A verdadeira lata de sardinha ambulante

Transporte público na capital de Moçambique é sinônimo de desrespeito

O transporte coletivo é parte essencial de uma grande cidade. Falei o óbvio, não? Mas aqui em Maputo o buraco é mais em baixo.

De acordo com uma matéria de um jornal de Moçambique, O País, a capital Maputo “tem um crescimento populacional de 1,2 por cento por ano. Segundo os resultados do Censo Geral da População e Habitação, a cidade contava com 1.094.315 habitantes em Agosto de 2007”, ou seja, a população tem crescido a cada ano e os serviços de  transporte coletivo não têm acompanhado o ritmo. Quer saber mais sobre isso? Clique aqui.

Me indignar com o que vejo os moçambicanos passando e sentir esses problemas do transporte público em Maputo na pele (afinal, sou também um usuário), me motivou a escrever esse post. Dos muitos lugares que conheci, talvez Maputo seja a cidade que mais sofre com o descaso político em relação ao transporte coletivo. Nem em La Paz, capital caótica da paupérrima Bolívia, percebi tantos problemas.

Para falar a verdade, acho que Maputo não tem de fato um sistema de transporte público. A TPM é uma TPM mesmo. A responsável TPM (Transportes Públicos de Maputo) está de brincadeira com a população.

O que vejo aqui é uma humilhação diária que os moçambicanos enfrentam. Bixas (filas, como dizem por aqui) intermináveis e preços altos dos “chapas” (van, no dialeto changana) que não condizem com a realidade do serviço prestado. Tudo isso é apenas a ponta do iceberg. Assim como em qualquer grande centro urbano no mundo, os moçambicanos  dependem diretamente do transporte coletivo para ir ao trabalho, ao médico, para a ir à escola, entre outros destinos.

A  dificuldade de locomoção da população por aqui beira o absurdo. Todos sabemos que os transportes públicos em um metrópole são fundamentais para levar as pessoas de um ponto a outro na área dessa grande cidade. E aqui não há ônibus (poucos, na verdade) ou metrô que prestam serviços minimamente decentes, como estamos acostumados em nosso país. Acha o transporte público ruim no Brasil? Experimente vir para Maputo (risos).

O transporte coletivo é feito na maioria esmagadora das vezes pelos “chapas” e o desconforto, as más condições dos veículos e a superlotação incomodam muito os usuários. Não se respeita o número máximo de passageiros dentro dos veículos e quando todos entram, vejo dezenas de passageiros ficarem com o bumbum para fora  e outros sentados na janela. Cinto de segurança? Ah, nem sei se existe isso para quem pega os “chapas”.

Na capital de Moçambique não há ônibus coletivos que ligam o centro aos bairros e os bairros ao centro. O que a população utiliza por aqui são essas vans de 15 lugares. Dependendo do horário você pode entrar numa van de 15 lugares e se deparar com  mais de 25 moçambicanos espremidos como sardinhas dentro de uma lata motorizada.

Uma cartilha politicamente correta daria conta de que o meio de locomoção coletivo de uma grande cidade deve propiciar aos munícipes condições plenas de se locomover, garantindo o seu direito de ir e vir. Ela poderia mencionar a luta por uma melhor qualidade de vida para a população, traduzida por condições de transporte dignas, com segurança e acessibilidade. Poderia ainda intencionar uma rede de transportes integrada e eficiente para o povo.

Só que aqui o “maputense” fica a ver “chapas” lotados, apressados e que não o atendem. Os veículos são superantigos e os motoristas despreparados dirigem como se estivessem dentro de um fórmula 1. Detalhe: muitas dessas vans que transitam em Maputo sequer tem a documentação regularizada junto aos órgãos próprios.

Debates pertinentes ao transporte público são sempre bem vindos em qualquer grande centro urbano do mundo, mas no caso de Maputo, acho difícil se chegar a uma conclusão precisa. Aqui, como na maioria das metrópoles brasileiras, o transporte coletivo é caótico. Além do tráfego intenso de automóveis, vias pouco sinalizadas, esburacadas e semáforos que não se entendem, a capital de Moçambique sofre com a falta de cuidados por parte do poder público.

Pelo que apurei, o transporte coletivo é um dos serviços mais criticados pelos moradores de Maputo. E não é difícil entender o porquê disso, concorda?

Estimativas do Conselho Municipal

Chapas desconfortáveis e em más condições, motoristas que não param nos pontos e desrespeito aos horários são as críticas mais recorrentes.

Pensando nisso fui até a “Direcção Municipal de Transporte e Trânsito” de Maputo, órgão responsável pelo trânsito na capital vinculado ao Conselho Municipal (entenda Prefeitura), para falar com o responsável. O chefe desse departametno não se encontrava no gabinete durante toda a tarde que esperei e os funcionários não quiseram se manifestar sobre o assunto. Lá obtive apenas dados interessantes que mostro a seguir.

De acordo como o órgão que cuida do trânsito, “o número estimado de passageiros transportados durante o mês pelos operadores de transportes coletivos cadastrados é de 2,870.640 passageiros”.  Pensei comigo: e os que não estão cadastrados? Bom, deixa isso para lá. Mas a verdade é que esse número é bem maior.

Veja abaixo o que pensam alguns usuários de chapa e chapeiros em Maputo.

Usuários:

Simião Alberto, 25 anos, comerciante informal. É morador do bairro de Zimpeto. 

“Deve mudar a atitude dos cobradores e dos motoristas, porque há muitos chapas, mas não há seriedade por parte deles. Eles encurtam as rotas e não chegam aos terminais. Isso provoca um grande fluxo de pessoas e bixas enormes. (…) penso que o município deve entrar em contato com os motoristas para sensibilizá-los a mudar de comportamento, porque sofremos muito quando há fluxo de pessoas nas paragens e tem aparecido oportunistas que furtam nossos bens. Os chapeiros encurtam a distância sempre. Como eu não tenho carro pessoal e moro longe, a minha deslocação depende dos chapas e só através deles chego ao meu setor de trabalho.

(…) o preço dos chapas é razoável. O que tem acontecido é que acabamos gastando mais em relação ao valor simbólico marcado devido as ligações que fazemos diariamente. Para chegar ao Museu saindo de Zimpeto subo três chapas e diariamente gasto 25 meticas”.

Isabel Fernando, 42 anos, doméstica. É moradora do bairro de Kongolote. 

“É difícil subir chapa. Diariamente para chegar em casa tenho de me sacrificar e entrar em qualquer chapa. Fico mais de 40 minutos a espera de chapa todos os dias. Apesar de existir muitos chapas para chegar em casa subo dois ou três chapas e em média gasto 30 meticais. O serviço só não é melhor porque falta planejamento. (…) o valor pago acho justo, mas nos tratam mal”.

 

Lucas José Cosabla, 52 anos, contabilista. Trabalha na Câmara do Comércio de Moçambique. É morador no bairro da Machava Socimol. 

“Tudo deve mudar porque diariamente tenho ficado duas horas a espera de chapas. Estou aqui a mais de 35 minutos a espera do transporte e até agora nada. Os motoristas devem parar de encurtar as rotas. O que acontece é que, por exemplo, os chapas que deviam ir a Machava Socimol nunca chegam até o destino final.

(…) para chegar em casa tenho de fazer outras ligações de chapas ou caminhar a pé até a minha residência, porque os chapas encurtam as rotas. Mas ainda acho  o valor dos chapas justo, tendo em conta o preço dos combustíveis e os custos de manutenção”.

 

Alice José Cuna, 20 anos, estudante da Escola Secundária Josina Machel. É moradora do bairro Ferroviário.  

“Tem muitos carros, mas não circulam devidamente. Por dia subo quatro chapas, dois a ir a escola e dois a voltar. Com isso, gasto 20 meticais por dia quando só devia gastar apenas 10 meticais. Por que? Porque os motoristas encurtam as distâncias e não chegam até os terminais. Pela distância que os chapas andam, o valor do chapa ainda é justo, mas sofremos, tem vezes que não abrem as cadeiras para sentarmos, somos sujeitos a viajar de pé e apertados. O chapa não é confortável, as cadeiras tem lugar para três pessoas, mas sentam quatro, nos chapas maiores nem sentamos. Numa chapa que comportam 15 pessoas são transportadas 25, 30 pessoas. Apertados como em uma lata de sardinhas”.

 

Chapeiros:

Um chapeiro não quis se identificar. Mas falou abertamente sobre a questão.

“Faço a rota do Museu-Massaroca. O horário de pico é na parte da manhã e no final da tarde. Acho um pouco difícil nos darmos com os passageiros, porque cada um tem sua maneira de pensar e de reagir.

Os preços do chapa são relativamente baratos. A pessoa que pega o chapa daqui para o Benfica, por exemplo, paga 7,50 meticais. Mas há outros que descem por exemplo no Jardim e pagam 5 meticais. Para mim o preço ainda está bom.  Acredito que se não houvesse o chapa iria haver muita dificuldade de circulação de passageiros em Maputo. Desde que trabalho como chapeiro, já me deparei com policiais um pouco chatos né, que não parecem racionais de vez em quando e se aproveitam da situação difícil no trânsito. Ficam sempre a extorquir dinheiro de nós motoristas”.

João F. Mateus, 40 anos, chapeiro há 9 anos.

“Os chapeiros tem muitos problemas. Temos tido problemas com engarrafamentos e com a tarifa paga que é um pouco baixa. A rota que faço e T3-Museu. Ultimamente, não tem hora morta, sempre muito trânsito e movimento.

Levando em conta o vencimento das pessoas as tarifas são até baixas e correspondem. Temos tido problemas com a polícia, em qualquer esquina tem polícias e você pode estar certo com todos os documentos que eles sempre arranjam algum problema.

(…) ser chapeiro não é rentável, quando faço as contas no final do mês vai me sair uns 25.000 meticais. Desses 25.000 gasto uns 7.000 com a revisão do carro, tenho que comprar pneus e tenho que pagar o trabalhador que cobras tarifas. No final, chego a ficar com uns 6000/7000 meticais por mês. Não é sempre muito rentável”.

Os cadeirantes não tem vez

Já andei bastante pelas ruas de Maputo e quase não vejo cadeirantes nas ruas. As ruas são queijos suíços (sem exceções), repletas de obstáculos. Quando penso nisso me revolto e fico a me perguntar: como um cadeirante transita por aqui? Não, ele não transita. Essa é a verdade.

Não há pontos de chapas descentes para quem tem dificuldade de locomoção, e imagine colocar um cadeirante dentro de um chapa lotado até na tampa? Não dá. Ponto. Triste constatação. E as autoridades competentes nisso tudo? Bom, devem estar tomando um chazinho gelado no Hotel Polana e com certeza não devem ter ninguém na família que é cadeirante ou deficiente visual.

Transitam apenas dentro de seus carros de vidros escuros com ar condicionado ligado e, com olhares indiferentes não percebem a dificuldade dos moçambicanos. Ponto.  Outra triste constatação.

Como você vê é difícil mudar esse quadro tendencialmente negativo. Mas para além desses problemas apresentados, tenho que mencionar  que me incomoda também  a resignação dos moçambicanos. Há um conformismo generalizado quanto a isso que me assusta.

Confira abaixo algumas das rotas de chapas em Maputo, Matola, Marracuene e Boane:

Terminais em Maputo: Museu, A. Voador, Xipamanine, Hulene, Malhazine, Benfica, Albazine, Zimpeto, P. Combatentes, Costa do Sol, Matendene, Magoanine, Drive In, B. Jardim, Laulane, Baixa – Praca dos Trabalhadores e Oliveiras.

Terminais em Matola: Zona Verde, Machava-Benede, Machava-Socimol, Machava-Sede, Liberdade, Patrice Lumumba, Congolote, São Damanso, Padaria Boane, Malhampswene, Km -15, Nkobe, Mapandane (1º de Maio), Licuacuanine (Khongolote), T3, João Mateus, Fomento, Cidade da Matola, Matola “C”, Tchumene, Intaka, Singathela, Boquisso, Matola-Gare e Unidade “J”.

Terminais em Boane: Boane, Namaacha, Bela Vista, Changalane, Catuane, Massaca, Saldanha, Goba, Mafuiane, Matola Rio, Salamanca, Estevel e Rádio Marconi.

Terminais em Marracuene: Mateke, Muchafutene e Gwava.

(Mc) = Marracuene           

(Mt) = Matola                                    

(B) = Boane

             De        Para      Via

 

Museu

Xipamanine

Marien Ngobi

 

Museu

Albazine

Praça dos Heróis

 

Museu

Hulene

Praça dos Heróis

 

Museu

Hulene

E.Mondlane/Av de Angola

 

Museu

Laulane

E.Mondlane/Av de Angola

 

 

Museu

Laulane

E.Mondlane/Av de Angola

 

Museu

Magoanine

E.Mondlane/Av de Angola

 

Museu

Magoanine

E.Mondlane/Av de Angola

 

Museu

P.Combatentes

H.Central/Praca O.M.M

 

Museu

Malhazine

Benfica

 

Museu

Malhazine

Marginal/Oliveiras

 

Museu

Matendene

Benfica

 

Museu

Zimpeto

Benfica

 

Museu

Zimpeto

Marginal/Oliveiras

 

A. Voador

Xipamanine

G.Popular/E.Mondlane

 

A. Voador

Costa do Sol

E.Mondlane

 

A. Voador

P. Combatentes

Kar Max/V.Lenine

 

A. Voador

P. Combatentes

Praça dos Heróis

 

A. Voador

Hulene

Praça dos Heróis

 

A. Voador

Hulene

Praça dos Heróis

 

 

A. Voador

Albazine

Praça dos Heróis

 

A. Voador

Albazine

Praça dos Heróis

 

A. Voador

Magoanine

E.Mondlane/Av de Angola

 

A. Voador

Malhazine

E.Mondlane/Av de Angola

 

A. Voador

Malhazine

E.Mondlane/Av de Angola

 

A. Voador

Benfica

Marginal/Oliveiras

 

Xipamanine

Hulene

Av de Angola

 

Xipamanine

Drive In

A.v de Angola

 

P.Combatentes

Benfica

Hulene/Malhazine

 

Costa do Sol

B. Jardim

Marginal/Oliveiras

 

Zimpeto

Cidade da Matola (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Zimpeto

Machava Socimol (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Zimpeto

P. Boane (B)

Marginal/Oliveiras

 

Zimpeto

Singathela (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Zimpeto

Singathela (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Benfica

Liberdade (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Benfica

1º de Maio (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Benfica

Inataka (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Benfica

Boquisso (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Benfica

Mapandane (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Baixa

Malhampswene (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Baixa

P. Lumumba (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Baixa

P. Boane (B)

Marginal/Oliveiras

 

Baixa

Fomento (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Baixa

Liberdade (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Baixa

Matola C (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Baixa

Machava Socimol (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Baixa

Cidade da Matola (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Baixa

Nkobe (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Baixa

Unidade H (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Junta

Cidade da Matola (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Junta

P. Boane (B)

Marginal/Oliveiras

 

Junta

Liberdade (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Junta

Machava Socimol (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Malhampswene (Mt)

Cidade de Matola (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Malhampswene (Mt)

Mozal (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Malhampswene (Mt)

Thcumene (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Malhampswene (Mt)

Boane (B)

Marginal/Oliveiras

 

Cidade da Matola (Mt)

P.Lumumba (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Cidade da Matola  (Mt)

P.Lumumba (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Cidade da Matola (Mt)

Liberdade (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Cidade da Matola (Mt)

Nkobe (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Cidade da Matola (Mt)

Khongolote (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Matola C (Mt)

Michafutene (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Matola-Gare (Mt)

Machava-sed (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Matola-Gare (Mt)

Tenga (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

T.3 (Mt)

Matlemele (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

T.3 (Mt)

Licuacuanine (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Liberdade (Mt)

Mulotane (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

P. Lumumba (Mt)

Nkobe (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Tsivene (Mt)

Boquisso (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Muhalaze (Mt)

Drive-in (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Machava (Mt)

Mozal (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Matendene (Mt)

Singathela (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Mavoco (Mt)

Unidade J (Mt)

Marginal/Oliveiras

 

Boane (B)

Namaacha (B)

Marginal/Oliveiras

 

Boane (B)

Bela Vista (B)

Marginal/Oliveiras

 

Boane (B)

Changalane (B)

Marginal/Oliveiras

 

Boane (B)

Catuane (B)

Marginal/Oliveiras

 

Boane (B)

Massaca (B)

Marginal/Oliveiras

 

Boane (B)

Saldanha (B)

Marginal/Oliveiras

 

Boane (B)

Goba (B)

Marginal/Oliveiras

 

Boane (B)

Cèlula (B)

Marginal/Oliveiras

 

Boane (B)

Mafuiane (B)

Marginal/Oliveiras

 

Boane (B)

Salamanca (B)

Marginal/Oliveiras

 

Boane (B)

Estevel (B)

Marginal/Oliveiras

 

Boane (B)

Radio Marconi (B)

Marginal/Oliveiras

 

Matola Rio (B)

Maputo

Marginal/Oliveiras

Espero que tenha gostado. Hambanine e até o próximo post!

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Acordar cedo é lei em MPT

Saio da faculdade e me deparo com pessoas fazendo “cara de paisagem”, sem pressa e a dividir espaço nas calçadas esburacadas de Maputo (MPT).

Passo por vendedores de frutas que me oferecem maçãs, bananas e laranjas frescas. Falam comigo em inglês pensando que sou europeu, explico que sou brasileiro e que estou só de passagem. Mesmo assim, continuam a querer vender os seus produtos. “Leve pelo menos uma pêra meu chefe”, insiste uma comerciante.

Quando olho para o lado já vêm outros vendendo ovos, verduras, amendoins e castanhas. Olho novamente para o outro lado da rua e lá tem um monte de gente com roupas vermelhas e amarelas comercializando cartões para alguma empresa local de telefonia móvel. Continuo o meu trajeto.

Na esquina tem um banco com seguranças à porta e um bocado de idosos impacientes do lado de fora. Reparo na fila e percebo que já está começando a dar a volta no quarteirão.

Continuo. Passo por um poste caído e vejo cinco ou seis trabalhadores da energia elétrica de Moçambique mexendo em vários fios e não se entendendo sobre o problema da falta de luz na rua.

Na mesma calçada, vejo um posto de gasolina que oferece ducha para quem colocar no tanque do carro 800 Meticais – (Mtc). Uma fila enorme de carros. Todo mundo querendo uma ducha “mahala” – grátis no dialeto changana.

Comércio informal nas ruas de Maputo

Atravesso a rua. Do outro lado, uma banquinha vende livros usados esparramados pelo chão. No mesmo espaço outros vendedores negociam roupas e sapatos usados. Uns sentados no chão e outros em pé. E outros tantos, a vender artigos eletrônicos. “Vai um pen drive de 16 Giga, chefe? É preço justo meu “brada” – irmão no dialeto changana. Não, obrigado! Respondo e prossigo.

Agora vejo uma mulher que varre a rua. Vejo também outra no mesmo momento a jogar o resto do sanduíche que comia no chão. Uma olha para a outra. A que varria balbucia algo em changana que não entendo. Parece que ela não gostou do que a outra fez.

Prossigo. Passo em frente a um ponto do “chapa” (van no dialeto changana). Pessoas achando que também quero pegar a van trombam comigo querendo um espacinho naquele veículo caindo aos pedaços. Entram todas. Umas vinte e tantas lá dentro, calculo. Olho tudo aquilo e sigo andando.

Em meio àquele aglomerado de gente que gesticula e fala alto, um homem empurrando um carrinho de cimento tromba com minhas pernas logo à frente. Peço desculpas por ter sido atropelado.

Recomposto do susto ao olhar para frente vejo bares, lanchonetes e restaurantes a receber gente com fome. E eu? Saindo da faculdade também com fome, esqueço os reclames do meu estômago e fico ali a admirar toda aquela movimentação. Já são 12h30 e estamos na hora do almoço. De onde estou vejo estudantes esfomeados saindo das escolas e das universidades. Paro ali para olhar. A poeira das ruas paira no ar e atinge minhas narinas. Carros se engalfinhando por espaços nas vias principais de Maputo dão agora passagem ao comércio informal e a dezenas de jovens com mochilas nas costas e fones de ouvido atravessados no pescoço. Será o que escutam? Me pergunto.

O comércio e a movimentação de gente na região central estão à pino como o sol que não dá trégua. E acho que essa mesma movimentação começou muito antes desse mesmo sol dar o ar da graça.  

Antes do galo cantar

As manhãs iniciam sempre bem cedo para quem vive em Maputo. Principalmente, para a massa menos privilegiada que não tem um emprego no Estado, na iniciativa privada ou é um profissional com graduação superior.

“Para quem vive do comércio informal a rotina começa antes mesmo do sol nascer. E não é diferente para os homens e mulheres. Ambos estão de pé bem cedo para fazer valer o dia”, me confessa uma mulher que vende cigarros na esquina onde eu estava.

Homens se dirigem aos seus empregos na construção civil e comércio. E mulheres, geralmente, transportando os seus filhos menores às costas nas famosas “capulanas” (tema de um futuro post, prometo) iniciam seu dia realizando tarefas em casa, nas suas “machambas” – hortas e quintais no dialeto changana – para só depois saírem às ruas para comercializar seus produtos.

Mercado Central de Maputo

Muitas delas saem de casa 4h30 da manhã para pegar “chapa” e se dirigirem até à Baixa da cidade ou à região central de Maputo, onde o comércio é mais intensificado. Outras rumam para os mercados: central e do peixe (ainda vou escrever sobre esses locais).

 Assista a um video que mostra um pouco como é a cidade.

Temperatura e o horário comercial

Desde que cheguei a Maputo, tenho me admirado com a variação da temperatura por aqui. Às 6h30, horário que geralmente acordo, a temperatura está lá pelos seus 13° C com um ventinho cortante vindo do mar. A cidade é plana e o vento corre ligeiro.

Lá pelas 9h o sol começa a esquentar e me faz lembrar que estou na África. Às 13h, o astro rei não poupa ninguém. Talvez por isso, todos fazem uma pausa para almoço que aqui é “sagrado”. O comércio, as instituições públicas e bancos fecham suas portas para um pequeno intervalo.

O que vejo aberto nesses horários são os restaurantes e lanchonetes que recebem os moçambicanos e as outras etnias que aqui estão para almoçarem.  E detalhe: sem pressa.

Já às 15h30 o comércio que havia fechado reabre as portas. Outro detalhe: esse mesmo comércio estava aberto desde às 7h30. Uma justa parada, eu acho.

Quando é por volta de 17h à temperatura começa a cair bruscamente e já se começa a sentir o ventinho gelado das monções do Índico.  O sol se põe cedo e a noite vem rápida. É hora, então, dos bancos e instituições privadas e públicas cerrarem novamente suas portas. E o que percebo é que os funcionários querem agora é tomar o rumo de casa ou fazer um “happy hour”.

Há parte do comércio que permanece aberta até às 18h30. Alguns chineses, árabes e indianos insistem com suas lojas até às 19h30. Mas a essa altura, já é noite e quem consegue já está em casa.

Aqui se dorme cedo. Talvez porque o dia começa também cedo, é longo e repleto de desafios. Na capital de Moçambique, apesar do trabalho árduo que percebo e o dia vir antes do sol raiar, as pessoas (ao contrário de muita gente que vive em grande centros urbanos no Brasil) não são tão apressadas ou estressadas por isso. Carregam sempre um sorriso no rosto e começam suas rotinas bem cedo porque aqui, a vida é muitas vezes injusta e breve.

Praia Costa do Sol

Enfim, um ritmo um pouco diferente do que estamos acostumados. E nos finais de semana os maputenses relaxam. São neles que muitos vão à praia da Costa do Sol para jogar aquela pelada, tomar uma cervejinha e sentir as brisas revigorantes do Índico.

Nos próximos post’s falo um pouco sobre a história de Moçambique e trago mais detalhes da vida em Maputo.

Hambanine. Até…

Para todo início tem um começo

Terras de Moçambique, cá estou há dez dias. Cheguei à Maputo, capital desse país africano de língua irmã num domingo pela manhã (22 de julho). Uma semana antes do começo das aulas de jornalismo na Politécnica.  

Aeroporto Internacional de Johanesburgo – África do Sul

Depois de um estresse danado com minhas malas extraviadas no aeroporto de Johanesburgo, na África do Sul (sim, elas sumiram por lá entre centenas de esteiras e foram dar uma voltinha na Tanzânia, mas voltaram a tempo de jantarem comigo – risos), apaguei meu etnocentrismo com borracha, e me lancei a conhecer a moçambicanidade”. Sem julgamentos e de peito aberto.

Choque cultural

O chamado “choque cultural” que algumas pessoas me avisaram que eu sofreria na chegada, confesso, nem senti. Na verdade, foram divertidos esses primeiros dias. Tudo novo e diverso. Um misto de exótico e familiar que me fizeram muito bem.

Perceber algumas diferenças e semelhanças entre moçambicanos e brasileiros foi muito bacana nesse primeiro momento. O mais legal desse começo de caminhada em Maputo, foi perceber que a nossa pátria (independente de qual nacionalidade tenhamos: seja portuguesa, brasileira, angolana, moçambicana ou cabo-verdiana) bem que poderia ser uma única – a língua portuguesa, que nos une e nos aproxima.

Agora, uma coisa constatei sem muitas reflexões.  Eles (nossos irmãos moçambicanos) são donos de uma generosidade ímpar, de um sorriso contagiante e de uma força em não desistir das coisas tão maior ou igual a que temos no Brasil. Saber disso pelos meus próprios olhos me impressionou e só me faz nesses primeiros dias querer conhecê-los cada vez mais e admirá-los. Pensando nisso, me lembrei de uma frase de Euclides da Cunha : “O nordestino é antes de tudo um forte”! E parafraseando o mestre, repito sem medo de errar: “ sim, o moçambicano é antes de tudo um forte”!

A observar

Estive mais a observar que falar nesses dez primeiros dias. E já começo a me sentir em casa, talvez por minha natural familiaridade com a cultura afro, talvez porque os moçambicanos adoram os brasileiros ou quem sabe porque meu anjo da guarda é forte e tem uma veia africana.

Gerúndio complica

Dei um tempinho nessas primeiras publicações do blog para me ajeitar em um sítio (lugar) com dizem por aqui, achar internet boa e saber me locomover de forma segura em Maputo.

Nesse meio tempo “estive a procurar” – descobri que se eu usar o gerúndio por aqui, apesar de falarmos a mesma língua, as pessoas na maioria das vezes não me entenderão – nove moradias diferentes com variados preços, mas enfim, à duras penas, achei um cantinho a um preço justo – 8.500 meticais/mês – cerca de USD 300,00.

Quem não chora não mama

Pechinchar foi a palavra de ordem dos últimos dias. Outras palavras que foram recorrentes nesses primeiros dias foram: Mânica, 2M, Laurentina clara e Laurentina escura – cervejas locais (risos). E claro a palavra saudade. Essa não faltou hora nenhuma…

Na procura de um local para ficar conversei com um bocado de gente, fiz algumas entrevistas para o blog, delimitei possíveis pautas, escrevi três matérias que ainda publicarei, fiz fotos, conheci lugares, peguei chapa (van no dialeto shangana), maxibombo (ônibus no dialeto shangana), e tive a oportunidade já de cara em ir à Beira, capital da província de Sofala (cerca de 1.200 km de Maputo) a convite de uma família moçambicana, que me recebeu muito bem (tema de um futuro post, prometo).

As informações que colhi ainda no Brasil sobre a moradia em Maputo me valeram um pouco e com ajuda de duas amigas moçambicanas (quase moçambicanas porque vivem aqui há muito, mas são de Ruanda e Burundi) consegui encontrar um hostel de nome Fátima’s Backpacker Mozambique para ficar. Mas para morar em Maputo, não se engane. Os aluguéis para mulungos  (brancos em dialeto shangana) são bem carinhos viu!?!

Nos próximos post’s falo mais sobre isso, conto um pouquinho sobre a história de Moçambique e vos apresento Maputo. Se a Xuxa estivesse aqui ela diria: “beijinhos, beijinhos e… Hambanine” – tchau-tchau no dialeto shangana (risos) !!!

Até!