A África arde

Saiba mais sobre os desafios de alguns países da África Austral

O continente mãe (porção de terras que se não nasci em carne, hoje, sinto-me renascido em espírito) ainda está longe de deixar de preocupar-se com algumas “nuances” que, para alguns países, são apenas problemas já superados.

Muitas nações do globo já solucionaram ou talvez nunca vivenciaram a pobreza em estado extremo, não tiveram problemas com a epidemia da AIDS ou experimentaram o abismo de uma pseudoliberdade democrática.

Talvez não viveram em suas terras uma fome falimentar que assolou vidas inteiras ou não puderam sentir o gosto amargo de guerras internas. Pode ser que em tempo algum, não sentiram cortar suas almas pela falta de liberdades civis ou viram uma corrupção institucionalizada por um Partido/Estado (em alguns casos fica difícil separar isso) que foi libertador no passado e agora, faz às vezes de déspota.

Quem sabe gerações inteiras de “não-africanos”, não viram a escassez do saneamento básico, a pouca higiene com as coisas ou ainda a dificuldade de se encontrar água potável.

Tudo isso para muitos países já foi resolvido e faz parte de um passado distante (quase remoto). Porém aqui na África, essas, digamos, “calamidades sociais”, são a causa de inúmeras mortes e estão presentes no dia a dia de milhões de pessoas.

Quando cá cheguei, algumas pessoas me falaram sobre o tal “choque de realidade” que eu iria sentir e confesso: no início de minha estada por aqui isso não aconteceu.

No entanto, depois de longos 150 dias vivendo nesse continente apaixonante e ao mesmo tempo caótico, esses problemas enfrentados pelos irmãos africanos passaram a me afetar de uma maneira que ainda não julgo compreender.

O que eu chamo de “caos”, os africanos chamam de vida e, ainda, são generosos, nobres e sorriem. Confesso: isso impressiona-me. E talvez seja esse o resultado da minha não compreensão de certas coisas por aqui.

Quando paro e penso nessas questões difíceis enfrentadas por eles, sinto um certo asco e uma vontade imediata de poder ajudar de alguma forma na alteração desse quadro potencialmente negativo. Porém, quando meu pragmatismo fala mais alto, recolho-me à minha insignificância e engulo seco a indignação junto à comoção que tudo isso gera.

O que cresce é o sentimento de impotência que se alimenta do meu contato com o povo mais simples que vejo comer xima, pão e abadia (comidas típicas das massas moçambicanas e de parte de alguns países da África Austral). Diante dessa realidade opressora, meus pensamentos ficam à deriva tal qual a sorte de muitos irmãos africanos que conheci por aqui, que navegam em mares revoltos de uma “subsobrevivência”.

Para um brasileiro que vivia na região sudeste de seu país (que teve acesso à escola e a oportunidades), problemas como a pobreza generalizada, a desnutrição, a mortalidade infantil, a violência gratuita, o abuso infanto-juvenil, a falta de acesso a medicamentos, a pouca escolaridade de jovens, os índices absurdos de natalidade, as estradas intransitáveis, a falta de alimentos, os escasos centros de saúde e o precário abastecimento de água eram realidades minimamente sentidas e às vezes, sequer pensadas.

A gente vê isso apenas da altura dos noticiários que, na verdade, mostram muito pouco essas adversidades. “A zona de conforto, o poder, o nacionalismo exacerbado e a mídia banal são o inferno”, já dizia algum sábio do passado num dia libertador.

Só que depois desse tempo vivendo em terras africanas, as coisas que fui vendo com meus próprios olhos passaram para mim do leve incômodo à intolerância desmedida, quando o assunto passou a ser a vida humana ou a falta dela, no seu estágio mais visceral – a sobrevivência.

Se para países desenvolvidos muitas doenças são facilmente preveníveis e curáveis, na África, essas mesmas matam, repito: matam diariamente centenas de pessoas. E parece que ninguém se importa, ou o que é feito a respeito para alterar esse quadro é sempre muito pouco.

Clique no vídeo abaixo e saiba mais.

Viver em Moçambique tem me mostrado esse ambiente caótico e agora, num misto de repúdio e esperança, divido contigo algumas duras constatações que tenho experimentado. Dito isso, passemos a alguns indicadores africanos (que julgo como intoleráveis).

Quando a ânsia é maior e a indignação torna-se um fardo, eu, como um pequeno operador da comunicação, não poderia deixar de vomitar certas coisas.

Você gosta de textos vomitados? Pois bem, esse é um daqueles que muita gente não gosta, por tratar-se de problemas alheios, aparentemente distantes. Mas enfim, vai aqui a mostra do que tem revirado o meu estômago. Se você tem também um estômago fraco ou faz pulsar em suas artérias um pouco de sensibilidade, continue a ler esse texto e ao final vomite comigo o que eu chamo de caos.

De acordo com o Conselho Nacional de Combate ao HIV de Moçambique (CNCS), diariamente, 320 crianças com idade inferior aos 5 anos morrem vítimas de doenças preveníveis e curáveis como as infecções respiratórias, a diarreia e a malária. Por que? Porque esses miúdos (como dizem por aqui) estão infectados com o vírus HIV e tem por causa mortis essas doenças relacionadas.

Quando se precisa ir ao hospital, em muitos casos, os pais desses menores não têm meios próprios e nem apoio do Estado para tratar suas crianças, contando apenas com a ajuda de organizações internacionais que são apoiadores, como é o caso da Save the Children, organização que tive o prazer de conhecer.

Para milhões de vítimas desta epidemia, o apoio dessas organizações não governamentais, é tido como a única alternativa frente à escassa ajuda que o Estado oferece. Isso é realidade só de Moçambique? Não, infelizmente, a maioria dos países africanos respiram isso e se intoxicam cada vez mais nessa orbe deletéria.

Uma das doenças que mais assolam a África é a AIDS. Falei o óbvio? Sim e não. Sim, pois todos sabem e não, porque a meu ver, muito pouco é feito a despeito, apesar de algumas tentativas que são louváveis.

O HIV é uma ameaça direta ao desenvolvimento social e econômico de Moçambique e de toda a África. Mas das esferas dos seus umbigos, muitos governantes, não percebem essa realidade.

Dados recentes revelados pelo CNCS mostram que 1,6 milhão de pessoas tem o vírus HIV no país, dos quais 37% são homens, 54% são mulheres e 9% correspondem a crianças.

Segundo os indicadores da pesquisa, o grupo com maior vulnerabilidade é o das mulheres. De cada 10 portadores do HIV, 6 são do sexo feminino. A faixa etária com maior risco é a de 15 a 29 anos, nas quais as mulheres têm aproximadamente três vezes mais chance de adquirir a doença.

De acordo com o relatório do CNCS, apesar do significativo crescimento dos serviços de tratamento antirretrovirais (TARV) no país (inclusive com apoio do Brasil nisso), a cobertura para quem necessita deste tipo de auxílio é ainda insuficiente em Moçambique.

Hoje, são cerca de 374 mil adultos e 72 mil crianças no estágio avançado da doença. Porém, apenas 42% e 19%, respectivamente, recebem um tratamento adequado.

Outros dados

A Unaids, órgão das Nações Unidas para o combate à AIDS, registrou em seu relatório de 2011 que na Suazilândia (pequeno reino vizinho à Moçambique), há 25,9% da população infectada com o vírus.

Já na África do Sul são 17,8% da população. Dados alarmantes também revelam que na Namíbia estão infectados 13,1% da população e no Zimbábue, de acordo com o mesmo relatório, são 14,3% portadores do HIV.

No Malawi 14,1 % da população sofre com a epidemia. Em Lesotho são registradas 18 mil mortes por ano relacionadas à doença. E na Tanzania 1,4 milhão de pessoas vivem com o HIV/AIDS.

Todos esses dados foram levantados junto à Unaids, mas há que se mencionar que que esses índices podem ser ainda maiores, pois há muitas pesquisas datadas ainda do início da década de 2000.

Quer saber mais sobre isso e ver um exemplo dessa dura realidade? Clique aqui.

De acordo com o mesmo relatório, as causas e/ou porquês da ocorrência dessa enfermidade podem estar relacionadas à prostituição, ao casamento precoce, à troca constante de parceiros, além da desinformação sobre o assunto. Concordo e discordo. Há também que se mencionar a falta de políticas públicas eficazes voltadas à problemática.

O que um ativista da Save the Children me informou numa conversa rápida que tive com ele ainda quando estive na Unicef Moçambique para fazer uma matéria (leia aqui o post da Unicef), é que um dos artifícios de prevenção da AIDS é distribuir camisinhas para a população. Porém, de acordo com o membro da organização, apenas “esse ato não dá a certeza de que a sociedade mude alguns hábitos enraizados na cultura local. A verdade é que o africano não gosta de usar preservativos”, revelou.

Conforme fui informado, palestras nas comunidades sobre a AIDS/HIV e sua prevenção estão sendo feitas constantemente por toda a África. Outro serviço prestado pelas ONGs é o teste para a verificação da presença do vírus HIV.

Suco gástrico

Um coisa que percebo é que os países da África crescem consideravelmente e estão, aos poucos, reformulando-se e entrando num outro momento, talvez de avanços, se a corrupção institucionalizada der uma refreada. No entanto, quando fala-se da questão da AIDS e do seu controle, a coisa parece-me ser ainda nebulosa. Os números continuam a ser assustadores, essa é a verdade.

Enfim, vejo também uma aceitação passiva de uma população que se tiver pão e xima em casa já é muito. Cabe tocar nessa ferida da passividade dos moçambicanos ou dos africanos de um modo geral, diante do caos? A meu ver não, pois o povo mal se sustenta em pé diante de tamanhas adversidades.

A intensa corrupção dos governos e a democracia com liberdades discutíveis ainda imperam em diversas regiões africanas e, infelizmente a África Austral (região onde vivo) engrossa as estatísticas.

Essas situações mencionadas são fatores que, a meu ver, agravam a questão da AIDS, pois infelizmente, vejo governos africanos preocupados apenas com a manutenção de seus respectivos poderes.

Falta vontade política para transformar vidas, dar oportunidades e estabelecer, de fato, melhorias significativas na vida dos africanos.

Creio que para se falar em dias melhores para os africanos há muito chão por se percorrer, tipo aqueles de terra batida ou aquelas estradas empoeiradas intermináveis com curvas sinuosas. É uma questão de amadurecimento e o “ataque ao caos” deveria atingir primeiro alguns males que corroem a base da sociedade africana: a fome, a falta de água e a higiene, além é claro, de um franco combate à corrupção de governos pseudodemocráticos. A palavra transparência deve passar a existir para esses povos.

Sem muito otimitismo, finalizo esse post, querendo crer que haja, no futuro, mais vontade política para tratar com respeito todas essas questões tão indígnas. Por enquanto, eu apenas vomito um suco gástrico de denúncia, com um cheiro ardido de indignação, nos governantes africanos e, principalmente, no governo de Moçambique.

Hambanine e até o próximo post!

Fontes de pesquisa:

Conselho Nacional de Combate ao HIV (CNCS)

Club of Mozambique

Save the Children

Unaids

Uma resposta em “A África arde

  1. Um país que pode fazer muito pela África é o Brasil! Semelhanças, herança cultural e mais desenvolvimento! Depois pressionar a ONU para que remédios, alimentos e procedimentos médicos e recursos entrem nos países necessitados mesmo que haja necessidade de intervenção militar!Abrir espaço no mercado mundial para produtos africanos!

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