A Costa do Lixo

Acúmulo de resíduos e o esgoto derramado nas águas da baía de Maputo tem espantado frequentadores da Praia Costa do Sol

Faltando menos de um mês para Maputo completar seus 125 anos (próximo dia 10 de novembro), a cidade, apesar de suas belezas naturais e arquitetônicas que lhe conferem um certo charme, atualmente sofre com problemas que poderiam ser minimizados por maiores cuidados por parte do poder público local e por uma maior consciência de seus moradores.

A capital de Moçambique, em outros tempos, foi  muito admirada por suas belezas naturais, principalmente por sua praia banhada pelo Índico. Por muito tempo, um dos cartões postais da cidade foi a Praia Costa do Sol. A atual Maputo, no entanto, não tem motivos para se orgulhar com o que tem ocorrido com sua principal praia .

A sujeira tomou conta desse ambiente público, o esgoto invadiu suas águas, e tudo isso tem preocupado inúmeros frequentadores, pescadores e comerciantes locais.

Quem navega pela baía de Maputo e caminha nos arredores da Costa do Sol, vê dezenas de resíduos de vários tipos espalhados no mar e na faixa de areia que corta a praia.

São latinhas de cerveja jogadas no chão, preservativos usados, copos amassados, embalagens plásticas de refrigerante, garrafas de vidro quebradas, além de restos de comida jogados no chão.

Em alguns pontos da praia, o cheiro ruim do lixo tomou conta. As barracas da Av. Marginal tem vendido cada vez menos porque a visitação da praia caiu bruscamente, e o comércio naquele sítio (lugar, como dizem por aqui) tem sentido esses efeitos.

Todo esse lixo vem causando uma série de transtornos para quem ainda insiste em frequentar a praia. Conversando com frequentadores e ambulantes que trabalham na Costa do Sol, fui informado de que há vários relatos de usuários que contraíram doenças de pele como micoses, conjuntivite e verminoses.

A verdade é que a Praia Costa do Sol deixou de ser o cartão postal de Maputo, como foi no passado. A paisagem ainda é linda, mas não de todos os ângulos agora.

O que se vê por lá em determinados pontos é um descaso das autoridades em relação à coleta de lixo e a falta de colaboração dos frequentadores. Essas situações têm espantado muita gente da praia.

Ninguém gosta de frequentar uma praia onde sua areia está repleta de resíduos e a água é imprópria para o banho. E a sujeira e o esgoto derramados na Costa do Sol têm sido os motivos principais para diminuir o número de visitantes, além de  atrapalhar o lazer de vários banhistas, espantar a pesca e ainda prejudicar sensivelmente o comércio local.

Maria Luisa Cossa, 38 anos, vendedora de capulanas na Av. Marginal, explica que a sujeira do lugar tem atrapalhado os seus negócios. “Trabalho aqui há mais de dez anos e nunca vi tanto lixo jogado. Hoje, estar a vender oito ou dez capulanas é raro. E a culpa disso é o lixo que está a se acumular por aqui. Essa sujidade não está a permitir que o turista venha e se ponha a gastar com nossos produtos”, afirmou.

A vendedora ainda falou da falta de cuidados do Conselho Municipal (Prefeitura, como chamam por aqui). “Antes, existia uma parceria da Mcel com o Conselho Municipal para limpar a praia. Mas não sei o que aconteceu e a coisa está a parar. Vejo somente carros do Conselho Municipal a recolher o lixo uma vez por semana. Isso é muito pouco”, declarou.

Já a frequentadora da Costa do Sol, Dércia Antônio, 18 anos, culpa os próprios usuários da praia pela sujeira no local. “Sempre estou nesse sítio com minhas amigas. O se vê aqui são as pessoas que frequentam a Costa do Sol a jogar tudo no chão. Faltam ainda lixeiras na praia”, considerou.

De acordo com ela, a consciência da população é um fator preponderante para evitar o acúmulo de lixo na praia. “Nós é que somos os responsáveis por “deitar” (sic) o lixo no chão. Jogar o lixo em um saco plástico estaria a resolver parte desses problemas. É muito fácil por a culpa no Conselho Municipal, que não está a fazer seu papel de limpeza da praia. Mas uma coisa deve ser dita: não é também o Conselho Municipal a “deitar” (sic) o lixo na areia”, ressaltou.

Segundo a vendedora de peixes da Costa do Sol, Maria Amélia, 37 anos, não há lixeiras suficientes na praia. “Fico aqui a vender peixes diariamente. E o que está a me impressionar é que o Conselho Municipal cruzou os braços. Falta-nos mais contentores de lixo e o que peço sempre aos meus clientes é que joguem seus restos de comida nesta sacola, que sempre trago comigo”, relatou.

Além da questão do lixo, outro aspecto negativo é o esgoto jogado na baía de Maputo.

O pescador Albino Vasco, 35 anos, relata que a sujeira da água tem espantado os peixes. “Mesmo na água encontramos garrafas e vidros quebrados. Se calhar para apanharmos camarão e peixes temos que ir muito longe para conseguir. O camarão foge e não dá para apanhá-los”, disse.

Perguntado se há uma mobilização dos pescadores para exigir do Conselho Municipal uma atitude mais eficaz, o pescador respondeu negativamente. “Estamos a tentar conversar com Conselho Municipal sobre isso. Mas não alcançamos bom resultado. A água está cheia de resíduos do esgoto do Hospital Central e das casas por perto. Um problema muito sério para nós que não estamos a apanhar  peixes como antigamente”, denunciou.

Procurado, o Conselho Municipal de Maputo – CMM, não quis se manifestar sobre o assunto. No entanto, há também notícias animadoras.

Há informações de que a Associação Moçambicana de Reciclagem está recolhendo assinaturas para um memorando que deverá ser entregue às autoridades competentes. O que se quer com isso é exigir a imediata limpeza da praia. Clique aqui para saber mais.

Veja na tabela abaixo o tempo de decomposição de alguns materiais encontrados nas areias da Costa do Sol (Fonte: Ecologia.org).

Material

Tempo

Papel

2 a 4 semanas

Palito de Fósforo 6 meses
Papel plastificado 1 a 5 anos
Casca de banana ou laranja 2 anos
Chiclete 5 anos
Latas 10 anos
Ponta de cigarro 10 a 20 anos
Couro 30 anos
Sacos plásticos 30 a 40 anos
Cordas de nylon 30 a 40 anos
Latas de alumínio 80 a 100 anos

Tecido

100 a 400 anos

Vidro

4.000 anos

Garrafas plásticas e pneus

 

indefinido

Enfim, a limpeza pública de uma praia seja em Moçambique, no Brasil ou em qualquer lugar, cabe a todos. É importante lembrar que os frequentadores da praia (visitantes, banhistas e moradores) são também responsáveis por gerar esses resíduos. Oxalá tenham mais consciência a respeito, e o poder público local não faça vista grossa frente a esses sérios problemas do lixo e do esgoto.

Hambanine e até o próximo post!

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