A cerveja é paixão por aqui também

Conheça as marcas mais famosas consumidas no país

Chegou o dia para falar de coisa séria (risos). Já faz um tempinho que tenho pensado em escrever um post sobre as cervejas moçambicanas. E especialmente hoje, a coragem veio junto dos copos que tomei.

Depois de uma ou duas garrafas ficou bem mais fácil escrever sobre o assunto (risos). Nunca falei que eu não gostava de cerveja. Apologia? Sim, senhoras e senhores. Isso mesmo! (risos)

Pensa que a cerveja é uma paixão exclusiva do Brasil ou dos europeus? Não se engane. Por aqui o culto à cevada é bastante difundido, e o consumo é feito por todas as classes sociais, indistintamente.

“Tás a perceber? Esse povo está a consumir muita cerveja, eh pah”! Logo na minha chegada em Moçambique, em viagem à cidade da Beira, foi o que eu ouvi de um amigo moçambicano que reside em Maputo, mas é natural daquela cidade.

“Gostas de cerveja também? Que “nice”! Vou apresentar para você marcas que estão a fazer a cabeça do moçambicano de norte a sul do país”, afirmou “o gajo”, servindo-me um copo.

Brindamos o gosto pela cerveja e experimentei algumas marcas daqui. Em Moçambique, há cervejas nacionais e se consome também rótulos sulafricanos. Aqui se bebe cerveja tanto ou mais que no Brasil. Tenho que confessar: achei isso bem interessante. (risos)

Há três marcas principais produzidas em larga escala. Todas da mesma cervejaria, a empresa Cervejas de Moçambique. Vamos aos rótulos: temos aqui a Laurentina, a 2M e a Manica, a filha caçula criada nos últimos anos pela fabricante.

As duas primeiras são super tradicionais no país. Para os moçambicanos, talvez tenha um gosto quase nostálgico, pois ambas são comercializadas por aqui desde o tempo colonial. A Laurentina tem esse nome em homenagem à antiga capital de Moçambique no tempo colonial, Lourenço Marques, hoje, chamada Maputo.

Fabricada desde a década de 30, é a mais premiada de todas as cervejas de Moçambique. E as suas variantes: a Clara, a Preta e a Premium já ganharam diversos prêmios internacionais de qualidade. Os últimos foram nos anos de 2008 e 2009, onde as marcas levaram conjuntamente as medalhas “Grande Ouro” no concurso internacional Monde Selection, realizado na Bélgica.

No entanto, não é só de louros que a Laurentina vive. Recentemente, a marca virou foco de uma polêmica. Um anúncio publicitário apelativo e um comentário infeliz por parte de um dirigente do alto escalão da empresa dona da marca, causou inúmeros protestos no país. A foto abaixo ilustra o equívoco da campanha publicitária.

O anúncio já era para lá de polêmico (por criar perspectivas sexistas e racistas), aí o representante da empresa me solta publicamente essa: (…) “usamos a palavra “preta”, porque é como a cerveja é conhecida e a frase da campanha “ficou de boa para melhor”, foi em função do novo formato da garrafa que é “melhor de pegar””. Aí já viu né? O cara tentou consertar e fez uma alusão mega infeliz ao corpo da mulher. Todo mundo caiu matando (e com razão). Veio mídia e parlamentares para cima da empresa.

Assista aos dois vídeos abaixo e veja a saia justa que se meteu a empresa Cervejas de Moçambique, dona da marca Laurentina.

Os protestos não cessaram até a campanha ser interrompida. Quer saber mais sobre isso? Clique aqui

A outra marca de destaque em Moçambique é a 2M. É a mais consumida pela população. O interessante é que o rótulo da cerveja mais bem aceita pelo público, leva a abrevitura do nome do conde Mac-Mahon, alcunha de Marie Edmé Patrice Maurice, que em 1875, decidiu a favor de Portugal numa disputa com a Grã-Bretanha pela posse de parte do sul de Moçambique. Curiosidades à parte, vamos à última marca.

A Manica é também da mesma empresa e levou esse nome em homenagem à província de mesmo nome, na região central do país. Das três cervejas citadas, particularmente, eu gostei mais dessa. Talvez por ser mais encorpada e se assemelhar um pouco à cerveja Itaipava, do Brasil.

As garrafas, os preços e o chopp

Falei das cervejas, mas não mencionei as garrafas que, em Moçambique, são diferentes das do Brasil. Estamos acostumados a vê-las em nosso país  na versão de 660 ml, sendo servidas em copos americanos (muita gente em Belo Horizonte também conhece esse tipo como “lagoinha”). Mas aqui há diferenças. Geralmente, as cervejas em Moçambique são comercializadas em garrafas de 550 ml e são bebidas por uma única pessoa.

Há também versões em long neck como no Brasil. Mas nos “butecões copos sujos” das ruelas do país, o que reina são as “garrafas grandes” (de 550 ml), como se diz por aqui.

Os preços delas são variáveis, de acordo com o local em que você está. Mas em média a “garrafa grande”, de 550 ml, sai por volta de 50 meticais. Em reais é algo próximo de R$3,60.

Os cervejeiros de plantão, a essa altura, já devem estar se perguntando: e o chopp? Ah, aqui tem também, mas com outro nome. Em Moçambique, chamam o nosso conhecido chopp de “pressão”. Um copo de 300 ml sai por 30 meticais, algo em torno de R$ 2,25.

Enfim, quem curte cerveja gosta dela estupidamente gelada, certo? Pois é, salvo em raras exceções, por aqui, infelizmente, essa máxima não se aplica. O calor da África, muitas vezes, não deixa as cervejas locais ganharem aquela “nuvenzinha branca de gelo” como as que vemos nas garrafas brasileiras. Mas para um bom bebedor de cerveja, um “tzzzz” já basta né? Então, com esse sonzinho gostoso do “tzzzz”, abro mais uma garrafa de Manica e termino esse post.

É cientificamente comprovado que a cerveja causa euforia e em casos extremos, saudades. Então, este post fica como uma homenagem aos meus amigos jornalistas especializados na “arte de cervejar” (seus terríveis – risos) e ao Arcângelo Café: a varanda mais charmosa e aconchegante do Edifício Maletta, em Belo Horizonte/MG, onde os etílicos do Centro Universitário Una (alunos e professores) dão o ar de suas graças.

Fontes de pesquisa: “Botecos copos sujos” de Maputo, Catembe e Costa do Sol e ainda adjacências eletrônicas: (risos) Macua Blog e Jornal de Notícias.

Hambanine e até o próximo post! No próximo, prometo não beber antes de escrever. (risos)

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O que é o “changana”?

Dialeto falado em Maputo e outras línguas

De acordo com o último recenseamento em Moçambique, “o idioma português mesmo sendo considerado a língua materna é falado apenas por 40% da população”. Interessante não? Em Maputo, sua capital, a maioria das pessoas falam um ou dois dialetos pelo menos. E o dialeto mais falado aqui é o changana.

O que me motivou a escrever esse post e falar sobre um dialeto que desconheço foi perceber a importância disso para o moçambicano. Tem a ver com a identidade do povo. E o “dialeto”, seja de que região for do país é, verdadeiramente, a expressão linguística da população aqui.

Faz parte do dia a dia do povo e isso me fez lembrar os nossos queridos e esquecidos tupi e guarani. Uma pena não os aprendermos na escola. Tantas cidades brasileiras com nomes indígenas e sequer sabemos o significado real disso.Tantas palavras de origem indígena em nosso português falado no Brasil e não nos atentamos sobre a questão.

Como mencionei acima, na apuração que fiz fiquei sabendo que, de acordo com Recenseamento Geral de 2007 em Moçambique, apenas 40% da população fala o português. Isso comprova essa diversidade linguística em Moçambique.

Já em Maputo, a mesma pesquisa apontou que 90% dos que vivem na capital falam correntemente a língua portuguesa. É interessante observar que a Constituição de Moçambique encara outros 30 idiomas de origem bantu, como por exemplo: o chona, o ronga, o ndau, o sena, o chope, o echuwabo e o maconde como línguas locais. Todos esses dialetos (mais de trinta) são dos troncos linguísticos bantu e são considerados pela Carta Magna do país também como línguas nacionais.

O dialeto falado na capital e em outras províncias

Em Maputo fala-se português em todos os sítios (lugares, como dizem por aqui) e sou compreendido perfeitamente. Mas, se afastando um pouco da capital, você pode se deparar com pessoas falando apenas os dialetos do lugar.

Logo quando cheguei em Moçambique fiz uma viagem a Cidade da Beira, capital da província (estado) de Sofala. São cerca de 1200 km até lá. Atravessei algumas províncias para chegar ao destino: Maputo, Gaza, Inhambane, Manica e parte de Sofala. E nessa viagem pude experimentar na pele, dentro de um “machibombo” (ônibus, em changana), o quão difícil é se comunicar nesse país para um estrangeiro. São muitos dialetos e cada província tem dois ou três diversos.

Ave Maria no dialeto changana

Aqui em Maputo, cidade que vivo, a língua mais falada é o changana e nesses quase dois meses aqui, aprendi algumas palavras no dialeto que agora, divido contigo. Às vezes, a pronúncia é um pouco complicada para nós brasileiros. Então, para explicar bem as palavras optei por escrevê-las do jeito que se fala.

Vamos a elas:

Hambanine quer dizer “tchau”;

Dzichile quer dizer “bom dia”;

Brada quer dizer “amigo ou irmão”;

Machibombo quer dizer “ônibus”;

Chapa quer dizer “van”;

Wena quer dizer “você”;

Malimune quer dizer “quanto Custa”;

Tchova – quer dizer “empurre”;

Male quer dizer “dinheiro”;

Marrala quer dizer “grátis”;

Xá dura quer dizer “está caro”;

Nalava quer dizer “quero”;

 Maningue quer dizer “muito”;

 Kamimambo quer dizer “obrigado”;

Kamimambo Nikencile quer dizer “eu que agradeço”;

 Kaiyssa quer dizer “está quente”;

Uwenamane vito quer dizer “como é o seu nome?”;

 Nalava Wena quer dizer “quero você”;

Nalava Male quer dizer “quero dinheiro”;

 Mumble quer dizer “menina”;

Jarra quer dizer “menino”.

Procurei alguns vídeos para mostrá-lo (a) a fonética do dialeto changana. Mas não achei muito coisa interessante que valeria à pena. Então, seguem abaixos dois vídeos que achei legais. O primeiro é uma música cantada em changana, e o segundo é uma brincadeira gostosa de crianças na capital de Moçambique.

 

Um dicionário em changana, o neologismo e o inglês

Soube que há dicionários que traduzem os idiomas falados na África Austral para o português e o inglês (mas ainda não os vi nas livrarias). Conversando com um professor na Politécnica (onde estudo), fui informado que em 2011 foi publicado o primeiro dicionário especificamente do “idioma changana”. O projeto de criação do dicionário partiu de professores da Universidade Eduardo Mondlane (a maior do país) que fazem parte do Centro de Estudos Africanos. A iniciativa foi a primeira do gênero aqui. Bacana não?

Para além dos dialetos percebo aqui a criação de vários neologismos partindo da língua portuguesa. É comum uma mistura entre o português falado aqui e os dialetos locais. Quer saber mais sobre essa diversidade da “nossa língua-irmã” falada em Moçambique? Então, clique aqui. 

O português falado em Moçambique, ao contrário do que se fala no Brasil, é bastante similar ao do país que nos colonizou. Isso nos conta que em termos de regras de ortografia, o moçambicano escreve bem próximo ao que é escrito em Portugal. E olha que interessante! O inglês aqui é super falado.

Quase todos os moçambicanos que conheci falam fluentemente o idioma. Talvez seja pelo fato de que Moçambique tem países vizinhos que falam o inglês ou quem sabe pelo grande número de estrangeiros que vivem aqui. Conclusões precipitadas sobre isso ou não, fato é que o moçambicano tem uma grande familiaridade com essa língua também.

Espero que tenha gostado! Hambanine e até o próximo post!

Para todo início tem um começo

Terras de Moçambique, cá estou há dez dias. Cheguei à Maputo, capital desse país africano de língua irmã num domingo pela manhã (22 de julho). Uma semana antes do começo das aulas de jornalismo na Politécnica.  

Aeroporto Internacional de Johanesburgo – África do Sul

Depois de um estresse danado com minhas malas extraviadas no aeroporto de Johanesburgo, na África do Sul (sim, elas sumiram por lá entre centenas de esteiras e foram dar uma voltinha na Tanzânia, mas voltaram a tempo de jantarem comigo – risos), apaguei meu etnocentrismo com borracha, e me lancei a conhecer a moçambicanidade”. Sem julgamentos e de peito aberto.

Choque cultural

O chamado “choque cultural” que algumas pessoas me avisaram que eu sofreria na chegada, confesso, nem senti. Na verdade, foram divertidos esses primeiros dias. Tudo novo e diverso. Um misto de exótico e familiar que me fizeram muito bem.

Perceber algumas diferenças e semelhanças entre moçambicanos e brasileiros foi muito bacana nesse primeiro momento. O mais legal desse começo de caminhada em Maputo, foi perceber que a nossa pátria (independente de qual nacionalidade tenhamos: seja portuguesa, brasileira, angolana, moçambicana ou cabo-verdiana) bem que poderia ser uma única – a língua portuguesa, que nos une e nos aproxima.

Agora, uma coisa constatei sem muitas reflexões.  Eles (nossos irmãos moçambicanos) são donos de uma generosidade ímpar, de um sorriso contagiante e de uma força em não desistir das coisas tão maior ou igual a que temos no Brasil. Saber disso pelos meus próprios olhos me impressionou e só me faz nesses primeiros dias querer conhecê-los cada vez mais e admirá-los. Pensando nisso, me lembrei de uma frase de Euclides da Cunha : “O nordestino é antes de tudo um forte”! E parafraseando o mestre, repito sem medo de errar: “ sim, o moçambicano é antes de tudo um forte”!

A observar

Estive mais a observar que falar nesses dez primeiros dias. E já começo a me sentir em casa, talvez por minha natural familiaridade com a cultura afro, talvez porque os moçambicanos adoram os brasileiros ou quem sabe porque meu anjo da guarda é forte e tem uma veia africana.

Gerúndio complica

Dei um tempinho nessas primeiras publicações do blog para me ajeitar em um sítio (lugar) com dizem por aqui, achar internet boa e saber me locomover de forma segura em Maputo.

Nesse meio tempo “estive a procurar” – descobri que se eu usar o gerúndio por aqui, apesar de falarmos a mesma língua, as pessoas na maioria das vezes não me entenderão – nove moradias diferentes com variados preços, mas enfim, à duras penas, achei um cantinho a um preço justo – 8.500 meticais/mês – cerca de USD 300,00.

Quem não chora não mama

Pechinchar foi a palavra de ordem dos últimos dias. Outras palavras que foram recorrentes nesses primeiros dias foram: Mânica, 2M, Laurentina clara e Laurentina escura – cervejas locais (risos). E claro a palavra saudade. Essa não faltou hora nenhuma…

Na procura de um local para ficar conversei com um bocado de gente, fiz algumas entrevistas para o blog, delimitei possíveis pautas, escrevi três matérias que ainda publicarei, fiz fotos, conheci lugares, peguei chapa (van no dialeto shangana), maxibombo (ônibus no dialeto shangana), e tive a oportunidade já de cara em ir à Beira, capital da província de Sofala (cerca de 1.200 km de Maputo) a convite de uma família moçambicana, que me recebeu muito bem (tema de um futuro post, prometo).

As informações que colhi ainda no Brasil sobre a moradia em Maputo me valeram um pouco e com ajuda de duas amigas moçambicanas (quase moçambicanas porque vivem aqui há muito, mas são de Ruanda e Burundi) consegui encontrar um hostel de nome Fátima’s Backpacker Mozambique para ficar. Mas para morar em Maputo, não se engane. Os aluguéis para mulungos  (brancos em dialeto shangana) são bem carinhos viu!?!

Nos próximos post’s falo mais sobre isso, conto um pouquinho sobre a história de Moçambique e vos apresento Maputo. Se a Xuxa estivesse aqui ela diria: “beijinhos, beijinhos e… Hambanine” – tchau-tchau no dialeto shangana (risos) !!!

Até!