Hospital pede socorro

Maior unidade hospitalar de Maputo sofre com o desleixo por parte das autoridades 

Os problemas das unidades hospitares de referência nos grandes centros urbanos são crônicos e principalmente, globais. Quase nenhum país escapa. E em Moçambique, não é diferente. A população sofre com o descaso das autoridades.

Pensando nisso, visitei o Hospital Central de Maputo (HCM), considerado a maior unidade hospitalar da capital e referência do país.

Creio que se há problema, o nosso papel (e aqui me coloco como estudante de jornalismo e pequeno operador da comunicação) é mostrar a realidade. Vejo a mídia falar um milhão de coisas, menos o essencial.

Isso dói e aqui faço valer antes de tudo minha cidadania. Ser um estrangeiro vivendo em Moçambique não tapa os meus olhos aos descasos do poder público local em relação à saúde no país. Dito isso, vamos ao que vi na unidade hospitalar.

O que vi lá é diferente do que percebemos nos hospitais brasileiros? Não, é igualzinho. Mas foi de arrepiar os cabelos. Saiba disso.

Situações penosas

O Hospital Central de Maputo não consegue responder de fato às demandas dos usuários do sistema de saúde moçambicano. É aquela coisa que (infelizmente) estamos acostumados a ver: a demora no atendimento, as longas filas, a falta de remédios e a insuficiência de um corpo clínico adequado.

Leitos? Que leitos? Nos três dias que visitei o hospital e por todos os departamentos que passei, vi todos os leitos superlotados e centenas pacientes agonizando em filas à espera de um atendimento. Triste realidade.

Doentes internados no chão e outros tantos misturados em cima de colchões. Detalhe: todos com patologias diferentes. O que pode acontecer? Qualquer mente minimamente capaz, sabe que isso não é um procedimento normal, visto que a imunidade desses pacientes pode estar baixa e o contato direto com outras patologias podem agravar seus estados clínicos.

Clique aqui e saiba sobre a realidade dos pacientes.

Conforme me informou uma enfermeira que preferi resguardar o nome, é comum pacientes de tuberculose, por exemplo, ficarem internados no mesmo recinto com pacientes com ferimentos abertos à espera de atendimento.

O índice de contato viral e doenças hospitalares na maior unidade de saúde de Moçambique é alto? Não saberei responder. Pois até mesmo os órgãos especializados não têm esses dados. Não há estatísticas claras sobre o assunto e os números de pacientes que morrem com infecções hospitalares só Deus sabe.

A verdade é que os serviços não suportam a demanda, e se tiver um leito vago, o paciente vai ficar ali mesmo, independente do quadro clínico que apresenta no momento da sua internação. É a única fórmula que se encontra para atender as urgências em Maputo.

Quer um diagnóstico dos problemas enfrentados? Clique aqui.

Paliativos médicos

Os médicos nisso tudo? Ah, são verdadeiros leões. Há que se reverenciar esses profissionais que fazem de tudo (com condições mínimas de trabalho) para ajudar os pacientes.

Uma novela antiga que todos nós já conhecemos, não? O serviço é árduo, não há estrutura para o trabalho e os profissionais ainda são mal remunerados.

Você gosta de novelas? Eu particularmente não gosto. Mas se você curte ação, drama e suspense, talvez queira acompanhar os “episódios inéditos” dos salários atrasados para quem trabalha na área da saúde em Maputo. Basta clicar aqui.

O termo mais usado no Hospital Central de Maputo é muito conhecido também por nós brasileiros: “paliativo”. Foi isso o que um residente do hospital me contou.

“Em muitos casos, temos apenas paliativos a oferecer nesta unidade. Não estamos a solucionar de fato os problemas mais graves. O enfrentamento de algumas patologias estão a ficar por conta desses paliativos, que apenas prolongam um estado clínico favorável e possibilitam uma sobrevida aos pacientes”, me confidenciou o jovem médico, que ainda me pediu que não revelasse o seu nome por medo de retaliações administrativas.

Conforme fui informado por um funcionário do HCM, as maiores causas de morte na unidade hospitalar estão relacionadas à malária, hipertensão e diabetes, mas tendo como fator principal a AIDS.

Insisti com funcionários numa coisa que estava me incomodando. Perguntei a alguns sobre os índices de morte por infecção hospitalar e, ninguém soube precisar.

Unidade de Oncologia

Quem me conhece sabe que minha família enfrentou recentemente um caso de câncer de mama. Graças a Deus, vencemos. Talvez porque tivemos a sorte de realizar o tratamento de minha mãe em um hospital qualificado.

Refletindo sobre isso, quis conhecer um pouco da realidade dos moçambicanos que enfrentam o câncer e fazem seus tratamentos em um hospital público de Maputo. Notícias animadoras por lá? Não, infelizmente.

Pelo que apurei, hoje, são 400 pessoas que fazem o tratamento de câncer na unidade hospitalar. Conversei com pacientes de Maputo e das províncias de Sofala, Gaza e Inhambane.

Muitos fazem as sessões de quimioterapia e radiologia e voltam para casa. Já outros vindos de províncias mais distantes permanecem alojados no hospital.

Nas conversas que tive com esses pacientes o que me chamou a atenção foi a fase de tratamento de quimioterapia. Que eles chamam aqui de “ciclos”.

São seis ciclos para cada paciente, independente do grau que o câncer tenha atingido no organismo. Confesso: achei muito pouco.

A alegação de uma enfermeira da ala de oncologia sobre isso foi de que o tratamento é caro. Meu pragmatismo não me deixou aceitar essa resposta. Culpei de imediato as autoridades moçambicanas. Fui injusto? Tire as suas próprias conclusões.

Como alguém com câncer num estágio evoluído pode se curar com apenas seis sessões de quimioterapia? Lembro-me de conhecer pessoas no Brasil que fizeram 10, 20, 30 sessões para só depois obterem um diagnóstico positivo. Uma triste realidade.

Nas pesquisas que fiz sobre o Hospital fiquei sabendo que o orçamento destinado pela Frelimo ao HCM é algo em torno de 500 milhões de meticais por ano. Aí fiz as contas em dólar e sem me esforçar muito percebi o quanto isso é insignificante, visto a demanda de pacientes e necessidades de estruturação da unidade hospitalar.

Procurei à direção do HCM para falar sobre os assuntos que abordei nesse post, mas ela não quis me receber. Alegou outras urgências. Até compreendi não ser recebido, pois o que vi por lá foi um desespero generalizado de pacientes à espera de atendimento.

O Hospital Central de Maputo já foi considerado no início da década de 80 como um dos melhores da África Austral. Tomara que recupere esse título em breve. Fica a torcida desse brasileiro que vive em Maputo.

Você de Moçambique que me lê gostaria de cobrar mais ações pontuais por parte da FRELIMO? É só clicar no site do Ministério da Saúde e deixar sua reclamação. Pequenas ações como esta podem fazer a diferença.

Clique aqui e veja a lista de outros hospitais em Maputo.

Hambanine e até o próximo post!

Uma resposta em “Hospital pede socorro

  1. A saúde nos países subdesenvolvidos pede socorro! A saúde pública, (é lógico). A deficiência não só está, desde o preparo desses profissionais até a demanda de recursos hospitalares,
    que também é precário. Todos deveriam ler esses tipos de reportagens; principalmente as autoridades responsáveis pela saúde.

    Graone de Matoz, poeta e escritor brasileiro

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