Uma jovem voz literária

Conheça a história de um jovem escritor, saiba o que é a poesia de combate e ainda fique por dentro da realidade de quem começa a escrever em Moçambique

Antes mesmo de nos cumprimentarmos e iniciar a entrevista, ele perguntou ainda quando descia de seu carro: “quantos jovens hoje não tem livros em casa? Aqui e no Brasil?” Essa foi a pergunta feita por meu entrevistado assim que pisou à porta do Restaurante Zambézia, na Av. Mao Tse Tung.

Ele já chegou aguçando os meus sentidos, pensei naquele momento. Preferi não responder a pergunta que me surpreendeu. Mas meu silêncio foi reflexivo naquele instante. Passados alguns minutos, objetivei minhas intenções e seguimos sem perceber a rota de uma entrevista tranquila que, para mim, mais pareceu um papo entre amigos de longa data.

Lucílio Manjate é um jovem escritor moçambicano, tem 31 anos e ministra aulas de Literatura Moçambicana e Literatura Geral Comparada pela Universidade Eduardo Mondlane – UEM (maior universidade do país).

Ele aceitou contar um pouco de sua história para o “Terras de Moçambique”, falar sobre a Poesia de Combate tão presente na literatura do país, e ainda traçar um quadro dos desafios de um jovem escritor a caminhar pelas pernas da literatura.

O jovem contista

O seu gosto pela literatura começou ainda criança quando Manjate chegava da escola e se deparava com seu pai sempre a ler. “Para eu passar do meu quarto para a sala de banho (como os moçambicanos nomeiam o “banheiro”), passava na porta do quarto de meu pai e pela porta que sempre ficava aberta, o via a ler livros. Isso para mim, é uma inspiração literária que se consolidou”, confessou o contista.

Contando-me sua história deixou escapar que ver seu pai lendo diariamente o inquietava. “Sempre me perguntava o que meu pai estava a ler no quarto. Até que um dia aproveitei que ele tinha saído para trabalhar e fui lá ter com o fruto de suas leituras. E lá eu descobri “a poesia de combate”. E isso fez toda a diferença em minha formação”, afirmou.

Quando vivia em Matola ele descobriu sua vocação literária. “Um dia estava a tomar banho eu recitei dois versos. Quando me percebi a recitar versos que eram meus, sai em disparada da casa de banho para o quarto. Mal enxuguei pus-me a escrever. Desses dois versos me nasceram cinco poemas. Pronto, pensei. Estás a nascer. Foi assim”, relatou eufórico Manjate.

Ele escreveu três livros e já está no processo de criação da quarta obra. O contista começou a escrever em 1996. No ano de 2005, já com três livros escritos aguardando a hora da publicação, decidiu participar do primeiro concurso literário de sua vida. O primeiro livro foi denominado “Manifesto”, o segundo tem o título de “O silêncio do narrador” e o terceiro foi chamado de “O contador de palavras”.

Já no ano seguinte, em 2006, o contista participou da 6ª edição do concurso da TDM – Telecomunicações de Moçambique de revelações literárias e venceu na modalidade de contos com a obra “Manifesto”. “Ali, naquele momento, foi muito marcante, porque determinou todo o trabalho literário subsequente”, afirmou Manjate.

Em 2008, o jovem escritor participou do “Concurso Literário 10 de novembro” (nessa data comemora-se o aniversário da capital de Moçambique), promovido pelo Conselho Municipal de Maputo em parceria com Associação dos Escritores Moçambicanos. E ele levou o prêmio também na categoria de contos com o livro “ O silêncio do narrador”.

Depois de vencer esses dois concursos, Manjate, já com as portas abertas para o mercado, publicou seu terceiro livro: “O contador de palavras”, por uma editora renomada em Moçambique.

No vídeo abaixo Manjate fala sobre o seu último livro.

Quer conhecer um pouco mais do “Contador de palavras” de Manjate? Clique aqui.

A influência de uma poesia de guerra

Na entrevista com o contista pude descobrir parte de suas referências literárias. Uma nuance interessante de suas referências é a Poesia de Combate produzida pelos combatentes moçambicanos na época da Independência do país. “A magia dessa poesia é o apelo libertador que ela tem. Na própria linguagem textual os versos de combate obrigam que tu imprimas uma voz forte na dicção. E eu comecei lendo os textos em voz alta e sentia-me forte por dentro. Algo me tocava”, confessou.

Não me aguentei e perguntei: se hoje você desponta como um jovem contista e uma expressão interessante da literatura em seu país, foi graças a esse contato com a poesia de combate ainda na sua adolescência? Ele me olhou nos olhos, respirou fundo e disparou um “sem dúvidas”, seco e incisivo.

Soltei mais outra para provocar: você acha que esse é um traço marcante do poeta moçambicano de um modo geral? “Nunca parei para pensar nesse assunto, mas se calhar há um diálogo estético com a poesia de combate. Há um certo culto e respeito por ela e alguns autores banham-se nessas águas históricas”, respondeu.

Quer saber mais sobre a Poesia de Combate? Clique aqui.

Concursos literários X Mercado Editorial

Não é fácil para quem está começando na literatura encontrar patrocínio para editar as suas primeiras obras, disso todos sabemos. Mas quis saber um pouco dessa realidade em Moçambique.

Segundo Manjate, o investimento que se faz à cultura e à educação de uma forma geral é escasso, e um mecanismo facilitador aos escritores são os concursos literários. “Geralmente, os concursos literários são para a revelação de novos talentos. Tenho a impressão de que no ano de 2000 é que temos uma avalanche dos concursos no país. Eu já tinha três livros escritos, mas não conseguia publicar nenhum. Levei inclusive às editoras e o que elas disseram foi que para editar era necessário buscar um patrocínio. E veja a problemática: como é que eu vou buscar um patrocínio se eu sou jovem e não sou conhecido ainda? É muito difícil. Portanto, os concursos literários de alguma forma estão a tapar essa lacuna e a possibilitar que novos taletos surjam”, ressaltou o contista.

Com pouco incentivo por parte do Estado, as empresas privadas passaram a ter um papel fundamental no patrocínio. “Nós estamos a falar de um mercado aberto, competitivo com empresas querendo se impor. Portanto, as grandes empresas tendem a patrocinar os concursos literários ou a edição de obras literárias que são vencedoras na categoria revelação nos concursos aqui em Moçambique”, afirma Manjate.

De acordo com o jovem escritor há também problemas em relação aos concursos literários bancados pelas empresas. “Na maioria das vezes, os concursos preconizam o incentivo ao hábito de leitura, o estímulo à criação artística e rezam que as empresas patrocinadoras do concurso devem pagar a publicação da obra vencedora e disseminar a distribuição do livro. Mas como explicar que uma empresa queira apenas pagar pela publicação e distribuição de 500 exemplares? Isso é muito pouco. Esgota-se isso já em Maputo e o obra não chega a outros cantos do país. As empresas se calhar estão mais preocupadas com a imagem delas e não de fato com a emancipação da leitura ou na divulgação de uma obra vencedora de um concurso”, denunciou Manjate.

De acordo com o contista os concursos são um mecanismo que auxilia quem está começando na literatura, mas ainda é uma retórica vazia para um país do tamanho do Moçambique. “Os concursos, geralmente, são nacionais. O problema talvez fique por conta de escritores de outras regiões fazerem chegar o seu original a Maputo, para que seja avaliado pela comissão julgadora do concurso. Porque nos concursos é exigido a apresentação do texto original. A maioria dos concursos fica muito direcionada à produção literária de autores de Maputo, infelizmente. Salvo no concurso anual do Fundo Nacional do Desenvolvimento Artístico Cultural – Fundac (concurso patrocinado pelo Ministério da Cultura de Moçambique), onde os concorrentes podem entregar os originais nas direções provinciais do concurso, que se encarregam de fazer chegar os originais a Maputo”, elucidou.

Em Moçambique se vive da literatura?

“Não se vive do ponto de vista do escritor. Escrever é quase uma penitência”, afirmou Manjate.

Segundo o contista, o escritor que está começando a carreira literária em seu país fica num segundo plano. “Em Moçambique os autores tem seu espaço de prestígio. Mas para boa parte a literatura ainda é um lugar utópico de debate e de construção de ideias. Para o escritor é uma coisa. Mas do ponto de vista do editor, a coisa muda de figura. Um editor que diz que vai editar o seu livro o faz efetivamente. No entanto, antes, angaria patrocínio para o seu livro junto a uma empresa privada e vende a sua obra pelos olhos da cara. E sabe quanto fica para o criador da obra? Apenas 10% do valor do livro vendido. Salvo em algumas exceções, onde o autor é muito badalado, já publicou várias obras e vai ganhar mais que esses 10% normalmente pagos”, declarou.

Não me segurei e perguntei a opinião sincera do contista sobre a questão. “Acho que o escritor moçambicano já se contentou com isso. Com o autor só ficam os valores simbólicos e sentimentais. Mas esse problema, falo sem medo de errar, não é apenas de Moçambique. Outros países sofrem com isso também”, afirmou Manjate.

O celular dele tocou. Já era hora do contista ir dar suas aulas de literatura. Chegava ao fim a entrevista, mas antes, Manjate finalizou: (…) “o que devemos nos ater é que a literatura em Moçambique é um contínua construção da memória coletiva de nosso país. Está a resgatar a nossa essência, discute-se a identidade, mas não podemos parar por aqui. Devemos ler essa memória aliada aos embates do nosso presente que bem pode ser o sistema opressor que está a degradar-nos pelo consumismo. Hoje o mundo vive para ter, e não para ser. Esse é o caminho de discussão que estou a imprimir em meus contos e faço com muito gosto”, declarou.

Quer saber mais sobre os livros de Manjate e o que ele pensa sobre a literatura em Moçambique? É só clicar no player abaixo.

 

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