“Gugu me ajude”

Realidade fantasiosa da “TV Brasileira” ganha cada vez mais força em Moçambique

Quem me conhece, principalmente as pessoas mais próximas, sabem que estou produzindo um documentário com inspiração etnográfica numa imersão na Comunidade Rastafári em Moçambique.

Esse “doc” tem sido feito em parceria com o meu amigo Felipe Nascimento, um estudante brasileiro de História que vive em Maputo há quase três anos, e estuda na Universidade Eduardo Mondlane (maior centro de ensino superior de Moçambique). E na produção desse novo trabalho, eu não poderia deixar de mostrar a você as cenas inéditas que presenciei.

Nas últimas duas semanas, além das gravações e do contato com os Rastas (falarei mais disso por aqui em breve), fomos conhecendo também a comunidade vizinha ao Tabernáculo Rastafári, onde estão sendo filmadas as imagens do documentário.

Desse contato com as famílias, crianças e adolescentes de Intaka, captamos também algumas imagens que renderam pérolas muito interessantes do tipo: influência da TV Brasileira em Moçambique, alguns retratos sociais do país, a identidade moçambicana e a cultura africana de um modo geral.

Abaixo seguem dois vídeos que considero muito bacanas. No primeiro apresento para você a adolescente Flávia, que sonha em ser modelo e pede ao  “Programa do Gugu” para ajudar a sua família. Além disso, na conversa despretensiosa do vídeo, fica claro o carinho que os moçambicanos têm com o Brasil.

Seriam as novelas e programas brasileiros que chegam aqui ou a língua portuguesa que nos une responsáveis por essa admiração? Responda por si mesmo (a). A realidade fantasiosa mostrada pelas novelas são boas para o moçambicano? Deixo essas perguntas no ar.

Já no segundo vídeo, Flávia e sua amiga Asule, de maneira simples, mostram a influência das novelas brasileiras por aqui, falam um pouco da identidade cultural da mulher moçambicana e ainda mandam beijinhos para o Brasil. Um vídeo super despretensioso, mas que trouxe um pouquinho da África que “fala português” que agora, você passa a conhecer. Espero que goste!

Os vídeos foram feitos de maneira espontânea. Não houve edições e esse foi o objetivo. Aconteceu como tinha que ser e não poderia deixar de mostrar para você que tem acompanhado o “Terras de Moçambique”.

De forma clara, os dois vídeos desnudam alguns retratos sociais do país e talvez, quem sabe, denuncie também de maneira simples à realidade fantasiosa das novelas brasileiras, que ganham cada vez mais força na vida dos moçambicanos. Fica então, o convite para se pensar sobre.

 

Hambanine e até o próximo post!

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Catembe e Praia dos Amores

Um passeio de Ferry Boat e uma praia de pescadores

Temperatura: 28°C.

Maputo, 07h30. Acordei inquieto.

Um sol que não me deixava esquecer que estou em África. Fui tomar meu café e fiquei pensando em como aproveitar o sábado. Aquele solzão lá fora merecia ser vivido. Mas o que fazer? Ah, talvez ir a uma praia. Mas qual? Pensei.

A praia de Maputo, segundo o que alguns moçambicanos me disseram, é imprópria para o banho. Salvo algumas pequenas partes da praia Costa do Sol. E então? Não estou afim de entrar em águas poluídas. Mas onde ir? Foram minhas divagações entre um gole de café, um pedaço de pão e um trago no cigarro.

Óculos escuros no rosto e uma “bermudinha de praia” fui pedir auxílio aos universitários do Fátima’s (risos). Depois da consulta (risos) decidi conhecer o Distrito de Catembe, que tem uma praiazinha e fica no outro extremo da baía de Maputo. É pertinho da cidade e dá para ir e voltar no mesmo dia. Pois bem, é para lá que vou.

Catembe

Resolvido o destino, agora era saber como chegar até lá. Saindo da Mao Tsé Tung, onde eu estava hospedado, tomei uma chapa até a parte baixa de Maputo indo direto para o cais.

A ligação entre o Distrito e Maputo é feita por vários barquinhos e também por um Ferry Boat, carinhosamente apelidado de “catembeiro” pela população local. Isso me lembrou o Ferry de Salvador, que vai até Itaparica.

Você pode pegar o Ferry Boat por apenas 5 meticais (na moeda brasileira é algo em torno de R$0,40) em frente ao Ministério das Finanças, na Av. 10 de Novembro. O percurso até Catembe leva cerca de 25 minutos. O “catembeiro” costuma sair durante o dia de meia em meia hora, e o último sai às 23h. Fique ligado (a).

Comprei meu bilhete no cais e fiquei aguardando o Ferry Boat chegar. Não sabia o que me esperava do outro lado da baía de Maputo, mas minhas pernas reclamavam curiosidade.

Entrei no barco com um ventinho cortante no rosto. Por uns dez minutos dentro do Ferry fiquei apreciando a bela vista da capital de Moçambique. Por um outro ângulo, e isso por si só já vale o passeio.

Como é bonita a Maputo vista da sua baía, pensava. Do Ferry Boat, escutei um borborinho de gente e vi muita movimentação de tripulantes. Todo mundo queria ir para as janelas do barco para apreciar a vista. Percebi ainda um horizonte recortado pelos prédios de Maputo a contrastar com as águas calmas da baía. Gaivotas cortando o céu, sol reluzindo e barulho de vento nos ouvidos. Que ótimo, disparava meus pensamentos.

Da janela do barco, respirei fundo pensando ter deixado para trás a urbanidade da capital. E já sentindo um ar diferente, desembarquei.

Veja no vídeo abaixo imagens da travessia de Maputo à Catembe.

Catembe é nice! É assim que muitos moçambicanos se referem ao Distrito e tenho que concordar. No vilarejo, moram muitas pessoas que trabalham na capital. É um lugar pacífico e bem arrumadinho para os padrões moçambicanos.

Chegando ao cais de Catembe pude ver uma ancoadouro “antigasso”, com barcos pegando pacientemente um solzinho. Mais à frente, vi muita aglomeração de vendedores comercializando frutas, comidas, bebidas e cartões de celulares. Do outro lado da rua alguns poucos restaurantes com uma música alta, um postinho de gasolina e várias chapas estacionadas que levam pessoas para o interior daquelas estradinhas de chão batido que eu via.

Caminhando pelo centrinho de Catembe fitei ao longe a cidade de Maputo. Me senti um pouco aliviado por ter deixado o concreto e o transa-transa de carro do outro lado da baía. Tinha sido uma semana cansativa na faculdade. Havia  feito freelas para uma revista local, que foram um pouco desgastantes. E estar ali naquele momento, era tudo que eu queria.

Acho que naquele dia eu estava querendo mesmo era caminhar e assim o fiz. Ao lado do cais tem um extenso areal com uma praiazinha que dá para fazer ótimas caminhadas. Experimentei com prazer pisar naquela areia. Mas ainda me faltava algo. Talvez uma outra praia seguindo aquelas várias estradinhas com carros que levantavam poeira. Me informei com os nativos e tomei outra chapa, agora, para a Praia dos Amores.

Uma praia de pescadores

Meia hora dentro da chapa por uma estrada de terra batida cheguei ao ponto onde deveria descer. É aqui? Perguntei ao motorista. “Sim, boss, siga por esse caminho uns 2km que chegará à Praia dos Amores”. Ok, agradeci contente e fui caminhando por aquelas “machambas” (hortas em changana), vendo poucas casinhas de tijolos, algumas palhoças e uma estradinha de terra salpicada por um capim alto.

Uma caminhadinha rápida e eu já estava numa praia extensa, quase deserta. Linda, com marolinhas brilhando pelo sol que naquela altura já não dava trégua. O dia era de caminhadas e não me esquivei disso. Fiquei ali, a apreciar o Índico e a pisar naquela areia dura.

Ondas não vi, mas estar ali naquele lugar de paz me revigorou. Depois de algum tempo caminhando, passei por pescadores, conversei com nativos e pude deixar as horas voarem junto daquele ventinho gostoso que eu sentia na praia. “A vida é um passeio e uma caminhada pequena, amigo brasileiro: ou aproveitamos bem enquanto podemos ou depois já não dá”. Foi o que ouvi de uma senhorinha que pescava mariscos na Praia dos Amores.

Segui seu conselho, aproveitei meu sábado e retornei à Maputo no fim da tarde por um “catembeiro” que, agora, dá vontade de sempre pegar.

Hambanine e até o próximo post!

Uma jovem voz literária

Conheça a história de um jovem escritor, saiba o que é a poesia de combate e ainda fique por dentro da realidade de quem começa a escrever em Moçambique

Antes mesmo de nos cumprimentarmos e iniciar a entrevista, ele perguntou ainda quando descia de seu carro: “quantos jovens hoje não tem livros em casa? Aqui e no Brasil?” Essa foi a pergunta feita por meu entrevistado assim que pisou à porta do Restaurante Zambézia, na Av. Mao Tse Tung.

Ele já chegou aguçando os meus sentidos, pensei naquele momento. Preferi não responder a pergunta que me surpreendeu. Mas meu silêncio foi reflexivo naquele instante. Passados alguns minutos, objetivei minhas intenções e seguimos sem perceber a rota de uma entrevista tranquila que, para mim, mais pareceu um papo entre amigos de longa data.

Lucílio Manjate é um jovem escritor moçambicano, tem 31 anos e ministra aulas de Literatura Moçambicana e Literatura Geral Comparada pela Universidade Eduardo Mondlane – UEM (maior universidade do país).

Ele aceitou contar um pouco de sua história para o “Terras de Moçambique”, falar sobre a Poesia de Combate tão presente na literatura do país, e ainda traçar um quadro dos desafios de um jovem escritor a caminhar pelas pernas da literatura.

O jovem contista

O seu gosto pela literatura começou ainda criança quando Manjate chegava da escola e se deparava com seu pai sempre a ler. “Para eu passar do meu quarto para a sala de banho (como os moçambicanos nomeiam o “banheiro”), passava na porta do quarto de meu pai e pela porta que sempre ficava aberta, o via a ler livros. Isso para mim, é uma inspiração literária que se consolidou”, confessou o contista.

Contando-me sua história deixou escapar que ver seu pai lendo diariamente o inquietava. “Sempre me perguntava o que meu pai estava a ler no quarto. Até que um dia aproveitei que ele tinha saído para trabalhar e fui lá ter com o fruto de suas leituras. E lá eu descobri “a poesia de combate”. E isso fez toda a diferença em minha formação”, afirmou.

Quando vivia em Matola ele descobriu sua vocação literária. “Um dia estava a tomar banho eu recitei dois versos. Quando me percebi a recitar versos que eram meus, sai em disparada da casa de banho para o quarto. Mal enxuguei pus-me a escrever. Desses dois versos me nasceram cinco poemas. Pronto, pensei. Estás a nascer. Foi assim”, relatou eufórico Manjate.

Ele escreveu três livros e já está no processo de criação da quarta obra. O contista começou a escrever em 1996. No ano de 2005, já com três livros escritos aguardando a hora da publicação, decidiu participar do primeiro concurso literário de sua vida. O primeiro livro foi denominado “Manifesto”, o segundo tem o título de “O silêncio do narrador” e o terceiro foi chamado de “O contador de palavras”.

Já no ano seguinte, em 2006, o contista participou da 6ª edição do concurso da TDM – Telecomunicações de Moçambique de revelações literárias e venceu na modalidade de contos com a obra “Manifesto”. “Ali, naquele momento, foi muito marcante, porque determinou todo o trabalho literário subsequente”, afirmou Manjate.

Em 2008, o jovem escritor participou do “Concurso Literário 10 de novembro” (nessa data comemora-se o aniversário da capital de Moçambique), promovido pelo Conselho Municipal de Maputo em parceria com Associação dos Escritores Moçambicanos. E ele levou o prêmio também na categoria de contos com o livro “ O silêncio do narrador”.

Depois de vencer esses dois concursos, Manjate, já com as portas abertas para o mercado, publicou seu terceiro livro: “O contador de palavras”, por uma editora renomada em Moçambique.

No vídeo abaixo Manjate fala sobre o seu último livro.

Quer conhecer um pouco mais do “Contador de palavras” de Manjate? Clique aqui.

A influência de uma poesia de guerra

Na entrevista com o contista pude descobrir parte de suas referências literárias. Uma nuance interessante de suas referências é a Poesia de Combate produzida pelos combatentes moçambicanos na época da Independência do país. “A magia dessa poesia é o apelo libertador que ela tem. Na própria linguagem textual os versos de combate obrigam que tu imprimas uma voz forte na dicção. E eu comecei lendo os textos em voz alta e sentia-me forte por dentro. Algo me tocava”, confessou.

Não me aguentei e perguntei: se hoje você desponta como um jovem contista e uma expressão interessante da literatura em seu país, foi graças a esse contato com a poesia de combate ainda na sua adolescência? Ele me olhou nos olhos, respirou fundo e disparou um “sem dúvidas”, seco e incisivo.

Soltei mais outra para provocar: você acha que esse é um traço marcante do poeta moçambicano de um modo geral? “Nunca parei para pensar nesse assunto, mas se calhar há um diálogo estético com a poesia de combate. Há um certo culto e respeito por ela e alguns autores banham-se nessas águas históricas”, respondeu.

Quer saber mais sobre a Poesia de Combate? Clique aqui.

Concursos literários X Mercado Editorial

Não é fácil para quem está começando na literatura encontrar patrocínio para editar as suas primeiras obras, disso todos sabemos. Mas quis saber um pouco dessa realidade em Moçambique.

Segundo Manjate, o investimento que se faz à cultura e à educação de uma forma geral é escasso, e um mecanismo facilitador aos escritores são os concursos literários. “Geralmente, os concursos literários são para a revelação de novos talentos. Tenho a impressão de que no ano de 2000 é que temos uma avalanche dos concursos no país. Eu já tinha três livros escritos, mas não conseguia publicar nenhum. Levei inclusive às editoras e o que elas disseram foi que para editar era necessário buscar um patrocínio. E veja a problemática: como é que eu vou buscar um patrocínio se eu sou jovem e não sou conhecido ainda? É muito difícil. Portanto, os concursos literários de alguma forma estão a tapar essa lacuna e a possibilitar que novos taletos surjam”, ressaltou o contista.

Com pouco incentivo por parte do Estado, as empresas privadas passaram a ter um papel fundamental no patrocínio. “Nós estamos a falar de um mercado aberto, competitivo com empresas querendo se impor. Portanto, as grandes empresas tendem a patrocinar os concursos literários ou a edição de obras literárias que são vencedoras na categoria revelação nos concursos aqui em Moçambique”, afirma Manjate.

De acordo com o jovem escritor há também problemas em relação aos concursos literários bancados pelas empresas. “Na maioria das vezes, os concursos preconizam o incentivo ao hábito de leitura, o estímulo à criação artística e rezam que as empresas patrocinadoras do concurso devem pagar a publicação da obra vencedora e disseminar a distribuição do livro. Mas como explicar que uma empresa queira apenas pagar pela publicação e distribuição de 500 exemplares? Isso é muito pouco. Esgota-se isso já em Maputo e o obra não chega a outros cantos do país. As empresas se calhar estão mais preocupadas com a imagem delas e não de fato com a emancipação da leitura ou na divulgação de uma obra vencedora de um concurso”, denunciou Manjate.

De acordo com o contista os concursos são um mecanismo que auxilia quem está começando na literatura, mas ainda é uma retórica vazia para um país do tamanho do Moçambique. “Os concursos, geralmente, são nacionais. O problema talvez fique por conta de escritores de outras regiões fazerem chegar o seu original a Maputo, para que seja avaliado pela comissão julgadora do concurso. Porque nos concursos é exigido a apresentação do texto original. A maioria dos concursos fica muito direcionada à produção literária de autores de Maputo, infelizmente. Salvo no concurso anual do Fundo Nacional do Desenvolvimento Artístico Cultural – Fundac (concurso patrocinado pelo Ministério da Cultura de Moçambique), onde os concorrentes podem entregar os originais nas direções provinciais do concurso, que se encarregam de fazer chegar os originais a Maputo”, elucidou.

Em Moçambique se vive da literatura?

“Não se vive do ponto de vista do escritor. Escrever é quase uma penitência”, afirmou Manjate.

Segundo o contista, o escritor que está começando a carreira literária em seu país fica num segundo plano. “Em Moçambique os autores tem seu espaço de prestígio. Mas para boa parte a literatura ainda é um lugar utópico de debate e de construção de ideias. Para o escritor é uma coisa. Mas do ponto de vista do editor, a coisa muda de figura. Um editor que diz que vai editar o seu livro o faz efetivamente. No entanto, antes, angaria patrocínio para o seu livro junto a uma empresa privada e vende a sua obra pelos olhos da cara. E sabe quanto fica para o criador da obra? Apenas 10% do valor do livro vendido. Salvo em algumas exceções, onde o autor é muito badalado, já publicou várias obras e vai ganhar mais que esses 10% normalmente pagos”, declarou.

Não me segurei e perguntei a opinião sincera do contista sobre a questão. “Acho que o escritor moçambicano já se contentou com isso. Com o autor só ficam os valores simbólicos e sentimentais. Mas esse problema, falo sem medo de errar, não é apenas de Moçambique. Outros países sofrem com isso também”, afirmou Manjate.

O celular dele tocou. Já era hora do contista ir dar suas aulas de literatura. Chegava ao fim a entrevista, mas antes, Manjate finalizou: (…) “o que devemos nos ater é que a literatura em Moçambique é um contínua construção da memória coletiva de nosso país. Está a resgatar a nossa essência, discute-se a identidade, mas não podemos parar por aqui. Devemos ler essa memória aliada aos embates do nosso presente que bem pode ser o sistema opressor que está a degradar-nos pelo consumismo. Hoje o mundo vive para ter, e não para ser. Esse é o caminho de discussão que estou a imprimir em meus contos e faço com muito gosto”, declarou.

Quer saber mais sobre os livros de Manjate e o que ele pensa sobre a literatura em Moçambique? É só clicar no player abaixo.

 

Moçambique – Construção de um Estado Socialista, problemas decorrentes e atualidade

Finalizando a série que falo um pouco sobre a história de “Moz”, nesse último post trago para você o que aprendi sobre a pretensa construção de um estado socialista por aqui.

Toco também em problemas internos enfrentados por uma economia fragilizada pós-guerra, e falo resumidamente de um brutal conflito iniciado na sequência: uma guerra civil pelo poder no país, que culminou numa quase total estagnação do seu desenvolvimento, além de matanças generalizadas.

São situações vividas pelos moçambicanos que julgo extremamente delicadas, e com muito respeito, trago para você parte dessas difíceis e sinuosas curvas enfrentadas por esse país de gente nobre e guerreira, que passo a gostar, admirar e a querer muito bem.

Dito isso e pelo que li nos livros: “Ensaio sobre a Cultura em Moçambique”, de Carlos Jorge Siliya, “Moçambique – identidade, colonialismo e libertação” de José Luís Cabaço e “Moçambique e sua história” dos autores Hortência Cossa e Simão Mataruca, reitero o pensamento de que a coisa por aqui ficou complicada após a Independência. Infelizmente, diga-se de passagem.

Vamos aos fatos. Quando os “portugas” foram obrigados a declarar a Independência de Moçambique, o país ficou jogado à própria sorte. Sem investimentos e sem divisas. Tudo teve que ser reconstruído. E a Frelimo teve um papel fundamental nesse momento.

O livro “Moçambique e sua história”, de Hortência Cossa e Simão Mataruca , explica bem essa questão: (…) ”a saída da mão de obra qualificada influenciou a continuação do desenvolvimento da economia caracterizada por uma indústria frágil. É neste contexto que foi definida a política económica da República Popular de Moçambique, cujo objectivo central era satisfazer as necessidades do povo através do desenvolvimento planificado e harmonioso da economia nacional” (pág. 178).

O objetivo que percebo, nesse início de reconstrução é a total restituição do valor da dignidade do moçambicano, perdida ao longo da guerra de independência. Há de se mencionar também que desde a criação da República já havia um ideário comunista.

Estado Socialista

Pelo que percebi um dos fatores que contribuiu para agravar a situação do país foi quando a Frelimo pretendeu construir um Estado Socialista em Moçambique, contando com o apoio da ex-União Soviética, China e Cuba.

Como medidas tomadas podemos citar que as válvulas econômicas de Moçambique foram nacionalizadas – indústrias, bancos, agricultura – e ainda, a Igreja Católica foi extremamente combatida, sendo os seus bens nacionalizados, isso eu achei legal (risos). Mas voltando a falar sério, nesse período, pelo que li e conversei com alguns professores da Politécnica, os brancos que não haviam abandonado o país, sobretudo os portugueses, foram muito hostilizados e acabaram por ir embora, o que agravou o processo de paralisia econômica de Moçambique.

E num contrassenso, nesse mesmo período, Moçambique assumia declaradamente o combate aos regimes racistas que governavam a África do Sul e a antiga Rodésia, hoje, Zimbábue. Isso acabou por deixar o país praticamente isolado no contexto da África Austral. O que aconteceu? O que sempre acontece; retaliações de um Estado com o outro. Os países vizinhos fecharam as fronteiras e cortaram relações comerciais. Resultado disso? Moçambique viu falida a sua economia.

Guerra Civil

Em 1976, um movimento declaradamente defensor de um regime democrático no país colocou-se contra às políticas estabelecidas pela Frente de Libertação de Moçambique – a Frelimo.

Esse movimento de resistência que se inicia pela dissidência de alguns membros da Frelimo foi denominado de Renamo. Naquele momento, essa resistência contava com o apoio da África do Sul e da Rodésia (atual Zimbábue), que também não concordava com a liderança de Moçambique por parte da Frelimo. Resultado? Uma guerra civil instaurada que a partir de 77 se alastra em Moçambique.

O que se viu por aqui foi um país revirado por uma guerra interna, sabotagens sociais de toda sorte tanto do governo como por parte da resistência, deterioração de valores morais e cívicos do povo, destruição das poucas infraestruturas (estradas, pontes, lojas, escolas e hospitais) que restavam e uma violência nunca antes experimentada nessas terras, que feria visceralmente os direitos humanos.

De acordo com o que li, “calcula-se que durante a guerra tenham morrido cerca de um milhão de pessoas. O número de refugiados em função de perseguições políticas é calculado em 4 milhões de pessoas. Só nos anos 80, por exemplo, cerca de 3 milhões de moçambicanos ainda viviam no exterior”, principalmente no Malawi, Zimbábue, Suazilândia e Zambia, os países vizinhos.

Depois de combates intensos entre os dois grupos pelo poder no país, milhares de mortes e uma pobreza generalizada, em 84, em face do que a guerra civil estava produzindo (fome, matanças, perseguições e extermínios) o governo moçambicano se comprometeu junto ao governo da África do Sul em não dar continuidade aos conflitos. Em troca do compromisso desse país em não mais financiar e apoiar a Renamo na luta armada.

Enfim, ao cabo de longos anos, o país entra em processo de pacificação em 92, e a Frelimo inicia a liberalização econômica do país com o abandono do marxismo-leninismo.

Eleições diretas e atualidade

O ano de 94 foi quando ocorreram as primeiras eleições democráticas por aqui. O partido que venceu foi a Frelimo, que continua no poder até hoje.

Desde 74, Moçambique empobreceu tanto que hoje carece de ajuda internacional para atender às necessidades básicas da sua população. Ainda percebo que falta muito para se falar que o moçambicano vive com dignidade. Há uma corrupção institucionalizada no Estado, não há vontade política, há muito mais oportunidade para estrangeiros, o país sofre com a falta de infraestrutura e a distribuição de renda por aqui é pior ou igual ao Brasil. E apesar de tudo, pasme! Uma notícia que li agora em agosto mostra um crescimento exponencial de sua economia em 2012. Para conferir a matéria clique aqui.  

É nesse o país que escolhi viver pelos próximos seis meses, são “Terras de Moçambique” profundamente marcadas por guerras e desigualdades. O contraste é ilógico. Mas são terras de um povo bravo, e isso me impressiona!

Até os próximos post’s! Nos seguintes, falo sobre as raças negras do país, apresento as províncias de Moçambique, e toco numa questão delicada por aqui: a identidade nacional.

Hambanine!

Moçambique – Dos primórdios à colonização portuguesa

Estamos no segundo post da série sobre a história de Moçambique. Pois bem, como disse no post anterior, não sou dono da verdade e nem tenho esse desejo. O que trato a seguir talvez venha um pouco influenciado pelas informações que tive acesso. E aqui há somente uma interpretação da vasta história desse país, ok? Que fique (me permita) “muuuuiiiito” claro isso!

Não há aqui uma verdade absoluta, apenas segue um recorte (talvez um “pouquinho” apaixonado – risos) da história de Moçambique. Então, reiterando essas afirmações, vamos ao que nos conta o “Ensaio sobre a Cultura em Moçambique”, de Carlos Jorge Siliya.

No atual território de “Moz”, entre os anos de 200 e 300 d. c., ocorreram muitas migrações de povos Bantus, vindos do entorno dos Grandes Lagos ao norte do país. Havia aqui, naquela época, duas comunidades bem organizadas: os Monomotapas  e os Suailis.

E nos finais do séc. VI nas zonas costeiras se estabeleceram as primeiras tendas comerciais pertencentes aos Swahilárabes (junção dos negros com os árabes), que viveram por muito tempo da troca de mercadorias.

”Portugas” na área

No séc. XV, os danadinhos chegam até aqui. Foi um cidadão de nome Pêro da Covilhã, o primeiro português a estabelecer relações comerciais com os povos desta região.

Naquele momento, pelo que conta algumas livretos que andei folheando, ele excursionava pela costa do atual território de Moçambique a pedido de D. João II.

Depois que o portuga se deu conta do “achado”, fez logo as vezes de comunicar por carta à Coroa Portuguesa de que havia “encontrado” uma terrinha, digamos, bem propícia  aos interesses portugueses.

E aqui (me desculpe) pausa para a piada. Sabe quem veio na sequência e pisou nas “Terras de Moçambique”?  Foi o Vasco da Gama. Não o clube de futebol que estamos acostumados a vê-lo todos os anos levar os vice-campeonatos no Brasil (desculpe a piadinha – mas não poderia perder a oportunidade dessa alfinetada – risos), mas o original, que representava à Companhia Portuguesa das Índias. Dito isso, vamos à sequência do que andei pesquisando.

Pelo que li em um almanaque de Moçambique, desde 1502 até meados do séc.XVIII, os portugueses entenderam que o país representava uma rota estratégica no caminho marítimo para a Índia.

Seguindo então essa rota, a presença deles por aqui se intensificou. Mais precisamente em Sofala e na Ilha de Moçambique no início. Nesses locais, foram criadas as primeiras feitorias e fortalezas. O objetivo era um só: o comércio.

Somente anos depois, os portugueses que tentavam encontrar, dominar e explorar as zonas auríferas, se aventuraram pelo interior do país, onde construíram novas fortalezas. Os produtos mais comercializados naquele momento eram o marfim e o cobre. E havia uma tentativa por parte dos portugueses em encontrar a qualquer custo o ouro de Moçambique.

Já no séc.XVII, à semelhança do que ocorreu em terras tupiniquins, quando criaram as famosas Sesmarias, a Coroa Portuguesa estabeleceu um regime de concessões de terras por aqui: os chamados “Prazos”. Uma espécie de feudos doados pelo que entendi do livro de Siliya, e isso marcou o primeiro estágio da colonização portuguesa.

Os “prazeiros” (donos dos Prazos), profundamente envolvidos no comércio de escravos impulsionaram a colonização portuguesa.

Fim dos “Prazos” e tráfico negreiro

Com a extinção dos “prazos” em 1832, por decreto régio, e com a emergência dos estados militares, iniciou-se o comércio de escravos que se manteve mesmo após a abolição da escravatura nas Colônias, em 1889.

Há um relato bem interessante no livro de Siliya que fala que (…) “calcula-se que entre 1780-1800 tenham sido exportados de Moçambique em média anual, entre 10 a 15 mil pessoas e, em 1800-1850 a média anual tenha atingido cerca de 25 mil”.

“Um comércio extremamente lucrativo para negreiros árabes, suailis e europeus” – portugueses, franceses, ingleses, holandeses e austríacos, lucraram muito nessa brincadeira.

Conferência de Berlim

A colonização efetiva de Moçambique só se inicia verdadeiramente sob o impulso da Conferência de Berlim, em 1885, quando as principais potências europeias fizeram a partilha da África. Esse acordo obrigava os portugueses a uma ocupação efetiva de todo o território que era reconhecido como seu naquela conferência, e se me permita, foi uma grande negociata tudo isso. Uma pena!

Moçambique então, à semelhança do que acontecia em outras colônias europeias, começa a ser administrado por grandes companhias magestáticas a quem o Estado Português concedeu vastos territórios. E isso foi fruto de discórdia, logicamente. A ocupação desses territórios e o desumano processo de mercantilização dos negros impulsionaram revoltas internas no país.

Resistência

A ocupação colonial nunca foi pacífica, tendo-se verificado até o início do séc.XX forte resistência por parte de vários chefes tribais como Mawewe e Ngungunhama.

À semelhança do que aconteceu noutros colônias portuguesas, Moçambique também se rebelou contra a ocupação colonial portuguesa iniciando sua luta armada, mas isso é tema para o próximo post.

Hambanine, até lá!

Moçambique – a origem do nome

Estar no continente africano, viver num país que fala a língua portuguesa e ainda assim não conhecer a sua história é algo que não consigo conceber. É o mesmo que mergulhar no oceano e não se molhar. Alusão meio louca não é!? Acho que são as monções do Indico que têm me influenciado.

Então, vamos lá. Ufa, até que enfim! Começo a abrir a série de post’s sobre a história desse país que escolhi viver pelos próximos meses.

Não sou nenhum catedrático, doutor ou coisa do gênero. E nem quero ser, na real. Sou apenas um curioso e aqui trago um pouquinho do que andei pesquisando sobre a história de Moçambique para você. E nesse primeiro post, trato sobre a origem do nome do país.

Procurei algumas fontes de pesquisa, ouvi algumas pessoas e o texto que segue abaixo é um pouco do que colhi. Três livros me ajudaram bastante nesse processo inicial de pesquisa.  “Terras Sonâmbulas” e “Vozes Anoitecidas” do renomado escritor Mia Couto. E o terceiro e talvez o mais importante: “Ensaio sobre a Cultura em Moçambique”, de Carlos Jorge Siliya.

Quero deixar claro (nessa série de post’s que abro sobre a história de Moçambique) que o que trato aqui é apenas uma interpretação de sua vasta história, e que talvez venha um pouco influenciada pelas informações que tive acesso até agora.  

Feitas essas considerações, vamos ao que andei aprendendo sobre a origem do nome – Moçambique – que agora, divido contigo.

Terras de Moçambique

Ao contrário do que muita gente pensa, a história das “Terras de Moçambique” – nome que dá título ao blog (você já deve ter notado) – é muito anterior à chegada dos portugueses por aqui no século XV.  

A coisa é (me permitam) “beeeeem” mais antiga. Quando os “portugas” chegaram aqui já havia uma sociedade negra de origem Bantu  a realizar um comércio bastante diversificado. E também existia uma forte presença árabe a comercializar e manter relações estreitas com as populações negras  locais. Esses povos de origem arábica exploravam o comércio marítimo na região. 

Partindo do princípio de que o atual território que hoje é chamado de Moçambique, em tempos antigos, já era conhecido por suas atividades comerciais, chegamos dessa forma, finalmente, à origem do nome do país.

Havia aqui, mais ao norte do território de Moçambique, duas comunidades bem organizadas: os Monomotapas e os Suailis.

Antes dos “portugas” aqui se aportarem, a primeira comunidade já entrava em certo declínio social e econômico. Já a segunda mais ligada ao comércio marítimo seguia despontando.  E você deve estar se perguntando agora: e onde é que fica a origem do nome do país nisso tudo?

Bom, pelo que li no livro de Siliya, acredita-se que o nome do país esteja ligado à adaptação de um nome de um sultão pertencente aos Suailis que os portugueses encontraram assim que desembarcaram na costa norte do país. O nome do cidadão era Mussa Bem Mbiki.

Os portugueses ao firmar comércio com os povos dessa região, passaram então, pela proximidade que se estabelecia à época  a denominar o território de: “Terras de “Mussa Bem Mbiki”.

Desde então, com o passar dos séculos, o nome inicial sofreu uma derivação  ficando Moçambique  – quando foi assimilado pelas populações locais, tornando-se assim, referência para os outros povos europeus que exploravam o comércio marítimo naquela época. Pelo que percebi, esse nome ganhou dimensão, e é essa a versão mais aceita por muitos estudiosos do assunto.

No próximo post trago para você mais recortes sobre a história desse país que confesso, tem me encantado.

Hambanine! Até lá…

Contagem regressiva: Moçambique é logo ali

“O que?” “Quem?” “Quando?” “Onde?” “Como?” “Por que?”. Tenho reservas em relação a esse formato tradicional de lead, mas vamos a ele, já que esse blog é de um estudante de jornalismo. Por via das dúvidas, preferi usá-lo. (risos) Do contrário, correria um sério risco em ser advertido formalmente por alguns dos mestres do Centro Universitário UNA. E isso não queremos não é mesmo? (risos)

Então, vamos lá: o que? Um blog que conta as experiências de um estudante de jornalismo vivendo na África. Quem? João Paulo Costa (euzinho mesmo). Quando? Em poucos dias. Como? Uma bolsa de estudos de sete meses. Onde? Universidade Politécnica em Maputo, capital de Moçambique. Por que? Leia esse blog com frequência que entenderá em breve. (risos)


Há 10 dias de pisar em novas terras

A aventura em morar na África começa pelo meu envolvimento com a cultura africana que sinceramente, não consigo explicar. Sempre admirei. Sei senti-la e isso me levou a esse novo desafio. Para mim, viver no continente africano significa novas oportunidades de crescimento pessoal batendo à porta (e agradeço a Deus por isso).

Entre a familiaridade nata com a cultura afro  e o interesse em desnudar com meus próprios olhos costumes diferentes dos meus, cá estou me vendo hoje, a arrumar as malas para viver em um pedacinho da mãe África que fala a língua portuguesa: Moçambique.

A partir da vivência em Maputo, queira Deus que eu consiga mirar as Terras de Moçambique para além do que o Sr. Google nos conta, e que você embarque nessa comigo e aprecie. Esse é o intuito desse blog.

O mergulho

O que me espera ? Um choque cultural, novos aprendizados, experiências antropológicas? Um olhar mais sensível? Uma aorta mais humana? Sinceramente, não sei.

Só consigo sentir (agora) o mergulho que quero dar nessas terras.

Creio que o grande lance de mergulhar em algo diverso do que você está acostumado é não saber ao certo o que vai encontrar lá no fundo. E isso me fez lembrar uma frase que aprendi ainda criança: “se deseja saber alguma coisa nessa vida mergulhe nela de cabeça”. Obrigado João Paulo (pai) por me ensinar isso (te amo meu doce guerreiro)

Enfim, a meu ver, o bom de mergulhar é a surpresa. E parafraseando um Marx de barbas vermelhas e empoeiradas, afirmo para você: “a “surpresa” é o motor da história”. Pelo menos da minha “história,” e montado num cavalos de sonhos, África lá vou eu.

Amores cá no Brasil

Ficarão para trás (só geograficamente, porque os levo aonde quer que eu vá) meu pai e mãe amados, minhas irmãs queridas, avós carinhosas, tios e primos companheiros. Ficarão também grandes amigos-irmãos que cativei e minha doce Luisa, pessoinha mais linda que trouxe cores solares para minha vida.

Esses queridos ficarão aqui no Brasil, mas irão comigo para a África em espírito e no coração. Tenho absoluta fé nisso! Fica aqui o meu amor por vocês nesse primeiro post.

Mais perto da inquietude

Para finalizar esse post volto ao título, mas com reticências: “Moçambique é logo ali”… Sim, é logo ali! Perto da imersão, do mergulho e da curiosidade desse estudante de jornalismo inquieto.

Gostaria também de juntar minha voz à García Marquez: “quero dar valor às coisas não pelo que valem, mas pelo que significam”.

Espero que o “Terras de Moçambique” chegue perto disso! De significados. Não só para mim, mas para você também.

Próximos post’s

Continue acompanhando. Nos seguintes trarei detalhes dos preparativos da viagem: trâmites com passaporte, visto, travel card, passagem aérea, busca por um local para ficar e claro, minha chegada em Maputo, cidade que escolhi para esse intercâmbio e que tenho certeza, também me escolheu há tempos.

Até o próximo.