o chona, o ronga, o ndau, o sena, o chope, o echuwabo e o maconde como línguas locais. Todos esses dialetos (mais de trinta) são dos troncos linguísticos bantu e são considerados pela Carta Magna do país também como línguas nacionais.

O dialeto falado na capital e em outras províncias

Em Maputo fala-se português em todos os sítios (lugares, como dizem por aqui) e sou compreendido perfeitamente. Mas, se afastando um pouco da capital, você pode se deparar com pessoas falando apenas os dialetos do lugar.

Logo quando cheguei em Moçambique fiz uma viagem a Cidade da Beira, capital da província (estado) de Sofala. São cerca de 1200 km até lá. Atravessei algumas províncias para chegar ao destino: Maputo, Gaza, Inhambane, Manica e parte de Sofala. E nessa viagem pude experimentar na pele, dentro de um “machibombo” (ônibus, em changana), o quão difícil é se comunicar nesse país para um estrangeiro. São muitos dialetos e cada província tem dois ou três diversos.

Ave Maria no dialeto changana

Aqui em Maputo, cidade que vivo, a língua mais falada é o changana e nesses quase dois meses aqui, aprendi algumas palavras no dialeto que agora, divido contigo. Às vezes, a pronúncia é um pouco complicada para nós brasileiros. Então, para explicar bem as palavras optei por escrevê-las do jeito que se fala.

Vamos a elas:

Hambanine quer dizer “tchau”;

Dzichile quer dizer “bom dia”;

Brada quer dizer “amigo ou irmão”;

Machibombo quer dizer “ônibus”;

Chapa quer dizer “van”;

Wena quer dizer “você”;

Malimune quer dizer “quanto Custa”;

Tchova – quer dizer “empurre”;

Male quer dizer “dinheiro”;

Marrala quer dizer “grátis”;

Xá dura quer dizer “está caro”;

Nalava quer dizer “quero”;

 Maningue quer dizer “muito”;

 Kamimambo quer dizer “obrigado”;

Kamimambo Nikencile quer dizer “eu que agradeço”;

 Kaiyssa quer dizer “está quente”;

Uwenamane vito quer dizer “como é o seu nome?”;

 Nalava Wena quer dizer “quero você”;

Nalava Male quer dizer “quero dinheiro”;

 Mumble quer dizer “menina”;

Jarra quer dizer “menino”.

Procurei alguns vídeos para mostrá-lo (a) a fonética do dialeto changana. Mas não achei muito coisa interessante que valeria à pena. Então, seguem abaixos dois vídeos que achei legais. O primeiro é uma música cantada em changana, e o segundo é uma brincadeira gostosa de crianças na capital de Moçambique.

 

Um dicionário em changana, o neologismo e o inglês

Soube que há dicionários que traduzem os idiomas falados na África Austral para o português e o inglês (mas ainda não os vi nas livrarias). Conversando com um professor na Politécnica (onde estudo), fui informado que em 2011 foi publicado o primeiro dicionário especificamente do “idioma changana”. O projeto de criação do dicionário partiu de professores da Universidade Eduardo Mondlane (a maior do país) que fazem parte do Centro de Estudos Africanos. A iniciativa foi a primeira do gênero aqui. Bacana não?

Para além dos dialetos percebo aqui a criação de vários neologismos partindo da língua portuguesa. É comum uma mistura entre o português falado aqui e os dialetos locais. Quer saber mais sobre essa diversidade da “nossa língua-irmã” falada em Moçambique? Então, clique aqui. 

O português falado em Moçambique, ao contrário do que se fala no Brasil, é bastante similar ao do país que nos colonizou. Isso nos conta que em termos de regras de ortografia, o moçambicano escreve bem próximo ao que é escrito em Portugal. E olha que interessante! O inglês aqui é super falado.

Quase todos os moçambicanos que conheci falam fluentemente o idioma. Talvez seja pelo fato de que Moçambique tem países vizinhos que falam o inglês ou quem sabe pelo grande número de estrangeiros que vivem aqui. Conclusões precipitadas sobre isso ou não, fato é que o moçambicano tem uma grande familiaridade com essa língua também.

Espero que tenha gostado! Hambanine e até o próximo post!

Onde nasce o sol

Banda moçambicana preserva raízes musicais africanas

“Wuchene” no dialeto ronga significa: “onde nasce o sol – a nascente”. Esse é nome do grupo de rapazes do Polana Caniço B e de Maxaquene (bairros pobres de Maputo), que fazem um som muito bom de se ouvir.

Esses garotos de vinte e poucos anos cultuam suas raízes africanas e, em seus ensaios num estúdio improvisado num fundo de quintal de uma casinha, fazem pulsar a essência da tradicional música africana. Eles ensaiam de segunda à sexta, das 08h30 às 10h30, e desses encontros fazem “nascer” e “renascer” o que há de melhor da velha música do continente mãe.

Assista a um video do ensaio


Peguei um “chapa” (van, no dialeto changana) e fui até o estúdio dos garotos no bairro Polana Caniço B. Participei de todo um ensaio dos garotos e confesso: foi sensacional presenciar a musicalidade africana que existe nesses meninos guerreiros. 

Eles fazem tudo na raça, improvisam mesmo e desse improviso, transcendem e deixam fluir o seus talentos. Tive muito prazer em fazer essa matéria e agora, divido com você um pouquinho disso.

O sol nasceu há tempos

Pensa que eles começaram agora? Não. Conforme fui informado, o “Wuchene”, com a formação atual da banda estão juntos há 9 anos. “Para nos unirmos partiu da vontade de cada um. Durante esses 9 anos estamos a trabalhar. E a nossa meta é preservar a sonoridade dos instrumentos puramente tradicionais que utilizamos. Como por exemplo, no lugar da bateria convencional usamos um tambor típico” afirma Elias José Manhiça, de 26 anos e líder da banda.

Cada um tocava desde criança no seu canto em casa. Então, como eram amigos, decidiram se juntar para fazer algo um pouco mais visível. E tocam, essencialmente, uma música tradicional moçambicana, com algumas influências de outras regiões da África. “Em termos de gêneros musicais tocamos a “marrabenta”, que é o ritmo mais divulgado aqui em Moçambique. Temos diferentes ritmos tradicionais africanos, temos um pouco da pegada “reggae” e temos a “mandinga” também. Tocamos ainda ritmos da Africa Ocidental”, declara o tocador de mbila, Zarias Vasco Marquel.

Segundo Manhiça, tocar instrumentos africanos é uma das metas do grupo. “Temos “janbei” que é um instrumento milenar de origem africana. Temos a “mbila”, os “choopes”, e aqui temos os “junjuns”. Esses instrumentos são da África Ocidental. Temos também outros instrumentos que não estão aqui conosco, mas que fazem parte. Como por exemplo, a “mbira” da tribo zizu e do shonas do Zimbábue. Temos o “talking-drumm”, conhecido na zona norte da África como “tama”. Por que fazemos isso? Porque no momento que levamos esses instrumentos para fora de Moçambique, estamos a falar de nossos instrumentos tradicionais que fazem parte de nossa raiz”.

Outras atividades e apoio

O grupo “Wuchene” faz parte de um projeto de uma organização não governamental de mesmo nome, que conta com financiamento internacional e se desdobra em outras atividades desde 2004. Além do grupo em questão que tem envolvimento com música e dança, há no projeto uma vertente que explora diferentes expressões artísticas de jovens moçambicanos, como o teatro, o canto, a poesia, a arte em esculturas e a dança típica do país. A organização faz às vezes de inscrevê-los em festivais e levá-los para fora de Moçambique.

Esses garotos, por intermédio da organização, estiveram recentemente a participar de um festival de música e dança em Xangai e Macau, na China. Nessas cidades apresentaram danças típicas moçambicanas e levaram seu som aos chineses. Outro momento interessante do grupo foi em julho desse ano, onde participaram do Festival Nacional de Cultura de Nampula, patrocinado pelo Governo Moçambicano. Quer saber mais sobre esse festival? Clique aqui

 Dos sonhos e desejos

Perguntei a eles se tinham vontade de conhecer o Brasil. Sabe qual foi a resposta? Entre olhos brilhando e sorrisos largos: “sim, muita vontade. Por acaso, lá em Macau, nos encontramos com um grupo brasileiro de dança chamado “Batubatê” e fizemos uma criação juntos”, respondeu entre sorrisos outro integrante.

Diante daqueles sorrisos largos não me contive e perguntei o óbvio. O que é a música para vocês? Mais risadas e olhares acumpliciados. “A música para nós representa a vida em diferentes vertentes. A vida como é. Nós sempre precisamos da música seja na perda de alguém, seja no ganho e no nascimento. É importante. Precisamos da música para celebrar. Significa muito. Nos inspiramos na música para falar do dia a dia. Cantamos em ronga, changana, maconde e em ndau”, declara o líder da banda.

Outra pergunta que me aguçou foi: vocês já gravaram algum CD? “Ainda não gravamos. Nossa intenção primeiro é sermos conhecidos. Nosso produto ser conhecido e ganharmos patrocínio. Conforme vê, aqui improvisamos. Por exemplo, esses amplificadores são individuais. Uma solidariedade que os artistas estão a dar para a banda. É um sonho, mas um sonho que ainda falta muito a chegar. Até agora o sonho principal é divulgar a banda”, disse Manhiça.

Clique no vídeo abaixo e veja um recorte da entrevista.

Naquela altura eu já estava absorto pelas conversas. Disparei: a música faz vocês se sentirem mais moçambicanos? Mais sorrisos, só que agora acho que os desconcertei. Mas a resposta veio imediata. “Claro, cantamos nossa identidade. Veja você que quando participávamos desse festival em Macau, encontramos lá uma cantora portuguesa chamada Carmem de Souza, que era a figura do cartaz do festival. Mas quando nós atuamos em nosso primeiro espetáculo lá já na segunda apresentação, nós viramos a figura de cartaz do festival. Gostaram do nosso trabalho porque trazíamos instrumentos tradicionais, vestiamos roupas tipicamente moçambicanas e apresentamos danças que representam todo o país. Isso é foi honra para nós”, avaliou Manhiça.

Entre a guerra diária e o sonho da arte. É esse o dia a dia de vários artistas moçambicanos que preservam suas raízes. Entre sorrisos largos, olhares talentosos e um som melodioso eu passei minha manhã.

Quer ver mais fotos do ensaios do “Wuchene”? Clique aqui

Quer ajudar? Me ajude a divulgar esse trabalho dos caras. Quem sabe esse “sol nascente” chegue até o Brasil? O telefone de contato dos garotos é +258-8291-86-872 e o email é: eliasputxana@gmail.com

Abaixo segue outro video que mostra um pouco mais do talento desses garotos.

Hambanine e até o próximo post!

COMER EM MAPUTO POR 125 METICAIS

Comer fora de casa em Maputo para um “mulungo” (branco em changana) mais desavisado pode se tornar muito despendioso no final do mês. Não se engane, há restaurantes de todos os preços. E aqui há uma máxima de sempre dar uma “exploradinha” em quem é branco. Sério, isso rola.

Pensando nisso e por Maputo estar comemorando 125 anos no próximo dia 10 de novembro, quis fazer uma matéria sobre onde comer por 125 meticais na capital de Moçambique.

Se o “mulungo” quiser comer barato e bem aqui, ele pode conseguir (risos). Comer fora em Maputo não precisa ser sinônimo de gastar muito. É possível almoçar ou jantar bem na cidade sem suar frio ao olhar a conta.

Escolhi quatro lugares muito legais e agora divido contigo. Se você passar por aqui e quiser seguir minhas recomendações tenho certeza que vai pagar barato e gostar da comida .

Ah e detalhe: já estava a me esquecer (sem gerúndio para não confundir como disse num post anterior): 125 meticais é na moeda brasileira, algo em torno de R$9,00 (nove reais).

Primeiro ponto: Restaurante Vietnamita.

Rua José Mateus, número 424.

Todos os pratos do restaurante têm o valor de 80 meticais, e as bebidas têm o preços variados. A base do cardápio é de massas e arroz. As carnes que são servidas, geralmente, são assadas ou fritas. E os pratos são acompanhados por uma salada.

Aqui você pode comer:

– massa com lulas

– massa com camarão

– massa com carne de porco

– massa com peixe

– arroz com lulas

– arroz com camarão

– arroz com carne de vaca

– arroz com peixe

– meio frango com salada e batata

O prato escolhido foi um arroz com carne de porco. Comida muito suculenta e bem preparada. Vale à pena. Foi pedido também um “sumo” (suco, como dizem em Portugal) de maçã de 500 ml que saiu por 45 meticais a garrafa.

Almoço no Vietnamita 80 meticais – arroz com carne de porco assada (acompanhando uma salada ) + “sumo” de maçã – 45 meticais – total de 125 meticais.

Segundo ponto: Restaurante Velhos Amigos

Av. 25 de setembro.

Cardápio bem variado e uma comida bem apetitosa. Servem-se sopas de frango por 60 meticais. Mas a especialidade da casa é o frango à zambeziana que sai por 100 meticais. Outro prato bem interessante é o peru com espaguete que também sai pela mesma quantia.

Ainda serve-se lula frita, salsicha russa com ovo, posto de serra com legumes e costeleta de porco com preços variados.

Gostei tanto que fui lá dois dias. Os pratos escolhidos foram o frango à zambeziana e o peru com espaguete que saíram por 100 meticais (cada prato) + o refrigerante que foi 25 meticais – total – 125 meticais.

Terceiro ponto: Quiosque Quirimba

Praça da Fortaleza.

Um quiosque bem aconchegante numa praça bastante movimentada da capital. Servem-se frangos inteiros por 320 meticais. Além de hambúrguer completo pela bagatela de 75 meticais. O que foi escolhido foi: hambúrguer completo + “sumo” a 50 meticais saiu tudo por 125 meticais.

O quiosque também serve:

– hambúrguer simples por 40 meticais;

– hambúrguer com ovo por 45 meticais;

– prego com queijo por 75 meticais;

– “sandes” (sanduíche no dialeto changana) de ovo por 30 meticais;

– “sandes” com queijo por 30 meticais;

– “chamussas” (pastelzinho de origem árabe) de peixe por 10 meticais e

– chamussas de carne por 15 meticais.

Quarto ponto: Chinese Restaurant Maputo

Av. Eduardo Mondlane, número 1033.

Se você deseja experimentar a tradicional culinária chinesa esse é o local. Com um cardápio variado e preços acessíveis, esse restaurante traz comidas muito saborosas e bem preparadas, além de bom atendimento aos clientes.

O cardápio:

– salada de pepino por 120 meticais;

– saldada de lula por 150 meticais;

– carne de vaca com piri-piri por 180 meticais;

– massa com porco em sopa por 100 meticais;

– massa com camarão em sopa por 120 meticias;

– massa com molho especial da casa por 120 meticais;

– massa chinesa com carne de vaca ou porco com temperos especiais da casa por 140 meticais;

– galinha frita com castanha por 150 meticais;

– galinha frita ao molho de feijão preto por 150 meticais;

– arroz xauxau com carne de vaca por 120 meticais; (prato que escolhemos).

– arroz xauxau com carne de vaca, galinha, porco e legumes por 140 meticais;

– arroz xauxau com camarão e ananás por 140 meticais;

Para sobremesa ainda você pode apreciar:

– batata doce frita no mel por 200 meticais;

– ananás frito no mel por 60 meticais.

O prato escolhido foi o arroz xauxau com carne de vaca por 80 meticais + um coca-cola que saiu por 45 meticais. Num total de 125 meticais. Um prato saboroso que vale à pena experimentar.

Bom apetite! Hambanine e até o próximo post!

 

O camarão-tigre, o “formigueiro” e o canhoeiro

No post anterior que eu falava sobre Moçambique, mencionei que na sequência eu iria tentar falar um pouco sobre os aspectos da identidade do moçambicano. No entanto, por se tratar de tema complexo e ainda por não ter ouvido todas as fontes que gostaria, preferi postar um antes que fala também dessa identidade, mas sobre outra vertente. Espero que goste. Vamos a ele.

Comer frutos do mar em Moçambique não é considerado um luxo como em muitas partes do Brasil. Em Minas, por exemplo, principalmente em Belo Horizonte, vejo “restaurantes legais” colocar os preços dos mariscos nas alturas, só para nos fazer lembrar nossa distância do Atlântico. (risos)

Os amigos mais próximos, família e Luisa conhecem bem o meu “subnutrido apetite” por tudo que debaixo d’água vive. Tenho uma certa resistência herdada do ventre materno (risos). Mas creia, isso não me impediu de comer um camarão pescado em Moçambique. “O camarão-tigre”. Um orgulho nacional, pelo que percebi.

É recorrente a afirmação entre os moçambicanos que converso de que “o camarão pescado na costa de seu país é o melhor do mundo”. Não tenho parâmetros para falar sobre, dada a minha forte aversão a crustáceos (que continua, diga-se de passagem – mesmo diante de sucessivas tentativas), mas há quem diga “que é realmente sensacional”…

Degustei o tal e de quebra, conheci um local muito bacana. Não sei ao certo se gostei mais do camarão ou do lugar encontrado. Mas de qualquer forma, entre dúvidas e certezas, cá está esse post que divido com você agora.

Onde encontrar o tal tigre

Bom, já falei bastante e ainda não disse onde comer esse camarão né? Você pode encontrá-lo fresquinho, saído das águas mansas do Índico no Mercado do Peixe, em Maputo. Ainda continuo sem saber se gostei mais do “tigre” ou do lugar onde o comi, mas chega de enrolação, vamos lá.

Mercado do Peixe em Maputo

O local é superagradável e é uma parada obrigatória para a “turistada”. De fácil acesso, tanto de carro como de “chapas” (tranporte coletivo de Maputo), o Mercado está localizado na Avenida Marginal, próximo a praia da Costa do Sol, agarradinho ao Clube Marítimo e é, sem dúvida, um dos locais que você não pode deixar de visitar na capital de Moçambique.

Uma dica. Se você for do tipo  “nojentinho (a)”, conhecer o “Mercadão” pode não ser aprazível. Se é daqueles (as)  “tudo clean com glamur e fru-frus”, passar por esse sítio (local, como dizem por aqui) pode ser um programa desastroso. Por quê? Explico: o cheiro forte dos peixes e a aglomeração de gente podem incomodar alguns mais sensíveis aos cheiros e a “poeira de gente”.

Conselho. Se você é assim esqueça esse post e vá ler em outro lugar algo sobre “como eliminar germes” ou ainda “como se deliciar da alta culinária sem sujar suas mãos e dentes” (risos). Lencinhos umedecidos e tchau-tchau. Foi mal, mas detesto “gente limpinha demais. Pago por minha sinceridade.

Espantados os “frescóides de plantão”, tenho a dizer que o lugar não é tão bonitinho à primeira vista. Mas, se você ainda quiser conhecer e tiver um olhar mais atento vai perceber que lá é um lugar de efervescência de costumes locais, de cores, de sons e de cheiros que vale à pena conferir. E claro, comer o legítimo camarão moçambicano pode valer às custas de se aventurar por lá. Porque lá é realmente uma aventura, explico a seguir.

O que se vê do lado de fora

Não se assuste. Na rua do mercado há um transa-transa de gente comprando e vendendo coisas. Vão lhe oferecer algo com certeza. Nas barraquinhas do lado de fora do Mercado você encontra de tudo: preservativos, ervas medicinais, vassouras, bolsas femininas, papel higiênico, alicates de unha, artigos eletrônicos, foguetes, velas, detergentes, chocolates, cigarros e bebidas. Um mercado paralelo ao  Mercado do Peixe que é curioso observar. Mas o melhor ainda está por vir.

Já à porta, muitas atendentes dos restaurantes que ficam ao fundo do Mercado do Peixe vão te abordar querendo levá-lo (a) aos seus respectivos estabelecimentos. Elas são realmente determinadas. Então, dê seu jeito e vá primeiro dar uma voltinha nas barracas dentro do Mercado antes de pensar em se sentar para o almoço. Despistá-las é a saída. Mas adianto, não é tarefa das mais fáceis.

As barraquinhas de madeira

Extensas bancadas de madeira se misturam a peixes coloridos, balanças e gente passando de um lado para o outro. Paredes desgastadas pelo tempo nem se percebe, o charme fica por conta dos incansáveis vendedores que comercializam variados tipos de peixe, ostras, camarões-tigres, lagostas, lulas e caranguejos.

Perguntei a uma “mamá” (maneira respeitosa como os moçambicanos tratam senhoras de idade em changana) se o Mercado abre todos os dias e ela com as mãos perfumadas por uma lula me respondeu que sim. Até aos domingos “mamá”? “Sim, “boss”, é nos domingos que vem mais “gentes” parar neste sítio”. (sic)

O que é o mais legal? O legal é você ir até lá e “pescar” seu peixe numa das barraquinhas de madeira do mercado. Outra coisa bacana é poder levar para o preparo num dos restaurantes que ficam no fundo do lugar. Mas há também alguns inconvenientes, conto na sequência.

Se esquive dos vendedores chatos

Os “papás” e “mamás” vendem freneticamente seus pescados. E são super insistentes no comércio dos mariscos. Não se engane, são tão chatos que se você não estiver numa “vibe legal” vão conseguir lhe estressar. É a prática do local fisgar o cliente pela boca, ops, insistência. Não tenha medo de ser duro (a) em alguns momentos, pois caso contrário, vai chegar um momento em que 15 ou 20 vendedores vão fazer sua cabeça fritar mais que peixe na frigideira. Paciência e firmeza não faz mal a ninguém.

Eles chegam mesmo a brigar um vendedor com o outro por conta de uma venda. Disputam clientes no anzol. E quando pescam seus clientes, aí é a hora de negociar. A parte mais legal.

Se você estiver disposto a degustar o “camarão-tigre” é preciso pechinchar. O barato é isso, a negociação dos pescados pode durar horas e nesse meio tempo você pode ir sentindo o local e perceber os hábitos e práticas do lugar.

Se estiver com pressa, esqueça. O lance é passar pelas barraquinhas de madeira, apressar os valores dos peixes e conversar com os vendedores. Ah e “gringuitos” no final sempre irão gastar um pouquinho a mais. É normal isso por aqui, uma prática corriqueira. Para além do produto que escolheu, saiba tirar dali outras experiências.

Saiba que tudo lá é muito fresquinho, apesar de não haver refrigeração. O pescado fica no gelo e não tem aquele odor de peixe velho não! No entanto, se você não saca muito de frutos do mar, o mais recomendável é ter um amigo que faça às vezes. Pois, apesar de ser tudo muito fresco, um ou outro pescado pode estar digamos: “em processo de amadurecimento”. (risos)

Média dos preços

Vamos lá, se me recordo bem era assim: 1kg de camarão-tigre = 550,00 meticais (mtc); 1kg de camarão kapa = 450,00 meticais (mtc); 1 kg de lagosta = 600,00 meticais (mtc) e 1 kg de lula = 350,00 meticais (mtc). Claro que há também uma variedade gigantesca de outros pescados. E tudo é negociável. Para se ter uma ideia em reais, divida tudo por 14 e vai saber. E esse valores podem cair bastante, basta exercitar a arte que sabemos bem: “dar uma choradinha nos preços”. Outra coisa importante é checar a balança na hora de comprar os pescados e ficar esperto para não ser enganado (a).

Restaurantes do Mercado

Depois que você escolheu tudo fresquinho é hora de levar o que comprou para os restaurantes que ficam lá no fundo do Mercado do Peixe. Há vários e você pode escolher. Lá eles limpam o peixe e preparam tudo. Servem acompanhamentos e uma cervejinha não muito gelada. Whatever, estamos em África meus caros brasileiros. Cerveja gelada é coisa rara por aqui. Ah, outra coisa: seu prato com o pescado vai demorar um bocadinho (risos). Esteja disposto (a).

Atrás das barraquinhas onde os vendedores se digladiam pelos clientes, você encontra um lugarzinho bem aconchegante, com várias mesas de plástico e cadeiras ao redor de um “canheiro” (árvore que da o fruto marula – lembra aquela bebida “Amarula” que a gente toma no Brasil? Pois é, a própria), que faz sombra ao local e deixa extremamente convidativo sentar-se ali e aos seus pés.

Vai demorar o prato? Vai, mas vale à pena deixar-se embalar pela sombra daquela árvore e ali, abraçado por ela, tomar uma 2M (cerveja local) e prosear com os amigos ao som de muitas músicas tradicionais que tocam nos restaurantes dali. Isso só abre o apetite e o preço é acessível.

Almoçar lá é “maningue nice” (maneira usual do moçambicano se referir a algo muito bom – maningue em changana quer dizer muito e nice – pô, claro que você sabe o que isso significa em inglês). E vale à pena viu, até para quem não curte peixe como eu.

Hambanine e até o próximo post!

Suazilândia – um reino de virgens e contrastes

Dei uma paradinha nos post’s sobre Moçambique. Foi necessário e explico o porquê. Esse útimo final de semana, estive no Reino da Suazilândia para participar de uma manifestação super curiosa. E pelo que vi e senti, não poderia deixar de escrever sobre isso.

Reino da Suazilândia

Mesmo tendo um blog que trata apenas das “Terras de Moçambique”, seria egoísmo demais da minha parte se não dividisse com você as coisas que percebi na Suazilândia. Mas antes de mergulhar nesse post, quero fazer uma perguntinha: você sabe onde fica esse Reino? Sinceramente eu nunca tinha ouvido falar até conhecê-lo (e de antemão confesso: foi sensacional descobrir esse lugar, apesar também de algumas duras constatações).

Então, vem comigo e tire suas próprias conclusões sobre o ritual e o país, que começo a apresentar.

O destino

A Suazilândia é um pequenino reino que fica ao sul da África, entre Moçambique e a África do Sul. Com cerca de 97% de negros, na maioria da etnia suazi.

O interessante é que é a última monarquia absolutista de todo o continente mãe. Para conhecê-lo fui de carro com um grupo de brasileiros que residem em Maputo (capital de Moçambique, onde vivo), e em apenas três horas de carro chegamos ao local onde acontece todos os anos o ritual que fomos assistir, denominado “Umhlanga Reed Dance”.

Essa manifestação que dura oito dias, acontece no Vale de Ezulwini, em Manzini, há aproximadamente 30 km da capital do país, a cidade de Mbabane. Ocorre no final do mês de agosto, e é um momento único no qual o Rei Mswati III escolhe uma nova esposa todos os anos.

Para alguém de fora participar basta as mulheres vestirem uma saia e os homens não usarem chapéus e bonés no decorrer da cerimônia. É de graça, galera. Curioso não? Vamos aos detalhes.

Virgens dançam para o Rei

Nessa manifestação são reunidas aproximadamente 70 mil jovens suazis, solteiras e virgens de todas as regiões do país, que se juntam nessa tradicional dança na expectativa de que uma delas venha a ser escolhida pelo monarca como esposa.

Umas envoltas em tecidos estampados com a figura do rei, outras trajando apenas uma minissaia e colares coloridos no pescoço. Elas bailam seminuas e mostram os bambus colhidos nas colinas próximas para o Rei, que assiste às danças atentamente. É tudo muito mágico, e trago na memória imagens incríveis desse meu útimo domingo.

 

 

Veja abaixo algumas imagens do Rei e suas princesas:

 

Como disse anteriormente, essas jovens mulheres almejam se tornar a próxima esposa de Mswati III, conhecido como “o leão” (talvez pelo apetite voraz que ele tenha – não se sabe ao certo quantas esposas ele possui, mas calcula-se algo em torno de 15 a 30, entre oficiais e concubinas).

As jovens candidatas vão até o Estádio Real de Manzini dispensando o velho véu e grinalda conhecidos por nós, e a cantar tributos ao rei e a rainha-mãe, aguardam ansiosas que uma felizarda seja escolhida ao final de oito dias de cerimônias.

Para além disso, segundo algumas informações que colhi, a manifestação cultua também a pureza da mulher suazi. A festa também celebra a unidade nacional, de acordo com um encarte que tive acesso no Lidwala Backpacker, local onde me hospedei com os demais brasileiros.

O que o leão não vê

Um milhão de habitantes divide o espaço com gigantescas plantações de cana de açúcar e com uma família real muita rica, que não divide o seu ouro.

Pelo que li, “de cada três suazis, dois vivem com menos de um dólar por dia”. Assim sendo, ser escolhida como a nova esposa do rei pode ser a salvação da família da nova esposa.

Da direita para a esquerda: Rei Mswatti III sentado ao lado da Rainha-mãe

Na pesquisa que fiz sobre o Monarca, fiquei sabendo que Mswati III sucedeu ao seu pai, Sobhuza II, em 86. O atual rei da Suazilândia nasceu em 19 de abril de 68, poucas horas antes do acordo de Independência assinado entre seu país e a Grã-Bretanha. Ele é considerado um dos mais poderosos soberanos do mundo, de acordo com uma lista feita pela revista Forbes. Quer saber mais sobre isso? Clique aqui

Outra coisa interessante que fiquei sabendo é que na Suazilândia, “dois terços dos seus súditos são alimentados por ajuda internacional. Outros 34% da população ativa está desempregada e mais de metade vive com menos de um dólar por dia”. E ainda que Mswati III “governa elimando as liberdades civis dos suazis, ostentando cada vez mais luxo e regalias”.

Num país onde, segundo a ONU, a taxa de violência sexual é alarmante, a belíssima cerimônia que estive presente esconde uma dura realidade. A questão das doenças sexualmente transmissíveis e o HIV. Pelo que li, na Suazilândia, 30% das mulheres entre 15 e 19 anos estão infectadas pelo vírus.

As imagens de virgens cantando e dançando (que são belíssimas diga-se de passagem) não revelam uma terrivel situação. Enquanto Mswati III elege uma nova esposa a cada ano, o país se consome na AIDS. A Suazilândia tem o maior índice de contaminação de AIDS por metro quadrado do mundo. E a expectativa de vida da população não supera os 40 anos.

Achei um texto bem interessante que mostra algumas opiniões contrárias à postura do Rei da Swazi. Saiba mais

Abaixo, segue parte de um texto que extraí da net que revela que:

“Embora dois terços de seus súditos estejam na miséria, Mswati vive de forma suntuosa. Segundo seus críticos, ele estimula a poligamia e o sexo com adolescentes. Cerca de 40 por cento dos adultos da Suazilândia são portadores do vírus HIV, que provoca a Aids. E alguns dizem que a cerimônia, que tradicionalmente celebra a feminilidade e a virgindade, se tornou apenas uma vitrine para moças que aspiram a uma vaga na corte. “A cerimônia sofreu abusos por causa da satisfação pessoal de um homem”, disse Mario Masuku, líder do proscrito partido de oposição, à Reuters. “O rei é apaixonado pelas jovens e pela opulência.”

Mas muitos suazis dizem que o monarca tem o direito de fazer o que quiser. Para eles, o pendor por noivas jovens é uma tradição nacional, e cerimônias como esta consolidam a identidade nacional.

“Esta é uma tradição suazi — é só olhar todas as meninas dançando para ver que elas estão felizes com isso”, disse Sam Mkhombe, secretário particular do rei. “As pessoas podem criticar, é a opinião delas, mas isso é a nossa cultura.””

Em meio a controvérsias, o rei da Swazi é bastante criticado por entidades de defesa dos direitos humanos e pela comunidade internacional.  

Fonte: http://forum.valinor.com.br/showthread.php?t=37737

Quer ver mais imagens do REED DANCE? Então, clique aqui.

Próximo post

No seguinte volto às Terras de Moçambique”. Hambanine e até lá…