O que é o “changana”?

Dialeto falado em Maputo e outras línguas

De acordo com o último recenseamento em Moçambique, “o idioma português mesmo sendo considerado a língua materna é falado apenas por 40% da população”. Interessante não? Em Maputo, sua capital, a maioria das pessoas falam um ou dois dialetos pelo menos. E o dialeto mais falado aqui é o changana.

O que me motivou a escrever esse post e falar sobre um dialeto que desconheço foi perceber a importância disso para o moçambicano. Tem a ver com a identidade do povo. E o “dialeto”, seja de que região for do país é, verdadeiramente, a expressão linguística da população aqui.

Faz parte do dia a dia do povo e isso me fez lembrar os nossos queridos e esquecidos tupi e guarani. Uma pena não os aprendermos na escola. Tantas cidades brasileiras com nomes indígenas e sequer sabemos o significado real disso.Tantas palavras de origem indígena em nosso português falado no Brasil e não nos atentamos sobre a questão.

Como mencionei acima, na apuração que fiz fiquei sabendo que, de acordo com Recenseamento Geral de 2007 em Moçambique, apenas 40% da população fala o português. Isso comprova essa diversidade linguística em Moçambique.

Já em Maputo, a mesma pesquisa apontou que 90% dos que vivem na capital falam correntemente a língua portuguesa. É interessante observar que a Constituição de Moçambique encara outros 30 idiomas de origem bantu, como por exemplo: o chona, o ronga, o ndau, o sena, o chope, o echuwabo e o maconde como línguas locais. Todos esses dialetos (mais de trinta) são dos troncos linguísticos bantu e são considerados pela Carta Magna do país também como línguas nacionais.

O dialeto falado na capital e em outras províncias

Em Maputo fala-se português em todos os sítios (lugares, como dizem por aqui) e sou compreendido perfeitamente. Mas, se afastando um pouco da capital, você pode se deparar com pessoas falando apenas os dialetos do lugar.

Logo quando cheguei em Moçambique fiz uma viagem a Cidade da Beira, capital da província (estado) de Sofala. São cerca de 1200 km até lá. Atravessei algumas províncias para chegar ao destino: Maputo, Gaza, Inhambane, Manica e parte de Sofala. E nessa viagem pude experimentar na pele, dentro de um “machibombo” (ônibus, em changana), o quão difícil é se comunicar nesse país para um estrangeiro. São muitos dialetos e cada província tem dois ou três diversos.

Ave Maria no dialeto changana

Aqui em Maputo, cidade que vivo, a língua mais falada é o changana e nesses quase dois meses aqui, aprendi algumas palavras no dialeto que agora, divido contigo. Às vezes, a pronúncia é um pouco complicada para nós brasileiros. Então, para explicar bem as palavras optei por escrevê-las do jeito que se fala.

Vamos a elas:

Hambanine quer dizer “tchau”;

Dzichile quer dizer “bom dia”;

Brada quer dizer “amigo ou irmão”;

Machibombo quer dizer “ônibus”;

Chapa quer dizer “van”;

Wena quer dizer “você”;

Malimune quer dizer “quanto Custa”;

Tchova – quer dizer “empurre”;

Male quer dizer “dinheiro”;

Marrala quer dizer “grátis”;

Xá dura quer dizer “está caro”;

Nalava quer dizer “quero”;

 Maningue quer dizer “muito”;

 Kamimambo quer dizer “obrigado”;

Kamimambo Nikencile quer dizer “eu que agradeço”;

 Kaiyssa quer dizer “está quente”;

Uwenamane vito quer dizer “como é o seu nome?”;

 Nalava Wena quer dizer “quero você”;

Nalava Male quer dizer “quero dinheiro”;

 Mumble quer dizer “menina”;

Jarra quer dizer “menino”.

Procurei alguns vídeos para mostrá-lo (a) a fonética do dialeto changana. Mas não achei muito coisa interessante que valeria à pena. Então, seguem abaixos dois vídeos que achei legais. O primeiro é uma música cantada em changana, e o segundo é uma brincadeira gostosa de crianças na capital de Moçambique.

 

Um dicionário em changana, o neologismo e o inglês

Soube que há dicionários que traduzem os idiomas falados na África Austral para o português e o inglês (mas ainda não os vi nas livrarias). Conversando com um professor na Politécnica (onde estudo), fui informado que em 2011 foi publicado o primeiro dicionário especificamente do “idioma changana”. O projeto de criação do dicionário partiu de professores da Universidade Eduardo Mondlane (a maior do país) que fazem parte do Centro de Estudos Africanos. A iniciativa foi a primeira do gênero aqui. Bacana não?

Para além dos dialetos percebo aqui a criação de vários neologismos partindo da língua portuguesa. É comum uma mistura entre o português falado aqui e os dialetos locais. Quer saber mais sobre essa diversidade da “nossa língua-irmã” falada em Moçambique? Então, clique aqui. 

O português falado em Moçambique, ao contrário do que se fala no Brasil, é bastante similar ao do país que nos colonizou. Isso nos conta que em termos de regras de ortografia, o moçambicano escreve bem próximo ao que é escrito em Portugal. E olha que interessante! O inglês aqui é super falado.

Quase todos os moçambicanos que conheci falam fluentemente o idioma. Talvez seja pelo fato de que Moçambique tem países vizinhos que falam o inglês ou quem sabe pelo grande número de estrangeiros que vivem aqui. Conclusões precipitadas sobre isso ou não, fato é que o moçambicano tem uma grande familiaridade com essa língua também.

Espero que tenha gostado! Hambanine e até o próximo post!

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Moçambique – a Independência e o embrião da República

Quarto post da série que traz aspectos sobre a história de Moçambique. Nesse texto trato sobre o processo de Indepência de Moçambique e da República que se estabeleceu aqui, e incito alguns choques e problemas internos enfrentados pelos moçambicanos no decorrer dos anos. Vamos lá então! Sem perder é claro, o que tenho afirmado nos post’s anteriores. Aqui não há uma verdade absoluta. É meramente um recorte dos fatos, ok?

Quando Portugal deixou de ser uma ditadura em 74, o país perdeu um poderio significativo sobre as suas colônias. E isso resultou num processo de Independência das suas colônias remanescentes: cinco na África e uma na Oceania.

Em todas essas colônias portuguesas naquele momento, existiam movimentos políticos que reclamavam a Independência imediata. Diante da transição que Portugal atravessava naquele momento, os militares portugueses se recusaram a hostilizar os movimentos que ganhavam força de independência nas várias colônias que o país ainda detinha poder.

E foi exatamente nessa época, que a Frelimo intensificou aqui em Moçambique suas ações militares, tendo inclusive gerado uma série de baixas no exército português. Com as investidas da Frelimo contra o “inimigo” foi crescendo um sentimento nacionalista, que ganhou todos os rincões do país.

Naquela altura, o partido contava com amplo apoio de sua população. De um lado se verificou um enorme crescimento dessa força popular no país e do outro restou uma frente militar portuguesa desestabilizada e enfraquecida, que já não contava com o apoio de todos os seus militares tanto em Moçambique quanto em Portugal. O que isso gerou? Perdas de território para os “portugas”, que se viram sem forças diante mobilização maciça do povo moçambicano.

O processo de Independência, após anos de combate, foi ratificado em 24 de Julho de 1974 quando foi aprovada uma lei em Portugal que estabeleceu um regime transitório para Angola e Moçambique, tendo em vista a independência destes territórios.

Pelo que li no “Ensaio sobre a Cultura em Moçambique, de Siliya, autor já mencionado em post’s anteriores, em 4 de Agosto de 74, Portugal se comprometeu enfim, junto ONU, a autorizar a Independência do país. E em 7 de Setembro, em LusaKa, foi pelos “ portugas”e pela Frelimo assinado um acordo que conduzia o país à tão sonhada independência.

Em setembro de 74, Joaquim Chissano, representando a Frelimo e em conformidade com o estabelecido no acordo de Lusaka, que ratificava o cessar fogo e a transferência dos poderes, toma posse como chefe de um governo de transição, apoiado agora pelo governo português.  A função de Chissano nesse momento foi propiciar condições ao país para uma independência plena.

Já em maio de 75, Samora Moisés Machel foi aclamado o primeiro presidente de Moçambique. Abaixo segue um video documental que mostra a ascensão do povo moçambicano ao poder.

O período que se segue à Independência (25 de Junho de 1975), ao contrário do que seria de esperar foi de profunda crise interna, devido a alguns fatores. Os investimentos estrangeiros foram embora junto com os portugueses, houve a tentativa da construção de um estado socialista e o país enfrentou guerras internas pelo poder. Mas isso é tema para o próximo post. Hambanine e até lá!

Fonte de pesquisa: “Moçambique e sua história”, de Hortência Cossa e Simão Mataruca.