Os lobos maus e as chapeuzinhos vermelhos

Saiba mais sobre a realidade de grande parte das adolescentes moçambicanas

Estimativas da Unicef indicam que, no mundo, 70 milhões de mulheres jovens (20-24 anos) casaram-se antes dos 18 anos. Outros 23 milhões casaram-se antes dos 15 anos de idade e cerca de 40 milhões de mulheres casaram-se enquanto crianças.

Com base nesses dados, a Assembleia Geral da ONU, no último 11 de outubro, elegeu esse dia para conscientizar a sociedade acerca da difícil vida das “meninas adolescentes” em todo o mundo.

Com o tema: “Meu futuro é agora, quero estudar, casamento só mais tarde”, a campanha foi amplamente divulgada nas redes sociais e ainda foi fruto de inúmeros ciclos de debate, principalmente nos países africanos.

Quer saber mais sobre essa campanha movida pela ONU? Clique aqui.

Essa campanha me motivou a escrever esse post: percebo, em Moçambique, que esse problema do casamento precoce e abuso sexual infanto-juvenil é crônico.

Além disso, vi uma cena aqui em Maputo que me deixou profundamente indignado. Isso denuncio a seguir, mas vamos primeiro à problemática que apresento para você.

Meninas que se tornam mulheres antes da hora

As relações sexuais precoces privam a menina moçambicana de sua infância, afetam a sua formação educacional, limitam as suas oportunidades, aumentam o risco dela ser vítima de violência e da gravidez precoce, e põem em xeque a sua saúde, com grandes chances de contrair doenças sexualmente transmissíveis ou inclusive ficar exposta ao vírus HIV. Falei o óbvio? Pior que não. Em Moçambique, isso é ainda um tabu.

Segundo a Unicef Moçambique, esses problemas citados constituem alguns dos principais motivos da desistência dessas adolescentes de estudar no país e aumentam, consideravelmente, suas dificuldades futuras na vida.

Clique aqui e conheça a história de uma jovem moçambicana.

O país está entre os Estados que apresentam as maiores taxas do problema no mundo. De acordo com dados da organização, em Moçambique 55% das adolescentes se casam ou engravidam antes dos 18 anos.

Os últimos dados revelam que cerca de 60% das adolescentes moçambicanas que não tiveram acesso à educação, casaram-se antes dos 18 anos, em comparação aos 10% das adolescentes que atualmente estudam no ensino médio e 1% das que fazem algum curso superior.

Quadro diferente de algumas partes do Brasil (principalmente as regiões norte e nordeste do nosso país)? Creio que não, mas é sempre bom tocar na ferida.

As “catorzinhas” de Moçambique e a sedução de menores

O tom de denúncia que ganha esse post vai em função do que presenciei na semana passada.

Por volta das 17h, na véspera de um feriado, enquanto fui a um bar comprar um maço de cigarros e esperava meu troco, vi em um estabelecimento próximo à Av. Vladimir Lenine, em Maputo, quatro adolescentes trajadas com seus uniformes escolares (“blusinhas” brancas e “sainhas” azul marinho) sentadas em uma mesa a tomar sorvete.

Até então, tudo bem, tinha uma com uns 15 anos e outras três que aparentavam ter lá seus 12 ou  13 anos. No entanto, vi um senhor de aproxidamente uns 45 anos sair do banheiro e se reunir com elas. Ele pagou mais sorvete para as menores e deu um presentinho embrulhado num papel brilhante para a mais velha, que apesar de seus 15 aninhos, já era bem desenvolvida com um “corpão de mulher”.

O troco demorava e fiquei ali a observar aquela reunião que achei um pouco suspeita. Depois de uns dois minutos vi, para minha infelicidade, o senhor se sentar perto da guria de 15 anos mais desenvolvida e passar a mão por debaixo da sua saia. E o pior, ela consentiu.

Saí daquele lugar super indignado. Já tinha visto outras cenas semelhantes em Maputo, mas essa foi de cortar a alma. Deu vontade de me aproximar daquele senhor e falar poucas e boas para ele. Não o fiz, mas fica registrado aqui minha revolta.

Quer saber por quê me indignei tanto? Porque, geralmente, às sexta-feiras aqui em Maputo é o dia em que os homens mais velhos (muitos deles casados), vão atrás das  chamadas “catorzinhas” (como eles próprios se referem a elas).

As “catorzinhas” são adolescentes que ainda estão no ensino médio ou fundamental. Já são mulheres fisicamente falando, mas ainda com a personalidade em construção. Presas fáceis para esses “taradões”? Sim, sem dúvida.

É o dia do aliciamento infanto-juvenil e ninguém ou quase ninguém gosta de falar a respeito. A sensação que tenho é a de que todos fazem vista grossa para essa questão. Uma triste realidade.

Abaixo segue uma série de fotos que fiz de adolescentes na Praia Costa do Sol. Vendo-as, pense comigo: você acha que elas merecem isso?

Um lugar em que essa atitude por parte de alguns homens em Maputo é corriqueira é na praia Costa do Sol. Lá é um ótimo ponto para esses aproveitadores pagarem um lanche para essas meninas que estão a voltar para casa saídas das escolas, e que acabam cedendo à sedução desses marmanjos.

Os aliciadores param seus carros na Av. Marginal, na praia Costa do Sol, e convidam essas garotas a dar “uma voltinha” de carro.

Aí já viu  o que acontece né?! E essa questão é a apenas a ponta do iceberg. Muitas dessas adolescentes que aceitam esse tipo de “convite para passear de carro”, se aproveitam disso, fazendo com que a coisa se torne normal aos olhos de todos.

Essas garotas, geralmente, são super pobres, não tem informação em casa e se deixam levar por qualquer presentinho ou até mesmo por um sanduíche.  Conselho Tutelar de Menores para ampará-las? Não, grande parte dessas garotas estão jogadas à própria sorte.

Quando paro para refletir sobre o assunto fico a me perguntar: seria isso somente uma questão cultural? Sobre essa situação penosa enfrentada por essas adolescentes não consigo chegar a conclusões precisas, mas meu pragmatismo não me deixa pensar que seja apenas uma faceta usual do país. É um problema grave e que demanda ações de repressão social em relação a isso.

Vejo, na verdade, uma situação delicada. Há uma enorme corrupção e sedução de menores na sociedade de Moçambique, e muitas dessas gurias que se deixam envolver por homens mais velhos, sequer têm senso crítico para perceber que estão sendo abusadas.

A violência sexual em Moçambique vai de mal a pior porque existe ainda uma grande barreira: a falta de suporte legal para legitimar e tornar eficaz a proteção das adolescentes contra esse tipo de violência no país. Muitas vezes a coisa começa em casa com tios, padrinhos, pais e primos que seduzem essas jovens.

Conversando com o professor do curso de comunicação social da Politécnica sobre o assunto, fiquei sabendo que houve, no mês de março desse ano, um encontro de reflexão sobre essa problemática, que mobilizou diversos atores sociais do país (socidedade civil, ONG’s e Governo). Mas ainda são ações pulverizadas, pelo que fui informado.

“O problema é que ninguém na sociedade de Moçambique gosta de falar a respeito do abuso de homens mais velhos com as raparigas. E ainda há “mamás” que impedem a rapariga de fazer as próprias escolhas de vida. A rapariga é obrigada a ceder aos homens mais velhos por imposição das famílias. Essas jovens não devem apenas  cozinhar, tirar a água, lavar roupa e  se casar. Devem sonhar em progredir”, afirmou o professor que preferi resguardar o nome.

Se pensarmos em termos de ações legais visando à proteção dessas adolescentes a coisa se torna pouco animadora. Para responder o problema, o Comitê das Nações Unidas para os Direitos da Criança, exortou o Governo Moçambicano, em 2009, a conceber estratégias para prevenir a ocorrência sexual nas escolas, organizando programas de âmbito nacional. O Governo nisso tudo? Pouco fez a respeito.

Não há no Código Penal Moçambicano, previsões em lei que punam os homens mais velhos que abusam da inocência de jovens mulheres, e ainda  sanções sobre o casamento e a gravidez precoce.

Creio que no país haja poucos debates em relação à problemática apresentada. Vejo ainda muita passividade da sociedade em relação a essa questão. A falta de informação sobre o assunto nas escolas é um problema grave e há pouco diálogo entre pais e filhos sobre a sexualidade das garotas.

Oxalá esse país tenha mais ações para diminuir os índices de casamento e  gravidez precoces. Essas garotas merecem uma sorte melhor. Tomara que as coisas mudem e comecem por leis mais claras e eficazes contra todos esses abusos que mencionei.

Clique aqui e conheça um pouco da rede integrada de ONG’s de Moçambique, que está preocupada com essa questão e tem mobilizado esforços para efetivar leis mais severas em relação ao abuso sexual infanto-juvenil. Espero que você tenha se indignado comigo. E espero também que a “Associação dos Lobos Maus” daqui não me persiga por esse post!

Abuso da inocência não! Hambanine e até o próximo post!

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Suazilândia – um reino de virgens e contrastes

Dei uma paradinha nos post’s sobre Moçambique. Foi necessário e explico o porquê. Esse útimo final de semana, estive no Reino da Suazilândia para participar de uma manifestação super curiosa. E pelo que vi e senti, não poderia deixar de escrever sobre isso.

Reino da Suazilândia

Mesmo tendo um blog que trata apenas das “Terras de Moçambique”, seria egoísmo demais da minha parte se não dividisse com você as coisas que percebi na Suazilândia. Mas antes de mergulhar nesse post, quero fazer uma perguntinha: você sabe onde fica esse Reino? Sinceramente eu nunca tinha ouvido falar até conhecê-lo (e de antemão confesso: foi sensacional descobrir esse lugar, apesar também de algumas duras constatações).

Então, vem comigo e tire suas próprias conclusões sobre o ritual e o país, que começo a apresentar.

O destino

A Suazilândia é um pequenino reino que fica ao sul da África, entre Moçambique e a África do Sul. Com cerca de 97% de negros, na maioria da etnia suazi.

O interessante é que é a última monarquia absolutista de todo o continente mãe. Para conhecê-lo fui de carro com um grupo de brasileiros que residem em Maputo (capital de Moçambique, onde vivo), e em apenas três horas de carro chegamos ao local onde acontece todos os anos o ritual que fomos assistir, denominado “Umhlanga Reed Dance”.

Essa manifestação que dura oito dias, acontece no Vale de Ezulwini, em Manzini, há aproximadamente 30 km da capital do país, a cidade de Mbabane. Ocorre no final do mês de agosto, e é um momento único no qual o Rei Mswati III escolhe uma nova esposa todos os anos.

Para alguém de fora participar basta as mulheres vestirem uma saia e os homens não usarem chapéus e bonés no decorrer da cerimônia. É de graça, galera. Curioso não? Vamos aos detalhes.

Virgens dançam para o Rei

Nessa manifestação são reunidas aproximadamente 70 mil jovens suazis, solteiras e virgens de todas as regiões do país, que se juntam nessa tradicional dança na expectativa de que uma delas venha a ser escolhida pelo monarca como esposa.

Umas envoltas em tecidos estampados com a figura do rei, outras trajando apenas uma minissaia e colares coloridos no pescoço. Elas bailam seminuas e mostram os bambus colhidos nas colinas próximas para o Rei, que assiste às danças atentamente. É tudo muito mágico, e trago na memória imagens incríveis desse meu útimo domingo.

 

 

Veja abaixo algumas imagens do Rei e suas princesas:

 

Como disse anteriormente, essas jovens mulheres almejam se tornar a próxima esposa de Mswati III, conhecido como “o leão” (talvez pelo apetite voraz que ele tenha – não se sabe ao certo quantas esposas ele possui, mas calcula-se algo em torno de 15 a 30, entre oficiais e concubinas).

As jovens candidatas vão até o Estádio Real de Manzini dispensando o velho véu e grinalda conhecidos por nós, e a cantar tributos ao rei e a rainha-mãe, aguardam ansiosas que uma felizarda seja escolhida ao final de oito dias de cerimônias.

Para além disso, segundo algumas informações que colhi, a manifestação cultua também a pureza da mulher suazi. A festa também celebra a unidade nacional, de acordo com um encarte que tive acesso no Lidwala Backpacker, local onde me hospedei com os demais brasileiros.

O que o leão não vê

Um milhão de habitantes divide o espaço com gigantescas plantações de cana de açúcar e com uma família real muita rica, que não divide o seu ouro.

Pelo que li, “de cada três suazis, dois vivem com menos de um dólar por dia”. Assim sendo, ser escolhida como a nova esposa do rei pode ser a salvação da família da nova esposa.

Da direita para a esquerda: Rei Mswatti III sentado ao lado da Rainha-mãe

Na pesquisa que fiz sobre o Monarca, fiquei sabendo que Mswati III sucedeu ao seu pai, Sobhuza II, em 86. O atual rei da Suazilândia nasceu em 19 de abril de 68, poucas horas antes do acordo de Independência assinado entre seu país e a Grã-Bretanha. Ele é considerado um dos mais poderosos soberanos do mundo, de acordo com uma lista feita pela revista Forbes. Quer saber mais sobre isso? Clique aqui

Outra coisa interessante que fiquei sabendo é que na Suazilândia, “dois terços dos seus súditos são alimentados por ajuda internacional. Outros 34% da população ativa está desempregada e mais de metade vive com menos de um dólar por dia”. E ainda que Mswati III “governa elimando as liberdades civis dos suazis, ostentando cada vez mais luxo e regalias”.

Num país onde, segundo a ONU, a taxa de violência sexual é alarmante, a belíssima cerimônia que estive presente esconde uma dura realidade. A questão das doenças sexualmente transmissíveis e o HIV. Pelo que li, na Suazilândia, 30% das mulheres entre 15 e 19 anos estão infectadas pelo vírus.

As imagens de virgens cantando e dançando (que são belíssimas diga-se de passagem) não revelam uma terrivel situação. Enquanto Mswati III elege uma nova esposa a cada ano, o país se consome na AIDS. A Suazilândia tem o maior índice de contaminação de AIDS por metro quadrado do mundo. E a expectativa de vida da população não supera os 40 anos.

Achei um texto bem interessante que mostra algumas opiniões contrárias à postura do Rei da Swazi. Saiba mais

Abaixo, segue parte de um texto que extraí da net que revela que:

“Embora dois terços de seus súditos estejam na miséria, Mswati vive de forma suntuosa. Segundo seus críticos, ele estimula a poligamia e o sexo com adolescentes. Cerca de 40 por cento dos adultos da Suazilândia são portadores do vírus HIV, que provoca a Aids. E alguns dizem que a cerimônia, que tradicionalmente celebra a feminilidade e a virgindade, se tornou apenas uma vitrine para moças que aspiram a uma vaga na corte. “A cerimônia sofreu abusos por causa da satisfação pessoal de um homem”, disse Mario Masuku, líder do proscrito partido de oposição, à Reuters. “O rei é apaixonado pelas jovens e pela opulência.”

Mas muitos suazis dizem que o monarca tem o direito de fazer o que quiser. Para eles, o pendor por noivas jovens é uma tradição nacional, e cerimônias como esta consolidam a identidade nacional.

“Esta é uma tradição suazi — é só olhar todas as meninas dançando para ver que elas estão felizes com isso”, disse Sam Mkhombe, secretário particular do rei. “As pessoas podem criticar, é a opinião delas, mas isso é a nossa cultura.””

Em meio a controvérsias, o rei da Swazi é bastante criticado por entidades de defesa dos direitos humanos e pela comunidade internacional.  

Fonte: http://forum.valinor.com.br/showthread.php?t=37737

Quer ver mais imagens do REED DANCE? Então, clique aqui.

Próximo post

No seguinte volto às Terras de Moçambique”. Hambanine e até lá…