Artesanato sedutor

Conheça um espaço de vendas de artesanato e gastronomia na região central de Maputo

Na capital de Moçambique são diversos os locais onde se pode encontrar o artesanato do país.

As ruas estão cheias de gente vendendo nas esquinas, em lojas e nos mercados espalhados pela cidade. Mas se deseja comprar peças genuínas, de qualidade e a um bom preço, a dica fica por conta de um local superagradável, que agora, apresento para você.

Quer encontrar um artesanato fino e de qualidade? Então, o lugar para você conhecer é a Feira de Artesanato, Flores e Gastronomia de Maputo – FEIMA.

Situada numa região nobre da capital, a feira foi inaugurada em 2010, num projeto que envolveu recursos do Conselho Municipal de Maputo e da Cooperação Espanhola.

A FEIMA como é conhecida por aqui, fica no Parque dos Continuadores e funciona de segunda à domingo, das 9h às 18h.

Nesse espaço amplo você encontra artesanato de todas as regiões do país. Além disso, é possível tomar uma cervejinha acompanhada por pratos típicos moçambicanos. O local é conhecido por ter bons restaurantes e por realizar eventos literários, musicais, culturais e gastronômicos.

Na feira, você encontra para comprar todo tipo de esculturas em madeira, principalmente em pau preto e sândalo.

Há ainda peças de decoração para a casa, trabalhos feitos em palha, roupas típicas moçambicanas, camisetas estilizadas, vestidos e bolsas de capulana, artigos e adereços femininos, quadros pintados a óleo e os famosos “batiks” – pinturas multicoloridas feitas em panos.

“Para se fazer o batik é necessário muito trabalho. Usa-se o pincel com tinta, a cera, a fervura do pano e a secagem”, explica José Antônio Cossa, pintor de batiks.

Segundo Cossa, até um batik ficar pronto é um longo processo. “Geralmente, o pano a ser pintado é esticado numa primeira moldura. Depois de esticado na moldura, usam-se outros panos sobrepostos com tinta e cera em cima.  Nesse momento, se quer  acentuar as linhas dos desenhos da primeira moldura.  Nessa parte do processo de criação do batik, usamos cera fundida que deve descer uniforme sobre essa primeira moldura que é a original. Por último, o “gajo” leva o tecido da primeira moldura a ferver em água quente, para remover a cera e mostrar o desenho desejado. Além dessas coisas, o batik deve ser pendurado para secagem. Tudo isso demora dois ou três dias para cada tela”, afirmou Cossa.

Uma outra curiosidade da FEIMA é que lá é o reduto dos “artesãos maconde”, na cidade de Maputo. Você conhece a arte maconde? Esse tipo de trabalho artesanal é conhecido internacionalmente pelas esculturas em madeira. Essa técnica, nascida há séculos na região nordeste de Moçambique e norte da Tanzânia, é feita por mãos afiadas que trabalham na madeira, principalmente no pau preto.  Assista ao vídeo abaixo que mostra “artesãos maconde” criando suas obras.

Com preços justos e peças bem feitas, a FEIMA, desde a sua inauguração, tem sido cada vez mais visitada por turistas. Mas há quem ande descontente com o lugar. Mesmo apoiados por entidades públicas e privadas, muitos vendedores da FEIMA reclamam da falta de clientes, motivo que leva os artesãos a quererem voltar a vender nas ruas de Maputo. Clique aqui e saiba mais.

Espero que tenha gostado! Hambanine e até o próximo post!

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Intercâmbio musical entre Brasil e Moçambique

Encontro de banda brazuca e músicos moçambicanos rende bons frutos

A musicalidade da África é algo incrível e tenho tido o prazer de conhecê-la aos poucos. Esse talento musical africano emana de todas as partes.

Qualquer sítio (lugar como dizem por aqui), é pouso certo para vermos alguém cantando ou tocando algo com muita maestria e naturalidade. E a boa música em Moçambique, afinada ao talento de seus músicos, é um traço marcante do país.

Agora, imagine o encontro desses músicos  locais com a artéria musical brasileira, que pulsa talento o tempo todo? É, foi isso o que presenciei e confesso: foi muito legal.

Recentemente, uma banda brasileira do Estado de São Paulo, chamada “Família Gângsters”, se apresentou em Maputo e pude conhecê-los. Eles ficaram hospedados no mesmo backpacker onde eu estava.

Acompanhei-os nos shows que fizeram no Gil Vicente Café Bar: uma casa noturna tradicional da capital de Moçambique, que funciona de terça à sábado, onde sempre tocam músicos de toda a África. É o point da efervescência musical de Maputo, eu diria.

A banda paulista que tem por base a mescla de sonoridades do regaae, ska, rock e ritmos brasileiros, fez dois shows sensacionais na referida casa. Os membros da banda: Pedro Lobo (vocalista e baixo), Felipe Gomide (bateria), e Marcos Mossi (guitarra), contaram ainda com a participação de alguns músicos moçambicanos no decorrer das duas apresentações. Quer saber mais sobre a “Família Gângsters”? Clique aqui.

Com uma proposta super do bem, transmitindo sempre uma mensagem positiva e idealista, a banda, pelo que pude perceber, busca aproximar-se das diferentes tribos da aldeia global num processo batizado por eles próprios de “familiarismo”: nem à esquerda, nem à direita, o lance é seguir em frente.

A palavra “celebrai” foi algo recorrente que ouvi entre os membros da banda. Daí, já dá para ter uma ideia do que buscam esses garotos de São Paulo. A celebração, a música e a transcendência musical.

Além das apresentações no Gil Vicente, a banda gravou em um estúdio de Maputo três músicas com importantes músicos de Moçambique, donos também de muito talento. As faixas viajam pelas mais diferentes influências e estilos e alguns dos convidados cantam em dialetos locais.

Uma das músicas gravadas foi com o rapper  Azagaia, o maior nome da música de protesto em Moçambique. Nessa faixa, conforme informações do site da banda, há uma crítica às novelas brasileiras e à sociedade consumista.

Outra faixa gravada pela banda brasileira foi com a cantora Lenna Bahule. A música tem uma pegada groove e a composição mesclou ainda influências de “tambores sampleados” do candomblé brasileiro.

Já a última faixa gravada ficou por conta do encontro dos paulistas com o cantor e instrumentista Cheny Wa Gone. A faixa evidencia o som da timbila e da mbira, instrumentos tradicionais de Moçambique.

Parte da composição é um mix da voz do vocalista Pedro Lobo cantando em português junto à voz afinadíssima de Cheny, que canta no dialeto chope. Confira no vídeo abaixo o resultado desse encontro.

Quer conhecer as outras faixas gravadas em Moçambique pela “Família Gângsters”? Basta acompanhar a fan page da banda.

Que o exemplo da talentosa banda de São Paulo fique para outros músicos tupiniquins. Acompanhei um pouco desse intercâmbio entre os brasileiros e os moçambicanos e fiquei admirado com o resultado.

Oxalá tenhamos cada vez mais esse tipo de reunião por aqui. E que não só as novelas, os negócios da Vale do Rio Doce e o idioma nos aproximem de Moçambique, mas também as nossas naturais musicalidades. Assista no vídeo abaixo o que os meninos da “Família Gângsters” andaram registrando por aqui. Muito legal.

 Hambanine e até o próximo post!

A cerveja é paixão por aqui também

Conheça as marcas mais famosas consumidas no país

Chegou o dia para falar de coisa séria (risos). Já faz um tempinho que tenho pensado em escrever um post sobre as cervejas moçambicanas. E especialmente hoje, a coragem veio junto dos copos que tomei.

Depois de uma ou duas garrafas ficou bem mais fácil escrever sobre o assunto (risos). Nunca falei que eu não gostava de cerveja. Apologia? Sim, senhoras e senhores. Isso mesmo! (risos)

Pensa que a cerveja é uma paixão exclusiva do Brasil ou dos europeus? Não se engane. Por aqui o culto à cevada é bastante difundido, e o consumo é feito por todas as classes sociais, indistintamente.

“Tás a perceber? Esse povo está a consumir muita cerveja, eh pah”! Logo na minha chegada em Moçambique, em viagem à cidade da Beira, foi o que eu ouvi de um amigo moçambicano que reside em Maputo, mas é natural daquela cidade.

“Gostas de cerveja também? Que “nice”! Vou apresentar para você marcas que estão a fazer a cabeça do moçambicano de norte a sul do país”, afirmou “o gajo”, servindo-me um copo.

Brindamos o gosto pela cerveja e experimentei algumas marcas daqui. Em Moçambique, há cervejas nacionais e se consome também rótulos sulafricanos. Aqui se bebe cerveja tanto ou mais que no Brasil. Tenho que confessar: achei isso bem interessante. (risos)

Há três marcas principais produzidas em larga escala. Todas da mesma cervejaria, a empresa Cervejas de Moçambique. Vamos aos rótulos: temos aqui a Laurentina, a 2M e a Manica, a filha caçula criada nos últimos anos pela fabricante.

As duas primeiras são super tradicionais no país. Para os moçambicanos, talvez tenha um gosto quase nostálgico, pois ambas são comercializadas por aqui desde o tempo colonial. A Laurentina tem esse nome em homenagem à antiga capital de Moçambique no tempo colonial, Lourenço Marques, hoje, chamada Maputo.

Fabricada desde a década de 30, é a mais premiada de todas as cervejas de Moçambique. E as suas variantes: a Clara, a Preta e a Premium já ganharam diversos prêmios internacionais de qualidade. Os últimos foram nos anos de 2008 e 2009, onde as marcas levaram conjuntamente as medalhas “Grande Ouro” no concurso internacional Monde Selection, realizado na Bélgica.

No entanto, não é só de louros que a Laurentina vive. Recentemente, a marca virou foco de uma polêmica. Um anúncio publicitário apelativo e um comentário infeliz por parte de um dirigente do alto escalão da empresa dona da marca, causou inúmeros protestos no país. A foto abaixo ilustra o equívoco da campanha publicitária.

O anúncio já era para lá de polêmico (por criar perspectivas sexistas e racistas), aí o representante da empresa me solta publicamente essa: (…) “usamos a palavra “preta”, porque é como a cerveja é conhecida e a frase da campanha “ficou de boa para melhor”, foi em função do novo formato da garrafa que é “melhor de pegar””. Aí já viu né? O cara tentou consertar e fez uma alusão mega infeliz ao corpo da mulher. Todo mundo caiu matando (e com razão). Veio mídia e parlamentares para cima da empresa.

Assista aos dois vídeos abaixo e veja a saia justa que se meteu a empresa Cervejas de Moçambique, dona da marca Laurentina.

Os protestos não cessaram até a campanha ser interrompida. Quer saber mais sobre isso? Clique aqui

A outra marca de destaque em Moçambique é a 2M. É a mais consumida pela população. O interessante é que o rótulo da cerveja mais bem aceita pelo público, leva a abrevitura do nome do conde Mac-Mahon, alcunha de Marie Edmé Patrice Maurice, que em 1875, decidiu a favor de Portugal numa disputa com a Grã-Bretanha pela posse de parte do sul de Moçambique. Curiosidades à parte, vamos à última marca.

A Manica é também da mesma empresa e levou esse nome em homenagem à província de mesmo nome, na região central do país. Das três cervejas citadas, particularmente, eu gostei mais dessa. Talvez por ser mais encorpada e se assemelhar um pouco à cerveja Itaipava, do Brasil.

As garrafas, os preços e o chopp

Falei das cervejas, mas não mencionei as garrafas que, em Moçambique, são diferentes das do Brasil. Estamos acostumados a vê-las em nosso país  na versão de 660 ml, sendo servidas em copos americanos (muita gente em Belo Horizonte também conhece esse tipo como “lagoinha”). Mas aqui há diferenças. Geralmente, as cervejas em Moçambique são comercializadas em garrafas de 550 ml e são bebidas por uma única pessoa.

Há também versões em long neck como no Brasil. Mas nos “butecões copos sujos” das ruelas do país, o que reina são as “garrafas grandes” (de 550 ml), como se diz por aqui.

Os preços delas são variáveis, de acordo com o local em que você está. Mas em média a “garrafa grande”, de 550 ml, sai por volta de 50 meticais. Em reais é algo próximo de R$3,60.

Os cervejeiros de plantão, a essa altura, já devem estar se perguntando: e o chopp? Ah, aqui tem também, mas com outro nome. Em Moçambique, chamam o nosso conhecido chopp de “pressão”. Um copo de 300 ml sai por 30 meticais, algo em torno de R$ 2,25.

Enfim, quem curte cerveja gosta dela estupidamente gelada, certo? Pois é, salvo em raras exceções, por aqui, infelizmente, essa máxima não se aplica. O calor da África, muitas vezes, não deixa as cervejas locais ganharem aquela “nuvenzinha branca de gelo” como as que vemos nas garrafas brasileiras. Mas para um bom bebedor de cerveja, um “tzzzz” já basta né? Então, com esse sonzinho gostoso do “tzzzz”, abro mais uma garrafa de Manica e termino esse post.

É cientificamente comprovado que a cerveja causa euforia e em casos extremos, saudades. Então, este post fica como uma homenagem aos meus amigos jornalistas especializados na “arte de cervejar” (seus terríveis – risos) e ao Arcângelo Café: a varanda mais charmosa e aconchegante do Edifício Maletta, em Belo Horizonte/MG, onde os etílicos do Centro Universitário Una (alunos e professores) dão o ar de suas graças.

Fontes de pesquisa: “Botecos copos sujos” de Maputo, Catembe e Costa do Sol e ainda adjacências eletrônicas: (risos) Macua Blog e Jornal de Notícias.

Hambanine e até o próximo post! No próximo, prometo não beber antes de escrever. (risos)

Hospital pede socorro

Maior unidade hospitalar de Maputo sofre com o desleixo por parte das autoridades 

Os problemas das unidades hospitares de referência nos grandes centros urbanos são crônicos e principalmente, globais. Quase nenhum país escapa. E em Moçambique, não é diferente. A população sofre com o descaso das autoridades.

Pensando nisso, visitei o Hospital Central de Maputo (HCM), considerado a maior unidade hospitalar da capital e referência do país.

Creio que se há problema, o nosso papel (e aqui me coloco como estudante de jornalismo e pequeno operador da comunicação) é mostrar a realidade. Vejo a mídia falar um milhão de coisas, menos o essencial.

Isso dói e aqui faço valer antes de tudo minha cidadania. Ser um estrangeiro vivendo em Moçambique não tapa os meus olhos aos descasos do poder público local em relação à saúde no país. Dito isso, vamos ao que vi na unidade hospitalar.

O que vi lá é diferente do que percebemos nos hospitais brasileiros? Não, é igualzinho. Mas foi de arrepiar os cabelos. Saiba disso.

Situações penosas

O Hospital Central de Maputo não consegue responder de fato às demandas dos usuários do sistema de saúde moçambicano. É aquela coisa que (infelizmente) estamos acostumados a ver: a demora no atendimento, as longas filas, a falta de remédios e a insuficiência de um corpo clínico adequado.

Leitos? Que leitos? Nos três dias que visitei o hospital e por todos os departamentos que passei, vi todos os leitos superlotados e centenas pacientes agonizando em filas à espera de um atendimento. Triste realidade.

Doentes internados no chão e outros tantos misturados em cima de colchões. Detalhe: todos com patologias diferentes. O que pode acontecer? Qualquer mente minimamente capaz, sabe que isso não é um procedimento normal, visto que a imunidade desses pacientes pode estar baixa e o contato direto com outras patologias podem agravar seus estados clínicos.

Clique aqui e saiba sobre a realidade dos pacientes.

Conforme me informou uma enfermeira que preferi resguardar o nome, é comum pacientes de tuberculose, por exemplo, ficarem internados no mesmo recinto com pacientes com ferimentos abertos à espera de atendimento.

O índice de contato viral e doenças hospitalares na maior unidade de saúde de Moçambique é alto? Não saberei responder. Pois até mesmo os órgãos especializados não têm esses dados. Não há estatísticas claras sobre o assunto e os números de pacientes que morrem com infecções hospitalares só Deus sabe.

A verdade é que os serviços não suportam a demanda, e se tiver um leito vago, o paciente vai ficar ali mesmo, independente do quadro clínico que apresenta no momento da sua internação. É a única fórmula que se encontra para atender as urgências em Maputo.

Quer um diagnóstico dos problemas enfrentados? Clique aqui.

Paliativos médicos

Os médicos nisso tudo? Ah, são verdadeiros leões. Há que se reverenciar esses profissionais que fazem de tudo (com condições mínimas de trabalho) para ajudar os pacientes.

Uma novela antiga que todos nós já conhecemos, não? O serviço é árduo, não há estrutura para o trabalho e os profissionais ainda são mal remunerados.

Você gosta de novelas? Eu particularmente não gosto. Mas se você curte ação, drama e suspense, talvez queira acompanhar os “episódios inéditos” dos salários atrasados para quem trabalha na área da saúde em Maputo. Basta clicar aqui.

O termo mais usado no Hospital Central de Maputo é muito conhecido também por nós brasileiros: “paliativo”. Foi isso o que um residente do hospital me contou.

“Em muitos casos, temos apenas paliativos a oferecer nesta unidade. Não estamos a solucionar de fato os problemas mais graves. O enfrentamento de algumas patologias estão a ficar por conta desses paliativos, que apenas prolongam um estado clínico favorável e possibilitam uma sobrevida aos pacientes”, me confidenciou o jovem médico, que ainda me pediu que não revelasse o seu nome por medo de retaliações administrativas.

Conforme fui informado por um funcionário do HCM, as maiores causas de morte na unidade hospitalar estão relacionadas à malária, hipertensão e diabetes, mas tendo como fator principal a AIDS.

Insisti com funcionários numa coisa que estava me incomodando. Perguntei a alguns sobre os índices de morte por infecção hospitalar e, ninguém soube precisar.

Unidade de Oncologia

Quem me conhece sabe que minha família enfrentou recentemente um caso de câncer de mama. Graças a Deus, vencemos. Talvez porque tivemos a sorte de realizar o tratamento de minha mãe em um hospital qualificado.

Refletindo sobre isso, quis conhecer um pouco da realidade dos moçambicanos que enfrentam o câncer e fazem seus tratamentos em um hospital público de Maputo. Notícias animadoras por lá? Não, infelizmente.

Pelo que apurei, hoje, são 400 pessoas que fazem o tratamento de câncer na unidade hospitalar. Conversei com pacientes de Maputo e das províncias de Sofala, Gaza e Inhambane.

Muitos fazem as sessões de quimioterapia e radiologia e voltam para casa. Já outros vindos de províncias mais distantes permanecem alojados no hospital.

Nas conversas que tive com esses pacientes o que me chamou a atenção foi a fase de tratamento de quimioterapia. Que eles chamam aqui de “ciclos”.

São seis ciclos para cada paciente, independente do grau que o câncer tenha atingido no organismo. Confesso: achei muito pouco.

A alegação de uma enfermeira da ala de oncologia sobre isso foi de que o tratamento é caro. Meu pragmatismo não me deixou aceitar essa resposta. Culpei de imediato as autoridades moçambicanas. Fui injusto? Tire as suas próprias conclusões.

Como alguém com câncer num estágio evoluído pode se curar com apenas seis sessões de quimioterapia? Lembro-me de conhecer pessoas no Brasil que fizeram 10, 20, 30 sessões para só depois obterem um diagnóstico positivo. Uma triste realidade.

Nas pesquisas que fiz sobre o Hospital fiquei sabendo que o orçamento destinado pela Frelimo ao HCM é algo em torno de 500 milhões de meticais por ano. Aí fiz as contas em dólar e sem me esforçar muito percebi o quanto isso é insignificante, visto a demanda de pacientes e necessidades de estruturação da unidade hospitalar.

Procurei à direção do HCM para falar sobre os assuntos que abordei nesse post, mas ela não quis me receber. Alegou outras urgências. Até compreendi não ser recebido, pois o que vi por lá foi um desespero generalizado de pacientes à espera de atendimento.

O Hospital Central de Maputo já foi considerado no início da década de 80 como um dos melhores da África Austral. Tomara que recupere esse título em breve. Fica a torcida desse brasileiro que vive em Maputo.

Você de Moçambique que me lê gostaria de cobrar mais ações pontuais por parte da FRELIMO? É só clicar no site do Ministério da Saúde e deixar sua reclamação. Pequenas ações como esta podem fazer a diferença.

Clique aqui e veja a lista de outros hospitais em Maputo.

Hambanine e até o próximo post!

A Costa do Lixo

Acúmulo de resíduos e o esgoto derramado nas águas da baía de Maputo tem espantado frequentadores da Praia Costa do Sol

Faltando menos de um mês para Maputo completar seus 125 anos (próximo dia 10 de novembro), a cidade, apesar de suas belezas naturais e arquitetônicas que lhe conferem um certo charme, atualmente sofre com problemas que poderiam ser minimizados por maiores cuidados por parte do poder público local e por uma maior consciência de seus moradores.

A capital de Moçambique, em outros tempos, foi  muito admirada por suas belezas naturais, principalmente por sua praia banhada pelo Índico. Por muito tempo, um dos cartões postais da cidade foi a Praia Costa do Sol. A atual Maputo, no entanto, não tem motivos para se orgulhar com o que tem ocorrido com sua principal praia .

A sujeira tomou conta desse ambiente público, o esgoto invadiu suas águas, e tudo isso tem preocupado inúmeros frequentadores, pescadores e comerciantes locais.

Quem navega pela baía de Maputo e caminha nos arredores da Costa do Sol, vê dezenas de resíduos de vários tipos espalhados no mar e na faixa de areia que corta a praia.

São latinhas de cerveja jogadas no chão, preservativos usados, copos amassados, embalagens plásticas de refrigerante, garrafas de vidro quebradas, além de restos de comida jogados no chão.

Em alguns pontos da praia, o cheiro ruim do lixo tomou conta. As barracas da Av. Marginal tem vendido cada vez menos porque a visitação da praia caiu bruscamente, e o comércio naquele sítio (lugar, como dizem por aqui) tem sentido esses efeitos.

Todo esse lixo vem causando uma série de transtornos para quem ainda insiste em frequentar a praia. Conversando com frequentadores e ambulantes que trabalham na Costa do Sol, fui informado de que há vários relatos de usuários que contraíram doenças de pele como micoses, conjuntivite e verminoses.

A verdade é que a Praia Costa do Sol deixou de ser o cartão postal de Maputo, como foi no passado. A paisagem ainda é linda, mas não de todos os ângulos agora.

O que se vê por lá em determinados pontos é um descaso das autoridades em relação à coleta de lixo e a falta de colaboração dos frequentadores. Essas situações têm espantado muita gente da praia.

Ninguém gosta de frequentar uma praia onde sua areia está repleta de resíduos e a água é imprópria para o banho. E a sujeira e o esgoto derramados na Costa do Sol têm sido os motivos principais para diminuir o número de visitantes, além de  atrapalhar o lazer de vários banhistas, espantar a pesca e ainda prejudicar sensivelmente o comércio local.

Maria Luisa Cossa, 38 anos, vendedora de capulanas na Av. Marginal, explica que a sujeira do lugar tem atrapalhado os seus negócios. “Trabalho aqui há mais de dez anos e nunca vi tanto lixo jogado. Hoje, estar a vender oito ou dez capulanas é raro. E a culpa disso é o lixo que está a se acumular por aqui. Essa sujidade não está a permitir que o turista venha e se ponha a gastar com nossos produtos”, afirmou.

A vendedora ainda falou da falta de cuidados do Conselho Municipal (Prefeitura, como chamam por aqui). “Antes, existia uma parceria da Mcel com o Conselho Municipal para limpar a praia. Mas não sei o que aconteceu e a coisa está a parar. Vejo somente carros do Conselho Municipal a recolher o lixo uma vez por semana. Isso é muito pouco”, declarou.

Já a frequentadora da Costa do Sol, Dércia Antônio, 18 anos, culpa os próprios usuários da praia pela sujeira no local. “Sempre estou nesse sítio com minhas amigas. O se vê aqui são as pessoas que frequentam a Costa do Sol a jogar tudo no chão. Faltam ainda lixeiras na praia”, considerou.

De acordo com ela, a consciência da população é um fator preponderante para evitar o acúmulo de lixo na praia. “Nós é que somos os responsáveis por “deitar” (sic) o lixo no chão. Jogar o lixo em um saco plástico estaria a resolver parte desses problemas. É muito fácil por a culpa no Conselho Municipal, que não está a fazer seu papel de limpeza da praia. Mas uma coisa deve ser dita: não é também o Conselho Municipal a “deitar” (sic) o lixo na areia”, ressaltou.

Segundo a vendedora de peixes da Costa do Sol, Maria Amélia, 37 anos, não há lixeiras suficientes na praia. “Fico aqui a vender peixes diariamente. E o que está a me impressionar é que o Conselho Municipal cruzou os braços. Falta-nos mais contentores de lixo e o que peço sempre aos meus clientes é que joguem seus restos de comida nesta sacola, que sempre trago comigo”, relatou.

Além da questão do lixo, outro aspecto negativo é o esgoto jogado na baía de Maputo.

O pescador Albino Vasco, 35 anos, relata que a sujeira da água tem espantado os peixes. “Mesmo na água encontramos garrafas e vidros quebrados. Se calhar para apanharmos camarão e peixes temos que ir muito longe para conseguir. O camarão foge e não dá para apanhá-los”, disse.

Perguntado se há uma mobilização dos pescadores para exigir do Conselho Municipal uma atitude mais eficaz, o pescador respondeu negativamente. “Estamos a tentar conversar com Conselho Municipal sobre isso. Mas não alcançamos bom resultado. A água está cheia de resíduos do esgoto do Hospital Central e das casas por perto. Um problema muito sério para nós que não estamos a apanhar  peixes como antigamente”, denunciou.

Procurado, o Conselho Municipal de Maputo – CMM, não quis se manifestar sobre o assunto. No entanto, há também notícias animadoras.

Há informações de que a Associação Moçambicana de Reciclagem está recolhendo assinaturas para um memorando que deverá ser entregue às autoridades competentes. O que se quer com isso é exigir a imediata limpeza da praia. Clique aqui para saber mais.

Veja na tabela abaixo o tempo de decomposição de alguns materiais encontrados nas areias da Costa do Sol (Fonte: Ecologia.org).

Material

Tempo

Papel

2 a 4 semanas

Palito de Fósforo 6 meses
Papel plastificado 1 a 5 anos
Casca de banana ou laranja 2 anos
Chiclete 5 anos
Latas 10 anos
Ponta de cigarro 10 a 20 anos
Couro 30 anos
Sacos plásticos 30 a 40 anos
Cordas de nylon 30 a 40 anos
Latas de alumínio 80 a 100 anos

Tecido

100 a 400 anos

Vidro

4.000 anos

Garrafas plásticas e pneus

 

indefinido

Enfim, a limpeza pública de uma praia seja em Moçambique, no Brasil ou em qualquer lugar, cabe a todos. É importante lembrar que os frequentadores da praia (visitantes, banhistas e moradores) são também responsáveis por gerar esses resíduos. Oxalá tenham mais consciência a respeito, e o poder público local não faça vista grossa frente a esses sérios problemas do lixo e do esgoto.

Hambanine e até o próximo post!

Os lobos maus e as chapeuzinhos vermelhos

Saiba mais sobre a realidade de grande parte das adolescentes moçambicanas

Estimativas da Unicef indicam que, no mundo, 70 milhões de mulheres jovens (20-24 anos) casaram-se antes dos 18 anos. Outros 23 milhões casaram-se antes dos 15 anos de idade e cerca de 40 milhões de mulheres casaram-se enquanto crianças.

Com base nesses dados, a Assembleia Geral da ONU, no último 11 de outubro, elegeu esse dia para conscientizar a sociedade acerca da difícil vida das “meninas adolescentes” em todo o mundo.

Com o tema: “Meu futuro é agora, quero estudar, casamento só mais tarde”, a campanha foi amplamente divulgada nas redes sociais e ainda foi fruto de inúmeros ciclos de debate, principalmente nos países africanos.

Quer saber mais sobre essa campanha movida pela ONU? Clique aqui.

Essa campanha me motivou a escrever esse post: percebo, em Moçambique, que esse problema do casamento precoce e abuso sexual infanto-juvenil é crônico.

Além disso, vi uma cena aqui em Maputo que me deixou profundamente indignado. Isso denuncio a seguir, mas vamos primeiro à problemática que apresento para você.

Meninas que se tornam mulheres antes da hora

As relações sexuais precoces privam a menina moçambicana de sua infância, afetam a sua formação educacional, limitam as suas oportunidades, aumentam o risco dela ser vítima de violência e da gravidez precoce, e põem em xeque a sua saúde, com grandes chances de contrair doenças sexualmente transmissíveis ou inclusive ficar exposta ao vírus HIV. Falei o óbvio? Pior que não. Em Moçambique, isso é ainda um tabu.

Segundo a Unicef Moçambique, esses problemas citados constituem alguns dos principais motivos da desistência dessas adolescentes de estudar no país e aumentam, consideravelmente, suas dificuldades futuras na vida.

Clique aqui e conheça a história de uma jovem moçambicana.

O país está entre os Estados que apresentam as maiores taxas do problema no mundo. De acordo com dados da organização, em Moçambique 55% das adolescentes se casam ou engravidam antes dos 18 anos.

Os últimos dados revelam que cerca de 60% das adolescentes moçambicanas que não tiveram acesso à educação, casaram-se antes dos 18 anos, em comparação aos 10% das adolescentes que atualmente estudam no ensino médio e 1% das que fazem algum curso superior.

Quadro diferente de algumas partes do Brasil (principalmente as regiões norte e nordeste do nosso país)? Creio que não, mas é sempre bom tocar na ferida.

As “catorzinhas” de Moçambique e a sedução de menores

O tom de denúncia que ganha esse post vai em função do que presenciei na semana passada.

Por volta das 17h, na véspera de um feriado, enquanto fui a um bar comprar um maço de cigarros e esperava meu troco, vi em um estabelecimento próximo à Av. Vladimir Lenine, em Maputo, quatro adolescentes trajadas com seus uniformes escolares (“blusinhas” brancas e “sainhas” azul marinho) sentadas em uma mesa a tomar sorvete.

Até então, tudo bem, tinha uma com uns 15 anos e outras três que aparentavam ter lá seus 12 ou  13 anos. No entanto, vi um senhor de aproxidamente uns 45 anos sair do banheiro e se reunir com elas. Ele pagou mais sorvete para as menores e deu um presentinho embrulhado num papel brilhante para a mais velha, que apesar de seus 15 aninhos, já era bem desenvolvida com um “corpão de mulher”.

O troco demorava e fiquei ali a observar aquela reunião que achei um pouco suspeita. Depois de uns dois minutos vi, para minha infelicidade, o senhor se sentar perto da guria de 15 anos mais desenvolvida e passar a mão por debaixo da sua saia. E o pior, ela consentiu.

Saí daquele lugar super indignado. Já tinha visto outras cenas semelhantes em Maputo, mas essa foi de cortar a alma. Deu vontade de me aproximar daquele senhor e falar poucas e boas para ele. Não o fiz, mas fica registrado aqui minha revolta.

Quer saber por quê me indignei tanto? Porque, geralmente, às sexta-feiras aqui em Maputo é o dia em que os homens mais velhos (muitos deles casados), vão atrás das  chamadas “catorzinhas” (como eles próprios se referem a elas).

As “catorzinhas” são adolescentes que ainda estão no ensino médio ou fundamental. Já são mulheres fisicamente falando, mas ainda com a personalidade em construção. Presas fáceis para esses “taradões”? Sim, sem dúvida.

É o dia do aliciamento infanto-juvenil e ninguém ou quase ninguém gosta de falar a respeito. A sensação que tenho é a de que todos fazem vista grossa para essa questão. Uma triste realidade.

Abaixo segue uma série de fotos que fiz de adolescentes na Praia Costa do Sol. Vendo-as, pense comigo: você acha que elas merecem isso?

Um lugar em que essa atitude por parte de alguns homens em Maputo é corriqueira é na praia Costa do Sol. Lá é um ótimo ponto para esses aproveitadores pagarem um lanche para essas meninas que estão a voltar para casa saídas das escolas, e que acabam cedendo à sedução desses marmanjos.

Os aliciadores param seus carros na Av. Marginal, na praia Costa do Sol, e convidam essas garotas a dar “uma voltinha” de carro.

Aí já viu  o que acontece né?! E essa questão é a apenas a ponta do iceberg. Muitas dessas adolescentes que aceitam esse tipo de “convite para passear de carro”, se aproveitam disso, fazendo com que a coisa se torne normal aos olhos de todos.

Essas garotas, geralmente, são super pobres, não tem informação em casa e se deixam levar por qualquer presentinho ou até mesmo por um sanduíche.  Conselho Tutelar de Menores para ampará-las? Não, grande parte dessas garotas estão jogadas à própria sorte.

Quando paro para refletir sobre o assunto fico a me perguntar: seria isso somente uma questão cultural? Sobre essa situação penosa enfrentada por essas adolescentes não consigo chegar a conclusões precisas, mas meu pragmatismo não me deixa pensar que seja apenas uma faceta usual do país. É um problema grave e que demanda ações de repressão social em relação a isso.

Vejo, na verdade, uma situação delicada. Há uma enorme corrupção e sedução de menores na sociedade de Moçambique, e muitas dessas gurias que se deixam envolver por homens mais velhos, sequer têm senso crítico para perceber que estão sendo abusadas.

A violência sexual em Moçambique vai de mal a pior porque existe ainda uma grande barreira: a falta de suporte legal para legitimar e tornar eficaz a proteção das adolescentes contra esse tipo de violência no país. Muitas vezes a coisa começa em casa com tios, padrinhos, pais e primos que seduzem essas jovens.

Conversando com o professor do curso de comunicação social da Politécnica sobre o assunto, fiquei sabendo que houve, no mês de março desse ano, um encontro de reflexão sobre essa problemática, que mobilizou diversos atores sociais do país (socidedade civil, ONG’s e Governo). Mas ainda são ações pulverizadas, pelo que fui informado.

“O problema é que ninguém na sociedade de Moçambique gosta de falar a respeito do abuso de homens mais velhos com as raparigas. E ainda há “mamás” que impedem a rapariga de fazer as próprias escolhas de vida. A rapariga é obrigada a ceder aos homens mais velhos por imposição das famílias. Essas jovens não devem apenas  cozinhar, tirar a água, lavar roupa e  se casar. Devem sonhar em progredir”, afirmou o professor que preferi resguardar o nome.

Se pensarmos em termos de ações legais visando à proteção dessas adolescentes a coisa se torna pouco animadora. Para responder o problema, o Comitê das Nações Unidas para os Direitos da Criança, exortou o Governo Moçambicano, em 2009, a conceber estratégias para prevenir a ocorrência sexual nas escolas, organizando programas de âmbito nacional. O Governo nisso tudo? Pouco fez a respeito.

Não há no Código Penal Moçambicano, previsões em lei que punam os homens mais velhos que abusam da inocência de jovens mulheres, e ainda  sanções sobre o casamento e a gravidez precoce.

Creio que no país haja poucos debates em relação à problemática apresentada. Vejo ainda muita passividade da sociedade em relação a essa questão. A falta de informação sobre o assunto nas escolas é um problema grave e há pouco diálogo entre pais e filhos sobre a sexualidade das garotas.

Oxalá esse país tenha mais ações para diminuir os índices de casamento e  gravidez precoces. Essas garotas merecem uma sorte melhor. Tomara que as coisas mudem e comecem por leis mais claras e eficazes contra todos esses abusos que mencionei.

Clique aqui e conheça um pouco da rede integrada de ONG’s de Moçambique, que está preocupada com essa questão e tem mobilizado esforços para efetivar leis mais severas em relação ao abuso sexual infanto-juvenil. Espero que você tenha se indignado comigo. E espero também que a “Associação dos Lobos Maus” daqui não me persiga por esse post!

Abuso da inocência não! Hambanine e até o próximo post!

Dedinho brasileiro na Unicef Moçambique

Saiba mais sobre o trabalho da Instituição e conheça os desafios de uma brasileira a trabalhar em prol da proteção das crianças no país

Em tese, todo país deveria oferecer instrumentos legais e eficazes para a proteção das crianças, que muitas vezes, no decorrer de seu desenvolvimento e crescimento, ficam expostas à criminalidade, à violência por parte dos adultos, ao abuso sexual e à exploração.

Nem preciso mencionar que esses abusos infantis agigantam-se em contornos globais. E na África, talvez essa questão seja ainda mais crônica, com tons cinzentos e obscuros. Aqui a coisa é pesada: em Moçambique, infelizmente, não é diferente.

Pensando nisso, quis trazer para você um pouco do trabalho de uma organização mundial  reconhecida pelo enfrentamento das questões que ferem os direitos das crianças. Fui ao escritório central da Unicef Moçambique. Mas antes de contar o que vi por lá, gostaria de perguntá-lo (a): já ouviu falar ou conhece a Unicef e o trabalho que ela desenvolve?

Quando você pensa nesse nome, “Unicef”, talvez venha à sua cabeça a figura do Didi dos Trapalhões (Renato Aragão), que é Embaixador da organização no Brasil, e também se puxar pela memória, ainda se lembre do Criança Esperança da TV Globo, que acontece uma vez por ano.

Sim, no Brasil, a Unicef fomenta ações voltadas às crianças. Mas essa organização não faz só pelo nosso país, suas atividades vão muito além. Ela atua em vários países e mobiliza ações sociais voltadas às crianças em todo o mundo.

A história da organização começa em 1946, quando foi criada pelas Nações Unidas para ser um mecanismo de auxílio às crianças que ficaram órfãs pela guerra na Europa. Desde então, tem ganhado corpo e vem intermediando conflitos em várias partes do globo, principalmente quando envolvem problemas relacionados à proteção dos direitos da criança e do adolescente.

Na organização trabalham mais de 7.000 pessoas e em Moçambique são cerca de 120 funcionários. O Dr. Roberto de Bernardi, Representante Adjunto da Unicef – Moçambique, explica que no país a organização atua em várias esferas. “Atualmente, trabalhamos com a saúde e nutrição das crianças, trabalhamos para melhorias na água e saneamento das comunidades, temos um olhar para a educação infantil, buscamos implementar instrumentos mais eficazes para a proteção da criança daqui e ainda realizamos parcerias para implementar políticas sociais positivas à população”, ressalta.

A instituição, valendo-se de parcerias internacionais em Moçambique, ainda mobiliza recursos financeiros para conseguir resultados no desenvolvimento infantil,  na educação básica, no combate a AIDS e na promoção de alianças junto ao governo local.

Quer saber mais sobre o trabalho da Unicef em Moçambique? Clique no player abaixo e ouça a entrevista com o representante da organização no país.

Brasil nas fileiras da Unicef 

A Unicef Moçambique conta com mão de obra brasileira em seu escritório em Maputo. Você sabia disso? Tem dedinho brasileiro por lá também.

São atualmente três mulheres que coordenam vários projetos. Conforme informações, elas se revezam trabalhando administrativamente para a Instituição e fazendo trabalhos de campo voltados aos problemas enfrentados pelas crianças no país. Auxiliam também nas áreas jurídica e de comunicação.

Uma delas é a mineira Mariana Muzzi, natural de Mariana/MG. Muzzi é  formada em Direito e em Ciências Políticas. Suas especializações são na área de Direitos Humanos e Saúde Pública, o que a levou a trabalhar na Unicef. Ela atua pela Instituição há nove anos. Começou no Peru e logo foi trabalhar na Bolívia. Depois foi convidada a ajudar no escritório de Nova Iorque e de lá foi trabalhar na Índia.

Após o terrremoto do Haiti, Muzzi se deslocou para aquele país para realizar um trabalho com foco na assistência das crianças que ficaram órfãs pela catástrofe natural ocorrida. Terminados os seus trabalhos no Haiti ela veio para Moçambique, onde está há dois anos militando na área de proteção da criança e combate ao abuso sexual infantil.

Perguntada sobre a eficácia das Leis de Proteção às Crianças em Moçambique, Muzzi foi enfática. “Aqui temos uma lei similar à lei brasileira, o nosso Estatuto da Criança e do Adolescente – o ECA. Enquanto vimos o ECA em nosso país atingir sua maioridade tanto pela data de criação como por uma certa eficácia, as leis moçambicanas voltadas às crianças e adolescentes são ainda muito recentes. Similar ao ECA temos aqui a Lei de Bases de Proteção da Criança,  e a Lei de Organização Tutelar de MenoresMas, infelizmente, essas leis por aqui têm apenas quatro anos e ainda estão em processo de consolidação. Há todo um trabalho que ainda deve ser feito junto ao Governo, à polícia, aos magistrados e juristas do país, para que coloquem de fato em vigor essas leis. E esse é um dos papéis da Unicef e meu trabalho caminha a favor disso. Ou seja, ajudar na consolidação dessas leis de proteção”, ressalta.

Uma semana típica de trabalho de Muzzi pela Unicef inclui muito trabalho de campo, conferências e encontros com representantes do Governo Moçambicano. Segundo a brasileira, a Unicef vem sistematicamente criando ciclos de debates mobilizando sociedade civil, instituições públicas e Governo. Esses encontros têm o objetivo de sensibilizar esses organismos aos problemas enfrentados pelas crianças. “Para você ter uma ideia, essa semana estamos trabalhando junto aos magistrados moçambicanos e dando palestras sobre a importância de se avaliar medidas alternativas para menores que se encontram em conflito com as leis. São muitos desafios até chegarmos ao ponto de dizer que as crianças e adolescentes nesse país são respeitados”, afirma Muzzi.

De acordo com ela, falta formação  e consciência em relação às problemáticas das crianças. “No país há milhares de casos de abuso sexual infantil e desrespeito aos direitos das crianças. Só que esses casos ainda não chegam até a justiça. Então, a gente tem que construir cada pedaço do quebra-cabeças para que as leis de proteção às crianças sejam colocadas em prática. Trabalhamos com formação de vários setores moçambicanos, que vai desde a preocupação com a Medicina Legal no país, campanhas de comunicação junto ao Ministério da Justiça de Moçambique, campanhas em escolas e sensibilização de rádio e TV.  Temos que fazer tudo isso para criar uma estrutura sólida de proteção dos direitos das crianças por aqui”, declara a especialista.

Para além das atividades de conscientização de organismos e instituições moçambicanas, Muzzi destina seu tempo também ao trabalho de base junto às famílias e comunidades. “Vamos até as famílias e escolas para falar sobre a importância de se cuidar melhor das crianças. Temos jogos educativos para crianças e professores, que alertam quanto aos maus tratos infantis e que ensinam o que fazer quando algo ruim acontecer. Firmamos também parcerias com rádios comunitárias e distribuímos conteúdo informativo sobre a questão”, disse.

Perguntei a ela o que vislumbra para o futuro e a eficácia das leis de proteção às crianças e adolescentes no país e, mais uma vez a funcionária da Unicef foi categórica. ”Gosto de trabalhar aqui e temos atingido os resultados esperados. Mas acho que ainda falta uma participação maior da sociedade civil em relação à questão. Vejo ainda pouca mobilização dos segmentos sociais em relação às crianças e aos problemas que envolvem o universo delas. Falta as pessoas se ultrajarem com os maus tratos sofridos pelas crianças. Falta as pessoas não acharem que é normal ver uma menina de treze anos grávida”, ressaltou.

Depois daquela resposta ainda insisti. Você acha que as coisas tendem a melhorar? “Tenho uma sensação de força e esperança. Hoje, vejo uma participação maior das pessoas e um certo movimento para  a melhoria das coisas. E acho que num futuro próximo poderemos dizer que: sim, as crianças daqui vivem com dignidade”, finalizou.

Quer ouvir na íntegra a entrevista com a brasileira? É só clicar no player abaixo.

Em Moçambique, não existem dados nacionais abrangentes sobre os níveis de violência e abuso de crianças, mas fica o alerta. Oxalá esse país cuide melhor de seus “miúdos” (como o moçambicano se refere às crianças por aqui).

Continue acompanhando o blog! Em breve, você vai ver por aqui mais matérias sobre essa temática. Hambanine e até o próximo post!

Educação pré-escolar é uma necessidade

Governo e sociedade civil tentam implantar mecanismos de aprendizagem na primeira infância

Um Estado quebrado com um abismo educacional que começa na tenra idade e vai até o ensino superior.

Uma vontade política quase inexistente e uma aceitação passiva da população. Pouca infraestrutura e escassos investimentos de recursos na área da educação e desenvolvimento humano.

Faltam escolas e faculdades públicas que atendam a demanda da população. E necessita-se, urgentemente, de uma melhor capacitação de profissionais na área de educação para dar conta do recado.

Dito isso, alguém poderia estar pensando que estou falando do Brasil, não? Pois é. Não falo do Brasil, mas bem que poderia ser.

Tão maior ou igual aos problemas enfrentados nas terras tupiniquins, a República de Moçambique também sofre com isso. Essa é a dura realidade enfrentada pelos moçambicanos que, muitas vezes, sequer têm escolas próximas às suas localidades. Infelizmente, o Estado ainda não consegue gerir esses problemas e tomar atitudes potencialmente positivas para beneficiar a população nesse sentido.

Desde a sua independência há 36 anos, Moçambique lida com um gigastesco vazio na área da educação, salvo no início da década de 80, onde o país progrediu educionalmente de uma maneira significativa.

Vislumbra-se um quadro mais promissor num futuro próximo para Moçambique? Alguns professores e profissionais envolvidos com a educação no país dizem que sim, outros afirmam que não.

Controvérsias à parte,  percebo que há algumas iniciativas por parte do Estado e sociedade civil visando alterar esse quadro. Uma “luzinha” no fim do túnel, eu diria. Juntos, esses atores sociais desejam incluir a educação para crianças na fase pré-escolar e ainda fomentar debates sobre uma maior atenção à educação de um modo geral.

Tão importante quanto implementar ferramentas educacionais eficazes para adolescentes e adultos, a educação infantil passa a ser um dos focos do país e um dos maiores objetivos do milênio, de acordo com alguns professores da Politécnica.

Resta saber se essa vontade que se percebe por parte da FRELIMO (Governo Moçambicano) gerará resultados eficazes, principalmente para as crianças. A verdade é que hoje a situação da educação no país é no mínimo, alarmante.

Dados que revelam sérios problemas

De acordo com um relatório divulgado em 2008 pelo Ministério da Mulher e da Ação Social do Governo Moçambicano, o país possuía um milhão de crianças em idade pré-escolar (de 3 a 5 anos).

Acontece que apenas 4% tinha acesso ao ensino pré-escolar. Detalhe: essas estatísticas cabem apenas para as crianças que vivem nas zonas urbanas. As que vivem nas zonas rurais sequer foram mencionadas no relatório. Outra questão importante: quase 50% da população de Moçambique é formada por crianças que vivem em zonas rurais.

Um “estudo de caso” proposto pela Save the Children (um ONG que cuida dos direitos das crianças no mundo), sobre a alfabetização em Moçambique, afirma que apenas 41% das crianças da primeira à terceira classe, ou seja, de 6 a 8 anos, leem de 3 a 5 palavras por minuto e são capazes de escrever o próprio nome.

Uma outra abordagem com foco na educação do pais, com base em estudos desenvolvidos pelo Banco Mundial, datada do ano de 2010, revela que 50% das crianças em idade escolar tinham à época sérios atrasos de habilidades de pensamento crítico e outros 25% delas apresentavam atrasos na comunicação e desenvolvimento motor.

Esses relatórios potencialmente negativos têm deixado tanto sociedade civil como Governo Moçambicano em estado de alerta. E fruto dessa preocupação são as tentativas de se firmar parcerias entre ambos para alterar esse quadro.

O que percebo, pelo menos, é uma vontade de mudança no país. O que considero já ser um indicador que por si só merece ser evidenciado. Pensando nisso, convidei o ativista Judas Massinge, da Save the Children para falar ao “Terras de Moçambique” sobre o assunto.

Quer saber mais sobre o trabalho da Save the Children em Moçambique? Clique aqui.

Plano estratégico a ser implementado

De acordo com o ativista da Instituição, começam a ser firmadas parcerias do Governo Moçambicano com ONG’s de proteção à criança que desejam reverter essa situação negativa. “A futura estratégia irá considerar crianças de 0 a 5 anos e será adaptada de acordo com as condições de cada lugar, com escolinhas comunitárias e centros infantis privados ou do Estado, isto é, esse planejamento deseja ser inclusivo. Acredito que no ano que vem tudo isso estará a crescer”, afirma.

Oxalá seja válida essa iniciativa. No entanto, o Comitê das Nações Unidas para os Direitos Humanos aconselha ao Governo Moçambicano que “aumente o acesso ao desenvolvimento e educação já na primeira infância e mobilize forças para levar uma melhor qualidade de ensino às demais faixas etárias”.

Estejamos atentos. Fica a torcida!

Hambanine e até o próximo post! No seguinte trago para você um pouco do trabalho da Unicef Moçambique.

Catembe e Praia dos Amores

Um passeio de Ferry Boat e uma praia de pescadores

Temperatura: 28°C.

Maputo, 07h30. Acordei inquieto.

Um sol que não me deixava esquecer que estou em África. Fui tomar meu café e fiquei pensando em como aproveitar o sábado. Aquele solzão lá fora merecia ser vivido. Mas o que fazer? Ah, talvez ir a uma praia. Mas qual? Pensei.

A praia de Maputo, segundo o que alguns moçambicanos me disseram, é imprópria para o banho. Salvo algumas pequenas partes da praia Costa do Sol. E então? Não estou afim de entrar em águas poluídas. Mas onde ir? Foram minhas divagações entre um gole de café, um pedaço de pão e um trago no cigarro.

Óculos escuros no rosto e uma “bermudinha de praia” fui pedir auxílio aos universitários do Fátima’s (risos). Depois da consulta (risos) decidi conhecer o Distrito de Catembe, que tem uma praiazinha e fica no outro extremo da baía de Maputo. É pertinho da cidade e dá para ir e voltar no mesmo dia. Pois bem, é para lá que vou.

Catembe

Resolvido o destino, agora era saber como chegar até lá. Saindo da Mao Tsé Tung, onde eu estava hospedado, tomei uma chapa até a parte baixa de Maputo indo direto para o cais.

A ligação entre o Distrito e Maputo é feita por vários barquinhos e também por um Ferry Boat, carinhosamente apelidado de “catembeiro” pela população local. Isso me lembrou o Ferry de Salvador, que vai até Itaparica.

Você pode pegar o Ferry Boat por apenas 5 meticais (na moeda brasileira é algo em torno de R$0,40) em frente ao Ministério das Finanças, na Av. 10 de Novembro. O percurso até Catembe leva cerca de 25 minutos. O “catembeiro” costuma sair durante o dia de meia em meia hora, e o último sai às 23h. Fique ligado (a).

Comprei meu bilhete no cais e fiquei aguardando o Ferry Boat chegar. Não sabia o que me esperava do outro lado da baía de Maputo, mas minhas pernas reclamavam curiosidade.

Entrei no barco com um ventinho cortante no rosto. Por uns dez minutos dentro do Ferry fiquei apreciando a bela vista da capital de Moçambique. Por um outro ângulo, e isso por si só já vale o passeio.

Como é bonita a Maputo vista da sua baía, pensava. Do Ferry Boat, escutei um borborinho de gente e vi muita movimentação de tripulantes. Todo mundo queria ir para as janelas do barco para apreciar a vista. Percebi ainda um horizonte recortado pelos prédios de Maputo a contrastar com as águas calmas da baía. Gaivotas cortando o céu, sol reluzindo e barulho de vento nos ouvidos. Que ótimo, disparava meus pensamentos.

Da janela do barco, respirei fundo pensando ter deixado para trás a urbanidade da capital. E já sentindo um ar diferente, desembarquei.

Veja no vídeo abaixo imagens da travessia de Maputo à Catembe.

Catembe é nice! É assim que muitos moçambicanos se referem ao Distrito e tenho que concordar. No vilarejo, moram muitas pessoas que trabalham na capital. É um lugar pacífico e bem arrumadinho para os padrões moçambicanos.

Chegando ao cais de Catembe pude ver uma ancoadouro “antigasso”, com barcos pegando pacientemente um solzinho. Mais à frente, vi muita aglomeração de vendedores comercializando frutas, comidas, bebidas e cartões de celulares. Do outro lado da rua alguns poucos restaurantes com uma música alta, um postinho de gasolina e várias chapas estacionadas que levam pessoas para o interior daquelas estradinhas de chão batido que eu via.

Caminhando pelo centrinho de Catembe fitei ao longe a cidade de Maputo. Me senti um pouco aliviado por ter deixado o concreto e o transa-transa de carro do outro lado da baía. Tinha sido uma semana cansativa na faculdade. Havia  feito freelas para uma revista local, que foram um pouco desgastantes. E estar ali naquele momento, era tudo que eu queria.

Acho que naquele dia eu estava querendo mesmo era caminhar e assim o fiz. Ao lado do cais tem um extenso areal com uma praiazinha que dá para fazer ótimas caminhadas. Experimentei com prazer pisar naquela areia. Mas ainda me faltava algo. Talvez uma outra praia seguindo aquelas várias estradinhas com carros que levantavam poeira. Me informei com os nativos e tomei outra chapa, agora, para a Praia dos Amores.

Uma praia de pescadores

Meia hora dentro da chapa por uma estrada de terra batida cheguei ao ponto onde deveria descer. É aqui? Perguntei ao motorista. “Sim, boss, siga por esse caminho uns 2km que chegará à Praia dos Amores”. Ok, agradeci contente e fui caminhando por aquelas “machambas” (hortas em changana), vendo poucas casinhas de tijolos, algumas palhoças e uma estradinha de terra salpicada por um capim alto.

Uma caminhadinha rápida e eu já estava numa praia extensa, quase deserta. Linda, com marolinhas brilhando pelo sol que naquela altura já não dava trégua. O dia era de caminhadas e não me esquivei disso. Fiquei ali, a apreciar o Índico e a pisar naquela areia dura.

Ondas não vi, mas estar ali naquele lugar de paz me revigorou. Depois de algum tempo caminhando, passei por pescadores, conversei com nativos e pude deixar as horas voarem junto daquele ventinho gostoso que eu sentia na praia. “A vida é um passeio e uma caminhada pequena, amigo brasileiro: ou aproveitamos bem enquanto podemos ou depois já não dá”. Foi o que ouvi de uma senhorinha que pescava mariscos na Praia dos Amores.

Segui seu conselho, aproveitei meu sábado e retornei à Maputo no fim da tarde por um “catembeiro” que, agora, dá vontade de sempre pegar.

Hambanine e até o próximo post!

Uma jovem voz literária

Conheça a história de um jovem escritor, saiba o que é a poesia de combate e ainda fique por dentro da realidade de quem começa a escrever em Moçambique

Antes mesmo de nos cumprimentarmos e iniciar a entrevista, ele perguntou ainda quando descia de seu carro: “quantos jovens hoje não tem livros em casa? Aqui e no Brasil?” Essa foi a pergunta feita por meu entrevistado assim que pisou à porta do Restaurante Zambézia, na Av. Mao Tse Tung.

Ele já chegou aguçando os meus sentidos, pensei naquele momento. Preferi não responder a pergunta que me surpreendeu. Mas meu silêncio foi reflexivo naquele instante. Passados alguns minutos, objetivei minhas intenções e seguimos sem perceber a rota de uma entrevista tranquila que, para mim, mais pareceu um papo entre amigos de longa data.

Lucílio Manjate é um jovem escritor moçambicano, tem 31 anos e ministra aulas de Literatura Moçambicana e Literatura Geral Comparada pela Universidade Eduardo Mondlane – UEM (maior universidade do país).

Ele aceitou contar um pouco de sua história para o “Terras de Moçambique”, falar sobre a Poesia de Combate tão presente na literatura do país, e ainda traçar um quadro dos desafios de um jovem escritor a caminhar pelas pernas da literatura.

O jovem contista

O seu gosto pela literatura começou ainda criança quando Manjate chegava da escola e se deparava com seu pai sempre a ler. “Para eu passar do meu quarto para a sala de banho (como os moçambicanos nomeiam o “banheiro”), passava na porta do quarto de meu pai e pela porta que sempre ficava aberta, o via a ler livros. Isso para mim, é uma inspiração literária que se consolidou”, confessou o contista.

Contando-me sua história deixou escapar que ver seu pai lendo diariamente o inquietava. “Sempre me perguntava o que meu pai estava a ler no quarto. Até que um dia aproveitei que ele tinha saído para trabalhar e fui lá ter com o fruto de suas leituras. E lá eu descobri “a poesia de combate”. E isso fez toda a diferença em minha formação”, afirmou.

Quando vivia em Matola ele descobriu sua vocação literária. “Um dia estava a tomar banho eu recitei dois versos. Quando me percebi a recitar versos que eram meus, sai em disparada da casa de banho para o quarto. Mal enxuguei pus-me a escrever. Desses dois versos me nasceram cinco poemas. Pronto, pensei. Estás a nascer. Foi assim”, relatou eufórico Manjate.

Ele escreveu três livros e já está no processo de criação da quarta obra. O contista começou a escrever em 1996. No ano de 2005, já com três livros escritos aguardando a hora da publicação, decidiu participar do primeiro concurso literário de sua vida. O primeiro livro foi denominado “Manifesto”, o segundo tem o título de “O silêncio do narrador” e o terceiro foi chamado de “O contador de palavras”.

Já no ano seguinte, em 2006, o contista participou da 6ª edição do concurso da TDM – Telecomunicações de Moçambique de revelações literárias e venceu na modalidade de contos com a obra “Manifesto”. “Ali, naquele momento, foi muito marcante, porque determinou todo o trabalho literário subsequente”, afirmou Manjate.

Em 2008, o jovem escritor participou do “Concurso Literário 10 de novembro” (nessa data comemora-se o aniversário da capital de Moçambique), promovido pelo Conselho Municipal de Maputo em parceria com Associação dos Escritores Moçambicanos. E ele levou o prêmio também na categoria de contos com o livro “ O silêncio do narrador”.

Depois de vencer esses dois concursos, Manjate, já com as portas abertas para o mercado, publicou seu terceiro livro: “O contador de palavras”, por uma editora renomada em Moçambique.

No vídeo abaixo Manjate fala sobre o seu último livro.

Quer conhecer um pouco mais do “Contador de palavras” de Manjate? Clique aqui.

A influência de uma poesia de guerra

Na entrevista com o contista pude descobrir parte de suas referências literárias. Uma nuance interessante de suas referências é a Poesia de Combate produzida pelos combatentes moçambicanos na época da Independência do país. “A magia dessa poesia é o apelo libertador que ela tem. Na própria linguagem textual os versos de combate obrigam que tu imprimas uma voz forte na dicção. E eu comecei lendo os textos em voz alta e sentia-me forte por dentro. Algo me tocava”, confessou.

Não me aguentei e perguntei: se hoje você desponta como um jovem contista e uma expressão interessante da literatura em seu país, foi graças a esse contato com a poesia de combate ainda na sua adolescência? Ele me olhou nos olhos, respirou fundo e disparou um “sem dúvidas”, seco e incisivo.

Soltei mais outra para provocar: você acha que esse é um traço marcante do poeta moçambicano de um modo geral? “Nunca parei para pensar nesse assunto, mas se calhar há um diálogo estético com a poesia de combate. Há um certo culto e respeito por ela e alguns autores banham-se nessas águas históricas”, respondeu.

Quer saber mais sobre a Poesia de Combate? Clique aqui.

Concursos literários X Mercado Editorial

Não é fácil para quem está começando na literatura encontrar patrocínio para editar as suas primeiras obras, disso todos sabemos. Mas quis saber um pouco dessa realidade em Moçambique.

Segundo Manjate, o investimento que se faz à cultura e à educação de uma forma geral é escasso, e um mecanismo facilitador aos escritores são os concursos literários. “Geralmente, os concursos literários são para a revelação de novos talentos. Tenho a impressão de que no ano de 2000 é que temos uma avalanche dos concursos no país. Eu já tinha três livros escritos, mas não conseguia publicar nenhum. Levei inclusive às editoras e o que elas disseram foi que para editar era necessário buscar um patrocínio. E veja a problemática: como é que eu vou buscar um patrocínio se eu sou jovem e não sou conhecido ainda? É muito difícil. Portanto, os concursos literários de alguma forma estão a tapar essa lacuna e a possibilitar que novos taletos surjam”, ressaltou o contista.

Com pouco incentivo por parte do Estado, as empresas privadas passaram a ter um papel fundamental no patrocínio. “Nós estamos a falar de um mercado aberto, competitivo com empresas querendo se impor. Portanto, as grandes empresas tendem a patrocinar os concursos literários ou a edição de obras literárias que são vencedoras na categoria revelação nos concursos aqui em Moçambique”, afirma Manjate.

De acordo com o jovem escritor há também problemas em relação aos concursos literários bancados pelas empresas. “Na maioria das vezes, os concursos preconizam o incentivo ao hábito de leitura, o estímulo à criação artística e rezam que as empresas patrocinadoras do concurso devem pagar a publicação da obra vencedora e disseminar a distribuição do livro. Mas como explicar que uma empresa queira apenas pagar pela publicação e distribuição de 500 exemplares? Isso é muito pouco. Esgota-se isso já em Maputo e o obra não chega a outros cantos do país. As empresas se calhar estão mais preocupadas com a imagem delas e não de fato com a emancipação da leitura ou na divulgação de uma obra vencedora de um concurso”, denunciou Manjate.

De acordo com o contista os concursos são um mecanismo que auxilia quem está começando na literatura, mas ainda é uma retórica vazia para um país do tamanho do Moçambique. “Os concursos, geralmente, são nacionais. O problema talvez fique por conta de escritores de outras regiões fazerem chegar o seu original a Maputo, para que seja avaliado pela comissão julgadora do concurso. Porque nos concursos é exigido a apresentação do texto original. A maioria dos concursos fica muito direcionada à produção literária de autores de Maputo, infelizmente. Salvo no concurso anual do Fundo Nacional do Desenvolvimento Artístico Cultural – Fundac (concurso patrocinado pelo Ministério da Cultura de Moçambique), onde os concorrentes podem entregar os originais nas direções provinciais do concurso, que se encarregam de fazer chegar os originais a Maputo”, elucidou.

Em Moçambique se vive da literatura?

“Não se vive do ponto de vista do escritor. Escrever é quase uma penitência”, afirmou Manjate.

Segundo o contista, o escritor que está começando a carreira literária em seu país fica num segundo plano. “Em Moçambique os autores tem seu espaço de prestígio. Mas para boa parte a literatura ainda é um lugar utópico de debate e de construção de ideias. Para o escritor é uma coisa. Mas do ponto de vista do editor, a coisa muda de figura. Um editor que diz que vai editar o seu livro o faz efetivamente. No entanto, antes, angaria patrocínio para o seu livro junto a uma empresa privada e vende a sua obra pelos olhos da cara. E sabe quanto fica para o criador da obra? Apenas 10% do valor do livro vendido. Salvo em algumas exceções, onde o autor é muito badalado, já publicou várias obras e vai ganhar mais que esses 10% normalmente pagos”, declarou.

Não me segurei e perguntei a opinião sincera do contista sobre a questão. “Acho que o escritor moçambicano já se contentou com isso. Com o autor só ficam os valores simbólicos e sentimentais. Mas esse problema, falo sem medo de errar, não é apenas de Moçambique. Outros países sofrem com isso também”, afirmou Manjate.

O celular dele tocou. Já era hora do contista ir dar suas aulas de literatura. Chegava ao fim a entrevista, mas antes, Manjate finalizou: (…) “o que devemos nos ater é que a literatura em Moçambique é um contínua construção da memória coletiva de nosso país. Está a resgatar a nossa essência, discute-se a identidade, mas não podemos parar por aqui. Devemos ler essa memória aliada aos embates do nosso presente que bem pode ser o sistema opressor que está a degradar-nos pelo consumismo. Hoje o mundo vive para ter, e não para ser. Esse é o caminho de discussão que estou a imprimir em meus contos e faço com muito gosto”, declarou.

Quer saber mais sobre os livros de Manjate e o que ele pensa sobre a literatura em Moçambique? É só clicar no player abaixo.