“Gugu me ajude”

Realidade fantasiosa da “TV Brasileira” ganha cada vez mais força em Moçambique

Quem me conhece, principalmente as pessoas mais próximas, sabem que estou produzindo um documentário com inspiração etnográfica numa imersão na Comunidade Rastafári em Moçambique.

Esse “doc” tem sido feito em parceria com o meu amigo Felipe Nascimento, um estudante brasileiro de História que vive em Maputo há quase três anos, e estuda na Universidade Eduardo Mondlane (maior centro de ensino superior de Moçambique). E na produção desse novo trabalho, eu não poderia deixar de mostrar a você as cenas inéditas que presenciei.

Nas últimas duas semanas, além das gravações e do contato com os Rastas (falarei mais disso por aqui em breve), fomos conhecendo também a comunidade vizinha ao Tabernáculo Rastafári, onde estão sendo filmadas as imagens do documentário.

Desse contato com as famílias, crianças e adolescentes de Intaka, captamos também algumas imagens que renderam pérolas muito interessantes do tipo: influência da TV Brasileira em Moçambique, alguns retratos sociais do país, a identidade moçambicana e a cultura africana de um modo geral.

Abaixo seguem dois vídeos que considero muito bacanas. No primeiro apresento para você a adolescente Flávia, que sonha em ser modelo e pede ao  “Programa do Gugu” para ajudar a sua família. Além disso, na conversa despretensiosa do vídeo, fica claro o carinho que os moçambicanos têm com o Brasil.

Seriam as novelas e programas brasileiros que chegam aqui ou a língua portuguesa que nos une responsáveis por essa admiração? Responda por si mesmo (a). A realidade fantasiosa mostrada pelas novelas são boas para o moçambicano? Deixo essas perguntas no ar.

Já no segundo vídeo, Flávia e sua amiga Asule, de maneira simples, mostram a influência das novelas brasileiras por aqui, falam um pouco da identidade cultural da mulher moçambicana e ainda mandam beijinhos para o Brasil. Um vídeo super despretensioso, mas que trouxe um pouquinho da África que “fala português” que agora, você passa a conhecer. Espero que goste!

Os vídeos foram feitos de maneira espontânea. Não houve edições e esse foi o objetivo. Aconteceu como tinha que ser e não poderia deixar de mostrar para você que tem acompanhado o “Terras de Moçambique”.

De forma clara, os dois vídeos desnudam alguns retratos sociais do país e talvez, quem sabe, denuncie também de maneira simples à realidade fantasiosa das novelas brasileiras, que ganham cada vez mais força na vida dos moçambicanos. Fica então, o convite para se pensar sobre.

 

Hambanine e até o próximo post!

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Hospital pede socorro

Maior unidade hospitalar de Maputo sofre com o desleixo por parte das autoridades 

Os problemas das unidades hospitares de referência nos grandes centros urbanos são crônicos e principalmente, globais. Quase nenhum país escapa. E em Moçambique, não é diferente. A população sofre com o descaso das autoridades.

Pensando nisso, visitei o Hospital Central de Maputo (HCM), considerado a maior unidade hospitalar da capital e referência do país.

Creio que se há problema, o nosso papel (e aqui me coloco como estudante de jornalismo e pequeno operador da comunicação) é mostrar a realidade. Vejo a mídia falar um milhão de coisas, menos o essencial.

Isso dói e aqui faço valer antes de tudo minha cidadania. Ser um estrangeiro vivendo em Moçambique não tapa os meus olhos aos descasos do poder público local em relação à saúde no país. Dito isso, vamos ao que vi na unidade hospitalar.

O que vi lá é diferente do que percebemos nos hospitais brasileiros? Não, é igualzinho. Mas foi de arrepiar os cabelos. Saiba disso.

Situações penosas

O Hospital Central de Maputo não consegue responder de fato às demandas dos usuários do sistema de saúde moçambicano. É aquela coisa que (infelizmente) estamos acostumados a ver: a demora no atendimento, as longas filas, a falta de remédios e a insuficiência de um corpo clínico adequado.

Leitos? Que leitos? Nos três dias que visitei o hospital e por todos os departamentos que passei, vi todos os leitos superlotados e centenas pacientes agonizando em filas à espera de um atendimento. Triste realidade.

Doentes internados no chão e outros tantos misturados em cima de colchões. Detalhe: todos com patologias diferentes. O que pode acontecer? Qualquer mente minimamente capaz, sabe que isso não é um procedimento normal, visto que a imunidade desses pacientes pode estar baixa e o contato direto com outras patologias podem agravar seus estados clínicos.

Clique aqui e saiba sobre a realidade dos pacientes.

Conforme me informou uma enfermeira que preferi resguardar o nome, é comum pacientes de tuberculose, por exemplo, ficarem internados no mesmo recinto com pacientes com ferimentos abertos à espera de atendimento.

O índice de contato viral e doenças hospitalares na maior unidade de saúde de Moçambique é alto? Não saberei responder. Pois até mesmo os órgãos especializados não têm esses dados. Não há estatísticas claras sobre o assunto e os números de pacientes que morrem com infecções hospitalares só Deus sabe.

A verdade é que os serviços não suportam a demanda, e se tiver um leito vago, o paciente vai ficar ali mesmo, independente do quadro clínico que apresenta no momento da sua internação. É a única fórmula que se encontra para atender as urgências em Maputo.

Quer um diagnóstico dos problemas enfrentados? Clique aqui.

Paliativos médicos

Os médicos nisso tudo? Ah, são verdadeiros leões. Há que se reverenciar esses profissionais que fazem de tudo (com condições mínimas de trabalho) para ajudar os pacientes.

Uma novela antiga que todos nós já conhecemos, não? O serviço é árduo, não há estrutura para o trabalho e os profissionais ainda são mal remunerados.

Você gosta de novelas? Eu particularmente não gosto. Mas se você curte ação, drama e suspense, talvez queira acompanhar os “episódios inéditos” dos salários atrasados para quem trabalha na área da saúde em Maputo. Basta clicar aqui.

O termo mais usado no Hospital Central de Maputo é muito conhecido também por nós brasileiros: “paliativo”. Foi isso o que um residente do hospital me contou.

“Em muitos casos, temos apenas paliativos a oferecer nesta unidade. Não estamos a solucionar de fato os problemas mais graves. O enfrentamento de algumas patologias estão a ficar por conta desses paliativos, que apenas prolongam um estado clínico favorável e possibilitam uma sobrevida aos pacientes”, me confidenciou o jovem médico, que ainda me pediu que não revelasse o seu nome por medo de retaliações administrativas.

Conforme fui informado por um funcionário do HCM, as maiores causas de morte na unidade hospitalar estão relacionadas à malária, hipertensão e diabetes, mas tendo como fator principal a AIDS.

Insisti com funcionários numa coisa que estava me incomodando. Perguntei a alguns sobre os índices de morte por infecção hospitalar e, ninguém soube precisar.

Unidade de Oncologia

Quem me conhece sabe que minha família enfrentou recentemente um caso de câncer de mama. Graças a Deus, vencemos. Talvez porque tivemos a sorte de realizar o tratamento de minha mãe em um hospital qualificado.

Refletindo sobre isso, quis conhecer um pouco da realidade dos moçambicanos que enfrentam o câncer e fazem seus tratamentos em um hospital público de Maputo. Notícias animadoras por lá? Não, infelizmente.

Pelo que apurei, hoje, são 400 pessoas que fazem o tratamento de câncer na unidade hospitalar. Conversei com pacientes de Maputo e das províncias de Sofala, Gaza e Inhambane.

Muitos fazem as sessões de quimioterapia e radiologia e voltam para casa. Já outros vindos de províncias mais distantes permanecem alojados no hospital.

Nas conversas que tive com esses pacientes o que me chamou a atenção foi a fase de tratamento de quimioterapia. Que eles chamam aqui de “ciclos”.

São seis ciclos para cada paciente, independente do grau que o câncer tenha atingido no organismo. Confesso: achei muito pouco.

A alegação de uma enfermeira da ala de oncologia sobre isso foi de que o tratamento é caro. Meu pragmatismo não me deixou aceitar essa resposta. Culpei de imediato as autoridades moçambicanas. Fui injusto? Tire as suas próprias conclusões.

Como alguém com câncer num estágio evoluído pode se curar com apenas seis sessões de quimioterapia? Lembro-me de conhecer pessoas no Brasil que fizeram 10, 20, 30 sessões para só depois obterem um diagnóstico positivo. Uma triste realidade.

Nas pesquisas que fiz sobre o Hospital fiquei sabendo que o orçamento destinado pela Frelimo ao HCM é algo em torno de 500 milhões de meticais por ano. Aí fiz as contas em dólar e sem me esforçar muito percebi o quanto isso é insignificante, visto a demanda de pacientes e necessidades de estruturação da unidade hospitalar.

Procurei à direção do HCM para falar sobre os assuntos que abordei nesse post, mas ela não quis me receber. Alegou outras urgências. Até compreendi não ser recebido, pois o que vi por lá foi um desespero generalizado de pacientes à espera de atendimento.

O Hospital Central de Maputo já foi considerado no início da década de 80 como um dos melhores da África Austral. Tomara que recupere esse título em breve. Fica a torcida desse brasileiro que vive em Maputo.

Você de Moçambique que me lê gostaria de cobrar mais ações pontuais por parte da FRELIMO? É só clicar no site do Ministério da Saúde e deixar sua reclamação. Pequenas ações como esta podem fazer a diferença.

Clique aqui e veja a lista de outros hospitais em Maputo.

Hambanine e até o próximo post!

Dedinho brasileiro na Unicef Moçambique

Saiba mais sobre o trabalho da Instituição e conheça os desafios de uma brasileira a trabalhar em prol da proteção das crianças no país

Em tese, todo país deveria oferecer instrumentos legais e eficazes para a proteção das crianças, que muitas vezes, no decorrer de seu desenvolvimento e crescimento, ficam expostas à criminalidade, à violência por parte dos adultos, ao abuso sexual e à exploração.

Nem preciso mencionar que esses abusos infantis agigantam-se em contornos globais. E na África, talvez essa questão seja ainda mais crônica, com tons cinzentos e obscuros. Aqui a coisa é pesada: em Moçambique, infelizmente, não é diferente.

Pensando nisso, quis trazer para você um pouco do trabalho de uma organização mundial  reconhecida pelo enfrentamento das questões que ferem os direitos das crianças. Fui ao escritório central da Unicef Moçambique. Mas antes de contar o que vi por lá, gostaria de perguntá-lo (a): já ouviu falar ou conhece a Unicef e o trabalho que ela desenvolve?

Quando você pensa nesse nome, “Unicef”, talvez venha à sua cabeça a figura do Didi dos Trapalhões (Renato Aragão), que é Embaixador da organização no Brasil, e também se puxar pela memória, ainda se lembre do Criança Esperança da TV Globo, que acontece uma vez por ano.

Sim, no Brasil, a Unicef fomenta ações voltadas às crianças. Mas essa organização não faz só pelo nosso país, suas atividades vão muito além. Ela atua em vários países e mobiliza ações sociais voltadas às crianças em todo o mundo.

A história da organização começa em 1946, quando foi criada pelas Nações Unidas para ser um mecanismo de auxílio às crianças que ficaram órfãs pela guerra na Europa. Desde então, tem ganhado corpo e vem intermediando conflitos em várias partes do globo, principalmente quando envolvem problemas relacionados à proteção dos direitos da criança e do adolescente.

Na organização trabalham mais de 7.000 pessoas e em Moçambique são cerca de 120 funcionários. O Dr. Roberto de Bernardi, Representante Adjunto da Unicef – Moçambique, explica que no país a organização atua em várias esferas. “Atualmente, trabalhamos com a saúde e nutrição das crianças, trabalhamos para melhorias na água e saneamento das comunidades, temos um olhar para a educação infantil, buscamos implementar instrumentos mais eficazes para a proteção da criança daqui e ainda realizamos parcerias para implementar políticas sociais positivas à população”, ressalta.

A instituição, valendo-se de parcerias internacionais em Moçambique, ainda mobiliza recursos financeiros para conseguir resultados no desenvolvimento infantil,  na educação básica, no combate a AIDS e na promoção de alianças junto ao governo local.

Quer saber mais sobre o trabalho da Unicef em Moçambique? Clique no player abaixo e ouça a entrevista com o representante da organização no país.

Brasil nas fileiras da Unicef 

A Unicef Moçambique conta com mão de obra brasileira em seu escritório em Maputo. Você sabia disso? Tem dedinho brasileiro por lá também.

São atualmente três mulheres que coordenam vários projetos. Conforme informações, elas se revezam trabalhando administrativamente para a Instituição e fazendo trabalhos de campo voltados aos problemas enfrentados pelas crianças no país. Auxiliam também nas áreas jurídica e de comunicação.

Uma delas é a mineira Mariana Muzzi, natural de Mariana/MG. Muzzi é  formada em Direito e em Ciências Políticas. Suas especializações são na área de Direitos Humanos e Saúde Pública, o que a levou a trabalhar na Unicef. Ela atua pela Instituição há nove anos. Começou no Peru e logo foi trabalhar na Bolívia. Depois foi convidada a ajudar no escritório de Nova Iorque e de lá foi trabalhar na Índia.

Após o terrremoto do Haiti, Muzzi se deslocou para aquele país para realizar um trabalho com foco na assistência das crianças que ficaram órfãs pela catástrofe natural ocorrida. Terminados os seus trabalhos no Haiti ela veio para Moçambique, onde está há dois anos militando na área de proteção da criança e combate ao abuso sexual infantil.

Perguntada sobre a eficácia das Leis de Proteção às Crianças em Moçambique, Muzzi foi enfática. “Aqui temos uma lei similar à lei brasileira, o nosso Estatuto da Criança e do Adolescente – o ECA. Enquanto vimos o ECA em nosso país atingir sua maioridade tanto pela data de criação como por uma certa eficácia, as leis moçambicanas voltadas às crianças e adolescentes são ainda muito recentes. Similar ao ECA temos aqui a Lei de Bases de Proteção da Criança,  e a Lei de Organização Tutelar de MenoresMas, infelizmente, essas leis por aqui têm apenas quatro anos e ainda estão em processo de consolidação. Há todo um trabalho que ainda deve ser feito junto ao Governo, à polícia, aos magistrados e juristas do país, para que coloquem de fato em vigor essas leis. E esse é um dos papéis da Unicef e meu trabalho caminha a favor disso. Ou seja, ajudar na consolidação dessas leis de proteção”, ressalta.

Uma semana típica de trabalho de Muzzi pela Unicef inclui muito trabalho de campo, conferências e encontros com representantes do Governo Moçambicano. Segundo a brasileira, a Unicef vem sistematicamente criando ciclos de debates mobilizando sociedade civil, instituições públicas e Governo. Esses encontros têm o objetivo de sensibilizar esses organismos aos problemas enfrentados pelas crianças. “Para você ter uma ideia, essa semana estamos trabalhando junto aos magistrados moçambicanos e dando palestras sobre a importância de se avaliar medidas alternativas para menores que se encontram em conflito com as leis. São muitos desafios até chegarmos ao ponto de dizer que as crianças e adolescentes nesse país são respeitados”, afirma Muzzi.

De acordo com ela, falta formação  e consciência em relação às problemáticas das crianças. “No país há milhares de casos de abuso sexual infantil e desrespeito aos direitos das crianças. Só que esses casos ainda não chegam até a justiça. Então, a gente tem que construir cada pedaço do quebra-cabeças para que as leis de proteção às crianças sejam colocadas em prática. Trabalhamos com formação de vários setores moçambicanos, que vai desde a preocupação com a Medicina Legal no país, campanhas de comunicação junto ao Ministério da Justiça de Moçambique, campanhas em escolas e sensibilização de rádio e TV.  Temos que fazer tudo isso para criar uma estrutura sólida de proteção dos direitos das crianças por aqui”, declara a especialista.

Para além das atividades de conscientização de organismos e instituições moçambicanas, Muzzi destina seu tempo também ao trabalho de base junto às famílias e comunidades. “Vamos até as famílias e escolas para falar sobre a importância de se cuidar melhor das crianças. Temos jogos educativos para crianças e professores, que alertam quanto aos maus tratos infantis e que ensinam o que fazer quando algo ruim acontecer. Firmamos também parcerias com rádios comunitárias e distribuímos conteúdo informativo sobre a questão”, disse.

Perguntei a ela o que vislumbra para o futuro e a eficácia das leis de proteção às crianças e adolescentes no país e, mais uma vez a funcionária da Unicef foi categórica. ”Gosto de trabalhar aqui e temos atingido os resultados esperados. Mas acho que ainda falta uma participação maior da sociedade civil em relação à questão. Vejo ainda pouca mobilização dos segmentos sociais em relação às crianças e aos problemas que envolvem o universo delas. Falta as pessoas se ultrajarem com os maus tratos sofridos pelas crianças. Falta as pessoas não acharem que é normal ver uma menina de treze anos grávida”, ressaltou.

Depois daquela resposta ainda insisti. Você acha que as coisas tendem a melhorar? “Tenho uma sensação de força e esperança. Hoje, vejo uma participação maior das pessoas e um certo movimento para  a melhoria das coisas. E acho que num futuro próximo poderemos dizer que: sim, as crianças daqui vivem com dignidade”, finalizou.

Quer ouvir na íntegra a entrevista com a brasileira? É só clicar no player abaixo.

Em Moçambique, não existem dados nacionais abrangentes sobre os níveis de violência e abuso de crianças, mas fica o alerta. Oxalá esse país cuide melhor de seus “miúdos” (como o moçambicano se refere às crianças por aqui).

Continue acompanhando o blog! Em breve, você vai ver por aqui mais matérias sobre essa temática. Hambanine e até o próximo post!

Nyau e a mbira

Conheça uma dança típica de Moçambique e um instrumento originário da África Austral

 “O nyau é uma dança um pouco difícil para as pessoas entrarem. Porque antes de entrar as pessoas tem que decidir se desejam o Nyau realmente. Lá tem que cumprir tudo que vão lhe dizer. Para sair da dança não é fácil. Depois dos primeiros ensinamentos você deve segui-los à risca. Não é uma dança, por exemplo, que você pode dançar uma  vez por ano. Não, você deve entrar para o Nyau e dançá-lo para toda a vida. Entrou…entrou, estás a ver”?

(Maneto C.Tefula – dançador de Nyau)

Há, em Moçambique, uma grande diversidade cultural. Cada província (estado) tem o seu aspecto próprio. Assim como no Brasil, as províncias aqui têm suas crenças e seus modos particulares de falar e se expressar culturalmente.

Como em nosso país, as manifestações culturais em Moçambique são bastante diversificadas. Partem da dança tradicional e contemporânea, das obras no artesanato e pintura, da execução teatral, da sonoridade dos instrumentos tracionais típicos, da poesia,  e vão até os ritmos essencialmente moçambicanos.

A efervescência cultural aqui me impressiona e é tudo muito intenso, o que mostra esse traço marcante do moçambicano: o talento natural para a arte.

Maneto C. Tefula

Em Maputo, encontramos toda essa diversidade reunida, pois vivem aqui milhares de moçambicanos de outras regiões do país. Nas minhas andanças pela capital, fiz um amigo moçambicano que me levou até um dançarino Nyau, da província de Tete que, agora, apresento para você.

O nome dele é Maneto Cafmo Tefula, tem 32 anos e é natural de Tete, capital da província de mesmo nome.  O artista é casado, tem dois filhos e vive no bairro de Mapanine C em Maputo. O convidei a falar para o “Terras de Moçambique” e ele aceitou de bom grado. Nesse post ele apresenta a dança típica de sua região e fala de um instrumento muito interessante. Está curioso (a) para saber mais? Então, vamos lá.

Um patrimônio oral da humanidade

O dançarino de Nyau foi iniciado na dança tradicional moçambicana ainda pequeno. “Desde criança respiro o mundo da cultura na minha povoação que é Tete. Meu falecido pai era criador de gados e no pasto mesmo iniciamos as danças de nossos antepassados. Meu pai e um empregado ensinaram a mim e aos meus irmãos a dançar o Nyau, além de nos incentivar a tocar alguns instrumentos tradicionais”, afirma Tefula.

Na entrevista com Tefula fui percebendo essa tradição histórica e cultural da província de Tete.  A Nyau que você está conhecendo foi declarada pela UNESCO, em 2005, obra prima do patrimônio oral e imaterial da humanidade. Bacana, não?

A origem da dança, segundo o historiador Fernando Dava, está associada à tradição oral do povo de Tete e se reporta a origem do Estado Undi que existia naquele território no século XVII . Na gênese da dança, o historiador sugere que “era uma forma de manifestação do poderio do Estado Undi sobre os povos conquistados”.

A história do Nyau tem sua estruturação dentro de Moçambique, ainda que seja também executada por países vizinhos. “O Nyau é praticado em Moçambique, no Malawi e em Zâmbia. Isso é porque a fronteira faz com que as povoações daqui imitem os ritos de outros países. Mas concretamente, o Nyau é uma manifestação cultural de Moçambique. São danças que se faziam antigamente mesmo. Muito antes da guerra contra os colonos, ainda no mato não se perdia a tradição. Em Tete a dança é praticada no distrito de Angônia, distrito de Changara e no distrito de Marávia, já fronteira com o Malawi”, disse Tefula.

Assista ao vídeo onde o dançarino se apresenta.

Os passos dos bailarinos são acelerados pelo ritmo de tambores. Outro aspecto interessante é que os dançadores usam coisas do dia a dia para se enfeitarem e os movimentos são bastante fortes.  “Quando se faz a dança da Nyau os outros membros devem tocar o chocalho e estarem fardados. Quem entra no Nyau tem que correr e gingar. Naquele momento você tem poder. São muitos movimentos enquanto se está a dançar. É mágica”, afirma o nyau Tefula.

Alguns usam fibras de cipós e penas de pássaros. Outros exibem máscaras de animais e de pessoas. A maioria pinta o corpo com argila e nas pernas usam chocalhos que contribuem para o belo visual que caracteriza a dança. “A roupa é geralmente feita de cipó e palha. Cortam-se as folhas, amassamos na pedra e depois das fibras finas, tecemos o fio para colocar no corpo, geralmente, na cintura, nos pés e no joelho”, comenta Tefula.

Conforme contou o bailarino, para entrar na dança Nyau é necessária uma ritualística. “Antigamente, para se iniciar eles batiam na gente com uma vara até sangrar. Só assim você estaria pronto para o Nyau. Primeiro tem que sofrer as consequências do “segredo Nyau” para você não divulgá-lo. Você fica estatelado e só depois de curado é que se torna um Nyau”, afirma.

Para além da máscara e fardamento que você viu no vídeo, a dança é conhecida como a “dança dos mistérios”. E uma característica marcante  é que é executada somente por homens.  “A dança Nyau é secreta e normalmente é praticada à noite. Quando os dançarinos aparecem no palco não vêm todos de uma vez. Cada dançarino não sabe quem é o outro companheiro que está ao lado na dança, porque a máscara e roupas usadas escondem tudo. É como se fosse um segredo”, declara Tefula.

Há alguns ritos interessantes em relação às indumentárias da dança. “Normalmente o uniforme de Nyau não se guarda em casa de alguém. Os uniformes e máscara são escondidos no cemitério tradicional da família junto aos antepassados. Lá é um sítio que ninguém entra de qualquer maneira. Lá só pisam quando estão a enterrar alguém e para pegar as roupas da dança”, relata o dançarino.

Segredos revelados ou não por Tefula, resolvi perguntar a ele se essa dança evocam os antepassados.  E ele respondeu sem pestanejar. “Nessa dança não evocam os espíritos, apenas remoramos os nossos familiares que já se foram. Só a dança mafue e o malombo evocam os antepassados e espíritos. No nyau apenas a pessoa coloca o uniforme para não ser reconhecida”, disse.

O que percebi ao final da entrevista foi o quanto essa dança é importante para Tefula.  “Lá em Tete muitos que dançam Nyau são respeitados pela família. Eu gosto de executar o Nyau. Isso é parte de mim. Deixarei de executar quando eu me despedir dessa terra. Enquanto meu corpo aguentar quero dançá-la. Eu a executo com toda vontade e força. Daqui a alguns anos não terei força para executá-la, mas hei de ensinar os que vem depois. Orgulho-me por ser uma dança de Tete”, comentou um pouco emocionado o dançarino.

Abaixo segue um fragmento que extraí do site Uai Africa que enaltece o valor dessa dança. Confira:

“O Nyau ou “Gule Wankulo” é uma dança exótica milenar praticada por homens das comunidades situadas ao norte do rio Zambeze e adquire conotações diferentes de acordo com a ocasião em que é praticada, se em rituais de iniciação masculina, cerimônias fúnebres ou por puro entretenimento. Nyau significa o próprio dançarino, quando já paramentado por suas vestimentas e adornos e “Gule Wankulo”, “a grande dança”.

Sua origem está associada ao surgimento do Estado Undi em meados do século XVII – essa manifestação popular de elevadíssimo valor cultural corre risco de extinção e é ameaçada pelo progresso do mundo globalizado avançando sobre terras africanas, pela educação formal cada vez mais substituindo a tradicional limitando a transmissão do conhecimento da dança entre as gerações, assim como pela constante migração do homem do campo para a cidade e entradas culturais do mundo globalizado nas culturas tradicionais.

Reconhecida toda a sua relevância como meio de integração social e ajustamento dos comportamentos individuais do sujeito às suas raízes, a UNESCO, em novembro de 2005 reconheceu a dança como “Obra-Prima do Patrimônio Oral e Intangível da Humanidade” e desde então ingressou na lista das 90 obras protegidas pelas nações unidas.”

Instrumento curioso

Na entrevista com o dançarino Nyau, conheci também um instrumento singular da África Austral com um som tranquilo e harmonioso. E claro, eu não poderia deixar de dividir isso. Você conhece a Mbira? Clique no video abaixo e curta o som.

Mbira

Não se sabe ao certo onde surgiu esse instrumento tradicional, pelo que percebi. No entanto, muitos moçambicanos dizem que foram eles que criaram a “mbira”. “Os nomes que damos a ele lá em Tete é insanse, calimba e xitata. Há muita gente que não sabe a sua real origem. Há pessoas que dizem que é de Moçambique e tem outras quem falam que é do Zimbábue”, comenta o dançarino e tocador de “mbira”.

De acordo com ele, a proximidade de Tete com o Zimbábue e a forma de  colonização podem ter gerado essa dúvida. “Como Tete faz fronteira com o Zimbábue, os nossos antepassados que iam para o país vizinho a procura de trabalho levaram o instrumento para lá”, afirma.

Tefula esclarece ainda que “o  Zimbábue foi colonizado por ingleses que conseguiram assimilar melhor a cultura dos povos de lá. Eles valorizaram mais a “mbira” tocada naquelas terras e se puseram a disseminar o instrumento como se fosse do Zimbábue. Só que isso é um erro. Na verdade, a “mbira” é um instrumento de Tete. Muitos países de África pensam que esse instrumento é de origem do Zimbábue, mas no fundo no fundo, é de origem moçambicana”.

A “mbira” é como se fosse uma placa de som ligada numa cabaça de madeira que faz um som mais acústico. Vulgarmente, seria um pequeno piano para ser tocado basicamente com os polegares.  A caixa de som de madeira, geralmente em formato de abóbora, faz ressoar o som das ligas de metal do instrumento. “Para fazer uma mbira são tecidas placas metálicas na forma de teclas de piano e se colocam dentro de uma cabaça ao redor para o som ficar mais evidente”, afirma.

Segundo Tefula, a mbira em Tete tem algumas particularidades. “Na minha região esse instrumento chama-se “mbira nhonga-nhonga” que é um nome do Zimbábue e tem 15 teclas. Mas a primeira mbira moçambicana levada para o Zimbábue fazia-se com 14 teclas. Aos poucos o instrumento foi evoluindo no Zimbábue e hoje já se faz esse instrumento com 16, 21 e até 32 teclas. A “calimba”, um tipo de “mbira” por exemplo, leva 32 teclas. As “mbiras” com mais teclas são diferentes na forma de executar, com mais teclas toca-se diferente. O que faz a diferenças das “mbiras” tocadas aqui ou no Zimbábue é a quantidade de teclas”, declara.

Espero que tenha gostado. Hambanine e até o próximo post!

Fontes de pesquisa para esta matéria:

Uai África

Giselda Costa – Dança Nyau

Museu da Música

Music Edu