A Costa do Lixo

Acúmulo de resíduos e o esgoto derramado nas águas da baía de Maputo tem espantado frequentadores da Praia Costa do Sol

Faltando menos de um mês para Maputo completar seus 125 anos (próximo dia 10 de novembro), a cidade, apesar de suas belezas naturais e arquitetônicas que lhe conferem um certo charme, atualmente sofre com problemas que poderiam ser minimizados por maiores cuidados por parte do poder público local e por uma maior consciência de seus moradores.

A capital de Moçambique, em outros tempos, foi  muito admirada por suas belezas naturais, principalmente por sua praia banhada pelo Índico. Por muito tempo, um dos cartões postais da cidade foi a Praia Costa do Sol. A atual Maputo, no entanto, não tem motivos para se orgulhar com o que tem ocorrido com sua principal praia .

A sujeira tomou conta desse ambiente público, o esgoto invadiu suas águas, e tudo isso tem preocupado inúmeros frequentadores, pescadores e comerciantes locais.

Quem navega pela baía de Maputo e caminha nos arredores da Costa do Sol, vê dezenas de resíduos de vários tipos espalhados no mar e na faixa de areia que corta a praia.

São latinhas de cerveja jogadas no chão, preservativos usados, copos amassados, embalagens plásticas de refrigerante, garrafas de vidro quebradas, além de restos de comida jogados no chão.

Em alguns pontos da praia, o cheiro ruim do lixo tomou conta. As barracas da Av. Marginal tem vendido cada vez menos porque a visitação da praia caiu bruscamente, e o comércio naquele sítio (lugar, como dizem por aqui) tem sentido esses efeitos.

Todo esse lixo vem causando uma série de transtornos para quem ainda insiste em frequentar a praia. Conversando com frequentadores e ambulantes que trabalham na Costa do Sol, fui informado de que há vários relatos de usuários que contraíram doenças de pele como micoses, conjuntivite e verminoses.

A verdade é que a Praia Costa do Sol deixou de ser o cartão postal de Maputo, como foi no passado. A paisagem ainda é linda, mas não de todos os ângulos agora.

O que se vê por lá em determinados pontos é um descaso das autoridades em relação à coleta de lixo e a falta de colaboração dos frequentadores. Essas situações têm espantado muita gente da praia.

Ninguém gosta de frequentar uma praia onde sua areia está repleta de resíduos e a água é imprópria para o banho. E a sujeira e o esgoto derramados na Costa do Sol têm sido os motivos principais para diminuir o número de visitantes, além de  atrapalhar o lazer de vários banhistas, espantar a pesca e ainda prejudicar sensivelmente o comércio local.

Maria Luisa Cossa, 38 anos, vendedora de capulanas na Av. Marginal, explica que a sujeira do lugar tem atrapalhado os seus negócios. “Trabalho aqui há mais de dez anos e nunca vi tanto lixo jogado. Hoje, estar a vender oito ou dez capulanas é raro. E a culpa disso é o lixo que está a se acumular por aqui. Essa sujidade não está a permitir que o turista venha e se ponha a gastar com nossos produtos”, afirmou.

A vendedora ainda falou da falta de cuidados do Conselho Municipal (Prefeitura, como chamam por aqui). “Antes, existia uma parceria da Mcel com o Conselho Municipal para limpar a praia. Mas não sei o que aconteceu e a coisa está a parar. Vejo somente carros do Conselho Municipal a recolher o lixo uma vez por semana. Isso é muito pouco”, declarou.

Já a frequentadora da Costa do Sol, Dércia Antônio, 18 anos, culpa os próprios usuários da praia pela sujeira no local. “Sempre estou nesse sítio com minhas amigas. O se vê aqui são as pessoas que frequentam a Costa do Sol a jogar tudo no chão. Faltam ainda lixeiras na praia”, considerou.

De acordo com ela, a consciência da população é um fator preponderante para evitar o acúmulo de lixo na praia. “Nós é que somos os responsáveis por “deitar” (sic) o lixo no chão. Jogar o lixo em um saco plástico estaria a resolver parte desses problemas. É muito fácil por a culpa no Conselho Municipal, que não está a fazer seu papel de limpeza da praia. Mas uma coisa deve ser dita: não é também o Conselho Municipal a “deitar” (sic) o lixo na areia”, ressaltou.

Segundo a vendedora de peixes da Costa do Sol, Maria Amélia, 37 anos, não há lixeiras suficientes na praia. “Fico aqui a vender peixes diariamente. E o que está a me impressionar é que o Conselho Municipal cruzou os braços. Falta-nos mais contentores de lixo e o que peço sempre aos meus clientes é que joguem seus restos de comida nesta sacola, que sempre trago comigo”, relatou.

Além da questão do lixo, outro aspecto negativo é o esgoto jogado na baía de Maputo.

O pescador Albino Vasco, 35 anos, relata que a sujeira da água tem espantado os peixes. “Mesmo na água encontramos garrafas e vidros quebrados. Se calhar para apanharmos camarão e peixes temos que ir muito longe para conseguir. O camarão foge e não dá para apanhá-los”, disse.

Perguntado se há uma mobilização dos pescadores para exigir do Conselho Municipal uma atitude mais eficaz, o pescador respondeu negativamente. “Estamos a tentar conversar com Conselho Municipal sobre isso. Mas não alcançamos bom resultado. A água está cheia de resíduos do esgoto do Hospital Central e das casas por perto. Um problema muito sério para nós que não estamos a apanhar  peixes como antigamente”, denunciou.

Procurado, o Conselho Municipal de Maputo – CMM, não quis se manifestar sobre o assunto. No entanto, há também notícias animadoras.

Há informações de que a Associação Moçambicana de Reciclagem está recolhendo assinaturas para um memorando que deverá ser entregue às autoridades competentes. O que se quer com isso é exigir a imediata limpeza da praia. Clique aqui para saber mais.

Veja na tabela abaixo o tempo de decomposição de alguns materiais encontrados nas areias da Costa do Sol (Fonte: Ecologia.org).

Material

Tempo

Papel

2 a 4 semanas

Palito de Fósforo 6 meses
Papel plastificado 1 a 5 anos
Casca de banana ou laranja 2 anos
Chiclete 5 anos
Latas 10 anos
Ponta de cigarro 10 a 20 anos
Couro 30 anos
Sacos plásticos 30 a 40 anos
Cordas de nylon 30 a 40 anos
Latas de alumínio 80 a 100 anos

Tecido

100 a 400 anos

Vidro

4.000 anos

Garrafas plásticas e pneus

 

indefinido

Enfim, a limpeza pública de uma praia seja em Moçambique, no Brasil ou em qualquer lugar, cabe a todos. É importante lembrar que os frequentadores da praia (visitantes, banhistas e moradores) são também responsáveis por gerar esses resíduos. Oxalá tenham mais consciência a respeito, e o poder público local não faça vista grossa frente a esses sérios problemas do lixo e do esgoto.

Hambanine e até o próximo post!

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Dedinho brasileiro na Unicef Moçambique

Saiba mais sobre o trabalho da Instituição e conheça os desafios de uma brasileira a trabalhar em prol da proteção das crianças no país

Em tese, todo país deveria oferecer instrumentos legais e eficazes para a proteção das crianças, que muitas vezes, no decorrer de seu desenvolvimento e crescimento, ficam expostas à criminalidade, à violência por parte dos adultos, ao abuso sexual e à exploração.

Nem preciso mencionar que esses abusos infantis agigantam-se em contornos globais. E na África, talvez essa questão seja ainda mais crônica, com tons cinzentos e obscuros. Aqui a coisa é pesada: em Moçambique, infelizmente, não é diferente.

Pensando nisso, quis trazer para você um pouco do trabalho de uma organização mundial  reconhecida pelo enfrentamento das questões que ferem os direitos das crianças. Fui ao escritório central da Unicef Moçambique. Mas antes de contar o que vi por lá, gostaria de perguntá-lo (a): já ouviu falar ou conhece a Unicef e o trabalho que ela desenvolve?

Quando você pensa nesse nome, “Unicef”, talvez venha à sua cabeça a figura do Didi dos Trapalhões (Renato Aragão), que é Embaixador da organização no Brasil, e também se puxar pela memória, ainda se lembre do Criança Esperança da TV Globo, que acontece uma vez por ano.

Sim, no Brasil, a Unicef fomenta ações voltadas às crianças. Mas essa organização não faz só pelo nosso país, suas atividades vão muito além. Ela atua em vários países e mobiliza ações sociais voltadas às crianças em todo o mundo.

A história da organização começa em 1946, quando foi criada pelas Nações Unidas para ser um mecanismo de auxílio às crianças que ficaram órfãs pela guerra na Europa. Desde então, tem ganhado corpo e vem intermediando conflitos em várias partes do globo, principalmente quando envolvem problemas relacionados à proteção dos direitos da criança e do adolescente.

Na organização trabalham mais de 7.000 pessoas e em Moçambique são cerca de 120 funcionários. O Dr. Roberto de Bernardi, Representante Adjunto da Unicef – Moçambique, explica que no país a organização atua em várias esferas. “Atualmente, trabalhamos com a saúde e nutrição das crianças, trabalhamos para melhorias na água e saneamento das comunidades, temos um olhar para a educação infantil, buscamos implementar instrumentos mais eficazes para a proteção da criança daqui e ainda realizamos parcerias para implementar políticas sociais positivas à população”, ressalta.

A instituição, valendo-se de parcerias internacionais em Moçambique, ainda mobiliza recursos financeiros para conseguir resultados no desenvolvimento infantil,  na educação básica, no combate a AIDS e na promoção de alianças junto ao governo local.

Quer saber mais sobre o trabalho da Unicef em Moçambique? Clique no player abaixo e ouça a entrevista com o representante da organização no país.

Brasil nas fileiras da Unicef 

A Unicef Moçambique conta com mão de obra brasileira em seu escritório em Maputo. Você sabia disso? Tem dedinho brasileiro por lá também.

São atualmente três mulheres que coordenam vários projetos. Conforme informações, elas se revezam trabalhando administrativamente para a Instituição e fazendo trabalhos de campo voltados aos problemas enfrentados pelas crianças no país. Auxiliam também nas áreas jurídica e de comunicação.

Uma delas é a mineira Mariana Muzzi, natural de Mariana/MG. Muzzi é  formada em Direito e em Ciências Políticas. Suas especializações são na área de Direitos Humanos e Saúde Pública, o que a levou a trabalhar na Unicef. Ela atua pela Instituição há nove anos. Começou no Peru e logo foi trabalhar na Bolívia. Depois foi convidada a ajudar no escritório de Nova Iorque e de lá foi trabalhar na Índia.

Após o terrremoto do Haiti, Muzzi se deslocou para aquele país para realizar um trabalho com foco na assistência das crianças que ficaram órfãs pela catástrofe natural ocorrida. Terminados os seus trabalhos no Haiti ela veio para Moçambique, onde está há dois anos militando na área de proteção da criança e combate ao abuso sexual infantil.

Perguntada sobre a eficácia das Leis de Proteção às Crianças em Moçambique, Muzzi foi enfática. “Aqui temos uma lei similar à lei brasileira, o nosso Estatuto da Criança e do Adolescente – o ECA. Enquanto vimos o ECA em nosso país atingir sua maioridade tanto pela data de criação como por uma certa eficácia, as leis moçambicanas voltadas às crianças e adolescentes são ainda muito recentes. Similar ao ECA temos aqui a Lei de Bases de Proteção da Criança,  e a Lei de Organização Tutelar de MenoresMas, infelizmente, essas leis por aqui têm apenas quatro anos e ainda estão em processo de consolidação. Há todo um trabalho que ainda deve ser feito junto ao Governo, à polícia, aos magistrados e juristas do país, para que coloquem de fato em vigor essas leis. E esse é um dos papéis da Unicef e meu trabalho caminha a favor disso. Ou seja, ajudar na consolidação dessas leis de proteção”, ressalta.

Uma semana típica de trabalho de Muzzi pela Unicef inclui muito trabalho de campo, conferências e encontros com representantes do Governo Moçambicano. Segundo a brasileira, a Unicef vem sistematicamente criando ciclos de debates mobilizando sociedade civil, instituições públicas e Governo. Esses encontros têm o objetivo de sensibilizar esses organismos aos problemas enfrentados pelas crianças. “Para você ter uma ideia, essa semana estamos trabalhando junto aos magistrados moçambicanos e dando palestras sobre a importância de se avaliar medidas alternativas para menores que se encontram em conflito com as leis. São muitos desafios até chegarmos ao ponto de dizer que as crianças e adolescentes nesse país são respeitados”, afirma Muzzi.

De acordo com ela, falta formação  e consciência em relação às problemáticas das crianças. “No país há milhares de casos de abuso sexual infantil e desrespeito aos direitos das crianças. Só que esses casos ainda não chegam até a justiça. Então, a gente tem que construir cada pedaço do quebra-cabeças para que as leis de proteção às crianças sejam colocadas em prática. Trabalhamos com formação de vários setores moçambicanos, que vai desde a preocupação com a Medicina Legal no país, campanhas de comunicação junto ao Ministério da Justiça de Moçambique, campanhas em escolas e sensibilização de rádio e TV.  Temos que fazer tudo isso para criar uma estrutura sólida de proteção dos direitos das crianças por aqui”, declara a especialista.

Para além das atividades de conscientização de organismos e instituições moçambicanas, Muzzi destina seu tempo também ao trabalho de base junto às famílias e comunidades. “Vamos até as famílias e escolas para falar sobre a importância de se cuidar melhor das crianças. Temos jogos educativos para crianças e professores, que alertam quanto aos maus tratos infantis e que ensinam o que fazer quando algo ruim acontecer. Firmamos também parcerias com rádios comunitárias e distribuímos conteúdo informativo sobre a questão”, disse.

Perguntei a ela o que vislumbra para o futuro e a eficácia das leis de proteção às crianças e adolescentes no país e, mais uma vez a funcionária da Unicef foi categórica. ”Gosto de trabalhar aqui e temos atingido os resultados esperados. Mas acho que ainda falta uma participação maior da sociedade civil em relação à questão. Vejo ainda pouca mobilização dos segmentos sociais em relação às crianças e aos problemas que envolvem o universo delas. Falta as pessoas se ultrajarem com os maus tratos sofridos pelas crianças. Falta as pessoas não acharem que é normal ver uma menina de treze anos grávida”, ressaltou.

Depois daquela resposta ainda insisti. Você acha que as coisas tendem a melhorar? “Tenho uma sensação de força e esperança. Hoje, vejo uma participação maior das pessoas e um certo movimento para  a melhoria das coisas. E acho que num futuro próximo poderemos dizer que: sim, as crianças daqui vivem com dignidade”, finalizou.

Quer ouvir na íntegra a entrevista com a brasileira? É só clicar no player abaixo.

Em Moçambique, não existem dados nacionais abrangentes sobre os níveis de violência e abuso de crianças, mas fica o alerta. Oxalá esse país cuide melhor de seus “miúdos” (como o moçambicano se refere às crianças por aqui).

Continue acompanhando o blog! Em breve, você vai ver por aqui mais matérias sobre essa temática. Hambanine e até o próximo post!

Educação pré-escolar é uma necessidade

Governo e sociedade civil tentam implantar mecanismos de aprendizagem na primeira infância

Um Estado quebrado com um abismo educacional que começa na tenra idade e vai até o ensino superior.

Uma vontade política quase inexistente e uma aceitação passiva da população. Pouca infraestrutura e escassos investimentos de recursos na área da educação e desenvolvimento humano.

Faltam escolas e faculdades públicas que atendam a demanda da população. E necessita-se, urgentemente, de uma melhor capacitação de profissionais na área de educação para dar conta do recado.

Dito isso, alguém poderia estar pensando que estou falando do Brasil, não? Pois é. Não falo do Brasil, mas bem que poderia ser.

Tão maior ou igual aos problemas enfrentados nas terras tupiniquins, a República de Moçambique também sofre com isso. Essa é a dura realidade enfrentada pelos moçambicanos que, muitas vezes, sequer têm escolas próximas às suas localidades. Infelizmente, o Estado ainda não consegue gerir esses problemas e tomar atitudes potencialmente positivas para beneficiar a população nesse sentido.

Desde a sua independência há 36 anos, Moçambique lida com um gigastesco vazio na área da educação, salvo no início da década de 80, onde o país progrediu educionalmente de uma maneira significativa.

Vislumbra-se um quadro mais promissor num futuro próximo para Moçambique? Alguns professores e profissionais envolvidos com a educação no país dizem que sim, outros afirmam que não.

Controvérsias à parte,  percebo que há algumas iniciativas por parte do Estado e sociedade civil visando alterar esse quadro. Uma “luzinha” no fim do túnel, eu diria. Juntos, esses atores sociais desejam incluir a educação para crianças na fase pré-escolar e ainda fomentar debates sobre uma maior atenção à educação de um modo geral.

Tão importante quanto implementar ferramentas educacionais eficazes para adolescentes e adultos, a educação infantil passa a ser um dos focos do país e um dos maiores objetivos do milênio, de acordo com alguns professores da Politécnica.

Resta saber se essa vontade que se percebe por parte da FRELIMO (Governo Moçambicano) gerará resultados eficazes, principalmente para as crianças. A verdade é que hoje a situação da educação no país é no mínimo, alarmante.

Dados que revelam sérios problemas

De acordo com um relatório divulgado em 2008 pelo Ministério da Mulher e da Ação Social do Governo Moçambicano, o país possuía um milhão de crianças em idade pré-escolar (de 3 a 5 anos).

Acontece que apenas 4% tinha acesso ao ensino pré-escolar. Detalhe: essas estatísticas cabem apenas para as crianças que vivem nas zonas urbanas. As que vivem nas zonas rurais sequer foram mencionadas no relatório. Outra questão importante: quase 50% da população de Moçambique é formada por crianças que vivem em zonas rurais.

Um “estudo de caso” proposto pela Save the Children (um ONG que cuida dos direitos das crianças no mundo), sobre a alfabetização em Moçambique, afirma que apenas 41% das crianças da primeira à terceira classe, ou seja, de 6 a 8 anos, leem de 3 a 5 palavras por minuto e são capazes de escrever o próprio nome.

Uma outra abordagem com foco na educação do pais, com base em estudos desenvolvidos pelo Banco Mundial, datada do ano de 2010, revela que 50% das crianças em idade escolar tinham à época sérios atrasos de habilidades de pensamento crítico e outros 25% delas apresentavam atrasos na comunicação e desenvolvimento motor.

Esses relatórios potencialmente negativos têm deixado tanto sociedade civil como Governo Moçambicano em estado de alerta. E fruto dessa preocupação são as tentativas de se firmar parcerias entre ambos para alterar esse quadro.

O que percebo, pelo menos, é uma vontade de mudança no país. O que considero já ser um indicador que por si só merece ser evidenciado. Pensando nisso, convidei o ativista Judas Massinge, da Save the Children para falar ao “Terras de Moçambique” sobre o assunto.

Quer saber mais sobre o trabalho da Save the Children em Moçambique? Clique aqui.

Plano estratégico a ser implementado

De acordo com o ativista da Instituição, começam a ser firmadas parcerias do Governo Moçambicano com ONG’s de proteção à criança que desejam reverter essa situação negativa. “A futura estratégia irá considerar crianças de 0 a 5 anos e será adaptada de acordo com as condições de cada lugar, com escolinhas comunitárias e centros infantis privados ou do Estado, isto é, esse planejamento deseja ser inclusivo. Acredito que no ano que vem tudo isso estará a crescer”, afirma.

Oxalá seja válida essa iniciativa. No entanto, o Comitê das Nações Unidas para os Direitos Humanos aconselha ao Governo Moçambicano que “aumente o acesso ao desenvolvimento e educação já na primeira infância e mobilize forças para levar uma melhor qualidade de ensino às demais faixas etárias”.

Estejamos atentos. Fica a torcida!

Hambanine e até o próximo post! No seguinte trago para você um pouco do trabalho da Unicef Moçambique.

Catembe e Praia dos Amores

Um passeio de Ferry Boat e uma praia de pescadores

Temperatura: 28°C.

Maputo, 07h30. Acordei inquieto.

Um sol que não me deixava esquecer que estou em África. Fui tomar meu café e fiquei pensando em como aproveitar o sábado. Aquele solzão lá fora merecia ser vivido. Mas o que fazer? Ah, talvez ir a uma praia. Mas qual? Pensei.

A praia de Maputo, segundo o que alguns moçambicanos me disseram, é imprópria para o banho. Salvo algumas pequenas partes da praia Costa do Sol. E então? Não estou afim de entrar em águas poluídas. Mas onde ir? Foram minhas divagações entre um gole de café, um pedaço de pão e um trago no cigarro.

Óculos escuros no rosto e uma “bermudinha de praia” fui pedir auxílio aos universitários do Fátima’s (risos). Depois da consulta (risos) decidi conhecer o Distrito de Catembe, que tem uma praiazinha e fica no outro extremo da baía de Maputo. É pertinho da cidade e dá para ir e voltar no mesmo dia. Pois bem, é para lá que vou.

Catembe

Resolvido o destino, agora era saber como chegar até lá. Saindo da Mao Tsé Tung, onde eu estava hospedado, tomei uma chapa até a parte baixa de Maputo indo direto para o cais.

A ligação entre o Distrito e Maputo é feita por vários barquinhos e também por um Ferry Boat, carinhosamente apelidado de “catembeiro” pela população local. Isso me lembrou o Ferry de Salvador, que vai até Itaparica.

Você pode pegar o Ferry Boat por apenas 5 meticais (na moeda brasileira é algo em torno de R$0,40) em frente ao Ministério das Finanças, na Av. 10 de Novembro. O percurso até Catembe leva cerca de 25 minutos. O “catembeiro” costuma sair durante o dia de meia em meia hora, e o último sai às 23h. Fique ligado (a).

Comprei meu bilhete no cais e fiquei aguardando o Ferry Boat chegar. Não sabia o que me esperava do outro lado da baía de Maputo, mas minhas pernas reclamavam curiosidade.

Entrei no barco com um ventinho cortante no rosto. Por uns dez minutos dentro do Ferry fiquei apreciando a bela vista da capital de Moçambique. Por um outro ângulo, e isso por si só já vale o passeio.

Como é bonita a Maputo vista da sua baía, pensava. Do Ferry Boat, escutei um borborinho de gente e vi muita movimentação de tripulantes. Todo mundo queria ir para as janelas do barco para apreciar a vista. Percebi ainda um horizonte recortado pelos prédios de Maputo a contrastar com as águas calmas da baía. Gaivotas cortando o céu, sol reluzindo e barulho de vento nos ouvidos. Que ótimo, disparava meus pensamentos.

Da janela do barco, respirei fundo pensando ter deixado para trás a urbanidade da capital. E já sentindo um ar diferente, desembarquei.

Veja no vídeo abaixo imagens da travessia de Maputo à Catembe.

Catembe é nice! É assim que muitos moçambicanos se referem ao Distrito e tenho que concordar. No vilarejo, moram muitas pessoas que trabalham na capital. É um lugar pacífico e bem arrumadinho para os padrões moçambicanos.

Chegando ao cais de Catembe pude ver uma ancoadouro “antigasso”, com barcos pegando pacientemente um solzinho. Mais à frente, vi muita aglomeração de vendedores comercializando frutas, comidas, bebidas e cartões de celulares. Do outro lado da rua alguns poucos restaurantes com uma música alta, um postinho de gasolina e várias chapas estacionadas que levam pessoas para o interior daquelas estradinhas de chão batido que eu via.

Caminhando pelo centrinho de Catembe fitei ao longe a cidade de Maputo. Me senti um pouco aliviado por ter deixado o concreto e o transa-transa de carro do outro lado da baía. Tinha sido uma semana cansativa na faculdade. Havia  feito freelas para uma revista local, que foram um pouco desgastantes. E estar ali naquele momento, era tudo que eu queria.

Acho que naquele dia eu estava querendo mesmo era caminhar e assim o fiz. Ao lado do cais tem um extenso areal com uma praiazinha que dá para fazer ótimas caminhadas. Experimentei com prazer pisar naquela areia. Mas ainda me faltava algo. Talvez uma outra praia seguindo aquelas várias estradinhas com carros que levantavam poeira. Me informei com os nativos e tomei outra chapa, agora, para a Praia dos Amores.

Uma praia de pescadores

Meia hora dentro da chapa por uma estrada de terra batida cheguei ao ponto onde deveria descer. É aqui? Perguntei ao motorista. “Sim, boss, siga por esse caminho uns 2km que chegará à Praia dos Amores”. Ok, agradeci contente e fui caminhando por aquelas “machambas” (hortas em changana), vendo poucas casinhas de tijolos, algumas palhoças e uma estradinha de terra salpicada por um capim alto.

Uma caminhadinha rápida e eu já estava numa praia extensa, quase deserta. Linda, com marolinhas brilhando pelo sol que naquela altura já não dava trégua. O dia era de caminhadas e não me esquivei disso. Fiquei ali, a apreciar o Índico e a pisar naquela areia dura.

Ondas não vi, mas estar ali naquele lugar de paz me revigorou. Depois de algum tempo caminhando, passei por pescadores, conversei com nativos e pude deixar as horas voarem junto daquele ventinho gostoso que eu sentia na praia. “A vida é um passeio e uma caminhada pequena, amigo brasileiro: ou aproveitamos bem enquanto podemos ou depois já não dá”. Foi o que ouvi de uma senhorinha que pescava mariscos na Praia dos Amores.

Segui seu conselho, aproveitei meu sábado e retornei à Maputo no fim da tarde por um “catembeiro” que, agora, dá vontade de sempre pegar.

Hambanine e até o próximo post!

Finas misturas de um povo

Por estar localizado numa posição estratégica e ponto nodal da Costa Sul da África, o país, ao longo do tempo, foi ocupado por povos diversos formando um grande mosaico étnico.

Por minhas observações, pelas conversas que tive com um bocado de gente por aqui, e pelo que li a respeito, há várias pessoas de diferentes regiões e inúmeras culturas se misturaram com o passar dos anos no atual território que chamamos Moçambique.

Instalaram-se aqui africanos de várias partes do seu continente mãe, surgiram mestiços das relações do negro com o branco, vieram árabes para cá, indianos e europeus de várias partes do velho continente.

Falar do povo moçambicano, a meu ver, é pensar em sua raiz básica que é a dos povos Bantu, mas há que se considerar também a forte miscigenação que aconteceu por aqui.

Creio que o povo moçambicano e sua cultura de um modo geral, são feitos por essa fusão do padrão originário da matriz Bantu mais a consequente mistura com outros povos. Daqui sai a “moçambicanidade (e identidade nacional)” que tenho experimentado – tema do próximo post.

Povos Bantu

Pelo que me conta o livro: “Ensaio sobre a cultura de Moçambique”, de Carlos Jorge Siliya, já mencionado num post anterior, existem vários grupos negros por aqui. E com muitas subdivisões.  Entre esses grupos negros de Moçambique, fui instruído por um professor da Politécnica (onde estou a estudar – sem gerúndio para eu ser entendido – clique aqui e veja o que falo sobre isso num post passado), a ressaltar nas minhas pesquisas os cinco principais: os “Macuas”, os “Tongas”, os “Macondes”,os “Nhanjas” e os “Swahilis”.

 

Os cinco grandes em “Moz”

Comecemos pelo maior grupo negro em “MOZ”. Os Macuas-Lomués, que são a mais numerosa etnia de Moçambique. Os “macuas”, como são vulgarmente chamados, estão ainda espalhados pela Tanzânia, Malawi, Madagáscar e Ilhas Seychelles – talvez pelo forte tráfico de escravos que sofreram, pelo que li no livro de Siliya.

Esse grupo ainda se divide em: Lomués, Chacas, Macondes, Podzos e  Acherinas.

O próximo grupo negro que merece destaque é o dos agricultores e pastores do sul de Moçambique. Eles foram os primeiros a emigrar para as minas da África do Sul no século XIX.

Hoje, estão presentes principalmente na capital Maputo, e na província de Gaza.  Esses agricultores são de origem dos povos Tongas, que ainda se dividem em: Changanas, Chopes, Tsuas e Rongas.

Outro grupo interessante são os Macondes, muito conhecidos por suas esculturas em madeira. Abaixo você vê um artesão que mostra a pura arte maconde, deu vontade de comprar (risos).

 

Um grupo que tem forte influência na construção da sociedade em Moçambique são Swahilis, que se localizam atualmente na região do Quionga e Quelimane, muito embora existam algumas comunidades mais a sul do país. Trata-se de populações africanas islamizadas, cuja cultura se estende ao longo de toda a costa oriental da África até Moçambique, incluindo Camarões e Madagáscar. Foram eles os responsáveis pela introdução do Islamismo por aqui.

E o último grupo são os Nhanjas que se subdivide em: Sengas, Maganjas, Auguros, Vanhunguéses e Atandes

Assista a um video bem legal que trata dos grupos negros que se espalharam pelas Américas.

 Para mais informações sobre os vários grupos negros em Moçambique, clique aqui.

Hambanine e até o próximo post!  

 

Moçambique – a Independência e o embrião da República

Quarto post da série que traz aspectos sobre a história de Moçambique. Nesse texto trato sobre o processo de Indepência de Moçambique e da República que se estabeleceu aqui, e incito alguns choques e problemas internos enfrentados pelos moçambicanos no decorrer dos anos. Vamos lá então! Sem perder é claro, o que tenho afirmado nos post’s anteriores. Aqui não há uma verdade absoluta. É meramente um recorte dos fatos, ok?

Quando Portugal deixou de ser uma ditadura em 74, o país perdeu um poderio significativo sobre as suas colônias. E isso resultou num processo de Independência das suas colônias remanescentes: cinco na África e uma na Oceania.

Em todas essas colônias portuguesas naquele momento, existiam movimentos políticos que reclamavam a Independência imediata. Diante da transição que Portugal atravessava naquele momento, os militares portugueses se recusaram a hostilizar os movimentos que ganhavam força de independência nas várias colônias que o país ainda detinha poder.

E foi exatamente nessa época, que a Frelimo intensificou aqui em Moçambique suas ações militares, tendo inclusive gerado uma série de baixas no exército português. Com as investidas da Frelimo contra o “inimigo” foi crescendo um sentimento nacionalista, que ganhou todos os rincões do país.

Naquela altura, o partido contava com amplo apoio de sua população. De um lado se verificou um enorme crescimento dessa força popular no país e do outro restou uma frente militar portuguesa desestabilizada e enfraquecida, que já não contava com o apoio de todos os seus militares tanto em Moçambique quanto em Portugal. O que isso gerou? Perdas de território para os “portugas”, que se viram sem forças diante mobilização maciça do povo moçambicano.

O processo de Independência, após anos de combate, foi ratificado em 24 de Julho de 1974 quando foi aprovada uma lei em Portugal que estabeleceu um regime transitório para Angola e Moçambique, tendo em vista a independência destes territórios.

Pelo que li no “Ensaio sobre a Cultura em Moçambique, de Siliya, autor já mencionado em post’s anteriores, em 4 de Agosto de 74, Portugal se comprometeu enfim, junto ONU, a autorizar a Independência do país. E em 7 de Setembro, em LusaKa, foi pelos “ portugas”e pela Frelimo assinado um acordo que conduzia o país à tão sonhada independência.

Em setembro de 74, Joaquim Chissano, representando a Frelimo e em conformidade com o estabelecido no acordo de Lusaka, que ratificava o cessar fogo e a transferência dos poderes, toma posse como chefe de um governo de transição, apoiado agora pelo governo português.  A função de Chissano nesse momento foi propiciar condições ao país para uma independência plena.

Já em maio de 75, Samora Moisés Machel foi aclamado o primeiro presidente de Moçambique. Abaixo segue um video documental que mostra a ascensão do povo moçambicano ao poder.

O período que se segue à Independência (25 de Junho de 1975), ao contrário do que seria de esperar foi de profunda crise interna, devido a alguns fatores. Os investimentos estrangeiros foram embora junto com os portugueses, houve a tentativa da construção de um estado socialista e o país enfrentou guerras internas pelo poder. Mas isso é tema para o próximo post. Hambanine e até lá!

Fonte de pesquisa: “Moçambique e sua história”, de Hortência Cossa e Simão Mataruca.

 

Acordar cedo é lei em MPT

Saio da faculdade e me deparo com pessoas fazendo “cara de paisagem”, sem pressa e a dividir espaço nas calçadas esburacadas de Maputo (MPT).

Passo por vendedores de frutas que me oferecem maçãs, bananas e laranjas frescas. Falam comigo em inglês pensando que sou europeu, explico que sou brasileiro e que estou só de passagem. Mesmo assim, continuam a querer vender os seus produtos. “Leve pelo menos uma pêra meu chefe”, insiste uma comerciante.

Quando olho para o lado já vêm outros vendendo ovos, verduras, amendoins e castanhas. Olho novamente para o outro lado da rua e lá tem um monte de gente com roupas vermelhas e amarelas comercializando cartões para alguma empresa local de telefonia móvel. Continuo o meu trajeto.

Na esquina tem um banco com seguranças à porta e um bocado de idosos impacientes do lado de fora. Reparo na fila e percebo que já está começando a dar a volta no quarteirão.

Continuo. Passo por um poste caído e vejo cinco ou seis trabalhadores da energia elétrica de Moçambique mexendo em vários fios e não se entendendo sobre o problema da falta de luz na rua.

Na mesma calçada, vejo um posto de gasolina que oferece ducha para quem colocar no tanque do carro 800 Meticais – (Mtc). Uma fila enorme de carros. Todo mundo querendo uma ducha “mahala” – grátis no dialeto changana.

Comércio informal nas ruas de Maputo

Atravesso a rua. Do outro lado, uma banquinha vende livros usados esparramados pelo chão. No mesmo espaço outros vendedores negociam roupas e sapatos usados. Uns sentados no chão e outros em pé. E outros tantos, a vender artigos eletrônicos. “Vai um pen drive de 16 Giga, chefe? É preço justo meu “brada” – irmão no dialeto changana. Não, obrigado! Respondo e prossigo.

Agora vejo uma mulher que varre a rua. Vejo também outra no mesmo momento a jogar o resto do sanduíche que comia no chão. Uma olha para a outra. A que varria balbucia algo em changana que não entendo. Parece que ela não gostou do que a outra fez.

Prossigo. Passo em frente a um ponto do “chapa” (van no dialeto changana). Pessoas achando que também quero pegar a van trombam comigo querendo um espacinho naquele veículo caindo aos pedaços. Entram todas. Umas vinte e tantas lá dentro, calculo. Olho tudo aquilo e sigo andando.

Em meio àquele aglomerado de gente que gesticula e fala alto, um homem empurrando um carrinho de cimento tromba com minhas pernas logo à frente. Peço desculpas por ter sido atropelado.

Recomposto do susto ao olhar para frente vejo bares, lanchonetes e restaurantes a receber gente com fome. E eu? Saindo da faculdade também com fome, esqueço os reclames do meu estômago e fico ali a admirar toda aquela movimentação. Já são 12h30 e estamos na hora do almoço. De onde estou vejo estudantes esfomeados saindo das escolas e das universidades. Paro ali para olhar. A poeira das ruas paira no ar e atinge minhas narinas. Carros se engalfinhando por espaços nas vias principais de Maputo dão agora passagem ao comércio informal e a dezenas de jovens com mochilas nas costas e fones de ouvido atravessados no pescoço. Será o que escutam? Me pergunto.

O comércio e a movimentação de gente na região central estão à pino como o sol que não dá trégua. E acho que essa mesma movimentação começou muito antes desse mesmo sol dar o ar da graça.  

Antes do galo cantar

As manhãs iniciam sempre bem cedo para quem vive em Maputo. Principalmente, para a massa menos privilegiada que não tem um emprego no Estado, na iniciativa privada ou é um profissional com graduação superior.

“Para quem vive do comércio informal a rotina começa antes mesmo do sol nascer. E não é diferente para os homens e mulheres. Ambos estão de pé bem cedo para fazer valer o dia”, me confessa uma mulher que vende cigarros na esquina onde eu estava.

Homens se dirigem aos seus empregos na construção civil e comércio. E mulheres, geralmente, transportando os seus filhos menores às costas nas famosas “capulanas” (tema de um futuro post, prometo) iniciam seu dia realizando tarefas em casa, nas suas “machambas” – hortas e quintais no dialeto changana – para só depois saírem às ruas para comercializar seus produtos.

Mercado Central de Maputo

Muitas delas saem de casa 4h30 da manhã para pegar “chapa” e se dirigirem até à Baixa da cidade ou à região central de Maputo, onde o comércio é mais intensificado. Outras rumam para os mercados: central e do peixe (ainda vou escrever sobre esses locais).

 Assista a um video que mostra um pouco como é a cidade.

Temperatura e o horário comercial

Desde que cheguei a Maputo, tenho me admirado com a variação da temperatura por aqui. Às 6h30, horário que geralmente acordo, a temperatura está lá pelos seus 13° C com um ventinho cortante vindo do mar. A cidade é plana e o vento corre ligeiro.

Lá pelas 9h o sol começa a esquentar e me faz lembrar que estou na África. Às 13h, o astro rei não poupa ninguém. Talvez por isso, todos fazem uma pausa para almoço que aqui é “sagrado”. O comércio, as instituições públicas e bancos fecham suas portas para um pequeno intervalo.

O que vejo aberto nesses horários são os restaurantes e lanchonetes que recebem os moçambicanos e as outras etnias que aqui estão para almoçarem.  E detalhe: sem pressa.

Já às 15h30 o comércio que havia fechado reabre as portas. Outro detalhe: esse mesmo comércio estava aberto desde às 7h30. Uma justa parada, eu acho.

Quando é por volta de 17h à temperatura começa a cair bruscamente e já se começa a sentir o ventinho gelado das monções do Índico.  O sol se põe cedo e a noite vem rápida. É hora, então, dos bancos e instituições privadas e públicas cerrarem novamente suas portas. E o que percebo é que os funcionários querem agora é tomar o rumo de casa ou fazer um “happy hour”.

Há parte do comércio que permanece aberta até às 18h30. Alguns chineses, árabes e indianos insistem com suas lojas até às 19h30. Mas a essa altura, já é noite e quem consegue já está em casa.

Aqui se dorme cedo. Talvez porque o dia começa também cedo, é longo e repleto de desafios. Na capital de Moçambique, apesar do trabalho árduo que percebo e o dia vir antes do sol raiar, as pessoas (ao contrário de muita gente que vive em grande centros urbanos no Brasil) não são tão apressadas ou estressadas por isso. Carregam sempre um sorriso no rosto e começam suas rotinas bem cedo porque aqui, a vida é muitas vezes injusta e breve.

Praia Costa do Sol

Enfim, um ritmo um pouco diferente do que estamos acostumados. E nos finais de semana os maputenses relaxam. São neles que muitos vão à praia da Costa do Sol para jogar aquela pelada, tomar uma cervejinha e sentir as brisas revigorantes do Índico.

Nos próximos post’s falo um pouco sobre a história de Moçambique e trago mais detalhes da vida em Maputo.

Hambanine. Até…

Contagem regressiva: Moçambique é logo ali

“O que?” “Quem?” “Quando?” “Onde?” “Como?” “Por que?”. Tenho reservas em relação a esse formato tradicional de lead, mas vamos a ele, já que esse blog é de um estudante de jornalismo. Por via das dúvidas, preferi usá-lo. (risos) Do contrário, correria um sério risco em ser advertido formalmente por alguns dos mestres do Centro Universitário UNA. E isso não queremos não é mesmo? (risos)

Então, vamos lá: o que? Um blog que conta as experiências de um estudante de jornalismo vivendo na África. Quem? João Paulo Costa (euzinho mesmo). Quando? Em poucos dias. Como? Uma bolsa de estudos de sete meses. Onde? Universidade Politécnica em Maputo, capital de Moçambique. Por que? Leia esse blog com frequência que entenderá em breve. (risos)


Há 10 dias de pisar em novas terras

A aventura em morar na África começa pelo meu envolvimento com a cultura africana que sinceramente, não consigo explicar. Sempre admirei. Sei senti-la e isso me levou a esse novo desafio. Para mim, viver no continente africano significa novas oportunidades de crescimento pessoal batendo à porta (e agradeço a Deus por isso).

Entre a familiaridade nata com a cultura afro  e o interesse em desnudar com meus próprios olhos costumes diferentes dos meus, cá estou me vendo hoje, a arrumar as malas para viver em um pedacinho da mãe África que fala a língua portuguesa: Moçambique.

A partir da vivência em Maputo, queira Deus que eu consiga mirar as Terras de Moçambique para além do que o Sr. Google nos conta, e que você embarque nessa comigo e aprecie. Esse é o intuito desse blog.

O mergulho

O que me espera ? Um choque cultural, novos aprendizados, experiências antropológicas? Um olhar mais sensível? Uma aorta mais humana? Sinceramente, não sei.

Só consigo sentir (agora) o mergulho que quero dar nessas terras.

Creio que o grande lance de mergulhar em algo diverso do que você está acostumado é não saber ao certo o que vai encontrar lá no fundo. E isso me fez lembrar uma frase que aprendi ainda criança: “se deseja saber alguma coisa nessa vida mergulhe nela de cabeça”. Obrigado João Paulo (pai) por me ensinar isso (te amo meu doce guerreiro)

Enfim, a meu ver, o bom de mergulhar é a surpresa. E parafraseando um Marx de barbas vermelhas e empoeiradas, afirmo para você: “a “surpresa” é o motor da história”. Pelo menos da minha “história,” e montado num cavalos de sonhos, África lá vou eu.

Amores cá no Brasil

Ficarão para trás (só geograficamente, porque os levo aonde quer que eu vá) meu pai e mãe amados, minhas irmãs queridas, avós carinhosas, tios e primos companheiros. Ficarão também grandes amigos-irmãos que cativei e minha doce Luisa, pessoinha mais linda que trouxe cores solares para minha vida.

Esses queridos ficarão aqui no Brasil, mas irão comigo para a África em espírito e no coração. Tenho absoluta fé nisso! Fica aqui o meu amor por vocês nesse primeiro post.

Mais perto da inquietude

Para finalizar esse post volto ao título, mas com reticências: “Moçambique é logo ali”… Sim, é logo ali! Perto da imersão, do mergulho e da curiosidade desse estudante de jornalismo inquieto.

Gostaria também de juntar minha voz à García Marquez: “quero dar valor às coisas não pelo que valem, mas pelo que significam”.

Espero que o “Terras de Moçambique” chegue perto disso! De significados. Não só para mim, mas para você também.

Próximos post’s

Continue acompanhando. Nos seguintes trarei detalhes dos preparativos da viagem: trâmites com passaporte, visto, travel card, passagem aérea, busca por um local para ficar e claro, minha chegada em Maputo, cidade que escolhi para esse intercâmbio e que tenho certeza, também me escolheu há tempos.

Até o próximo.