Escritores Moçambicanos

Porque criei esse espaço no blog

Se você chegou até a essa aba do blog é porquê algo o motivou. Talvez seu gosto pela leitura. Já parou para pensar nisso? Isso é raro hoje em dia e se foi esse o motivo, quero compartilhar com você esse interesse mútuo. 

Deixar-se levar por uma gostosa leitura ao sabor da curiosidade pode ser muito proveitoso.  E descobrir novos escritores, é a meu ver, sempre muito interessante, para não dizer: educativo, prazeiroso e exagerando um pouquinho, quem sabe, “orgasmático” para alguns mais xiitas (risos).  Pensando nisso, quis criar esse espaço no blog para dividir com você alguns nomes que tenho conhecido em minha estada aqui em Moçambique. São autores e poetas que têm me surpreendido.

Embarque nessa comigo

A literatura moçambicana respira o ar leve da poesia, é carregada de sentimentos, desnuda as dores e cores de seu povo, romancia amores fabulosos e essencialmente, revela o valor desse país de gente alegre, guerreira e hospitaleira.

Uma vez li em algum lugar: “para entender um país entenda os seus poetas“. Bom, é isso que tenho tentado e confesso: tem sido muito legal.

Uma língua em comum

Os autores moçambicanos que cito nesse espaço dão asas velozes para a nossa “língua mãe” –  o português. Lendo-os entendo alguns recortes de suas vidas, e me permito ir além do que meus olhos têm visto em Maputo. Lendo-os vou ao encontro  da cultura desse país que assim como o Brasil é lusófono, e também é dono da mesma realeza na literatura.

Tenha boas leituras! Espero que goste.

Um abraço,

João.

MIA COUTO

IDENTIDADE…
 
“Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

… Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto
Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço”

Para abrir esse espaço quero dividir com você o nome do escritor Mia Couto.

O biólogo, escritor e poeta moçambicano nasceu na província de Sofala, na capital Beira em 1955.  Tive a oportunidade de ler seu romance “Terra sonâmbula”, que trata da guerra civil de Moçambique, onde são contadas histórias de seu povo com uma lógica única e criativa. Com sua capacidade ímpar de contar histórias e arquitetar enredos, longe de obviedades, Mia cria na narrativa do livro uma teia de ações e de portas que se abrem bem gostosas de se ler. Ele cria trincheiras onde se percebe a angústia daqueles que sofreram com a guerra, além de desnudar com maestria o espírito guerreiro do povo africano e em especial, o moçambicano.

Mia já recebeu vários prêmios na literatura, publicou em mais de vinte países e é leitura certa para quem curte refletir sobre problemas sociais globais.

Abaixo seguem dois vídeos. O primeiro traz aspectos da obra de Couto e o segundo mostra um “posicionamento social” do autor bem interessante.

 

CRAVEIRINHA

As aulas de Cultura Moçambicana na Universidade Politécnica aqui em Maputo têm me rendido inúmeras surpresas. Tenho descoberto aos poucos que a Cultura Moçambicana é riquíssima. No entanto, vem sofrendo forte influência das igrejas evangélicas e novelas brasileiras (uma lástima, a meu ver).

Os alunos da minha classe me perguntam frequentemente sobre as “novelas globais e da Record”, querem saber dos seus finais e da vida dos artistas que vivem no Rio (incrível com as bundas cariocas e as novelas fazem sucesso por aqui).

O que me frustra é nunca saber contar para eles os finais dessas benditas (das bundas e das novelas – risos) e saber pesaroso que essas tão queridas novelinhas “massificam comportamentos” no Brasil e do lado de cá também. Sobre isso, clique aqui e leia o que pensa uma renomada romancista moçambicana, Paulina Chiziane.

Bom, mas esse não é o objetivo dessa aba, ficar falando de coisas que percebo por aqui. O objetivo desse espaço é falar sobre autores. Então, “vírgula”…eu? Esqueço (ou tento esquecer) minha brasilidade por alguns momentos, e vou arrancando dos meus colegas de sala e dos professores nomes de autores e blogueiros moçambicanos.

Quando me direcionam algum novo nome, vou logo correndo para algum sebo tentar achar livros baratos desses escritores. Sempre gostei mais dos livros. Novelas, às vezes, me são intragáveis. Então, “vírgula”, enfim, “vírgula”, cheguemos ao ponto…

 

Essa semana, descobri numa aula de Cultura Moçambicana o nome do escritor José Craveirinha, que é considerado por alguns professores que conheci por aqui como o maior da poesia em seu país.

José Craveirinha, Mário Vieira, J.C., J. Cravo, José Cravo, Jesuíno Cravo ou Abílio Cossa, nasceu várias vezes como ele próprio revela em sua autobiografia:

(…) “Nasci à primeira vez em 28 de Maio de 1922”. Isto num domingo. Chamaram-me Sontinho, diminutivo de Sonto. Isto por parte da minha mãe, claro. Por parte do meu pai, fiquei José. Aonde? Na Av. Do Zihlahla, no Alta Maré perto de Xipamanine. Bairro de quem? Bairros de pobres”. “Nasci a segunda vez quando me fizeram descobrir que era mulato…

A seguir, fui nascendo à medida das circunstâncias impostas pelos outros”.

“Quando o meu pai foi de vez tive outro pai: meu irmão. E a partir de cada nascimento, eu tinha a felicidade de ver um problema a menos e um dilema a mais. Por isso, muito cedo, a terra natal em termos de Pátria e de opção. Quando a minha mãe foi de vez, outra mãe surgiu: Moçambique. A opção por causa do meu pai branco e da minha mãe preta”.

(…) “Nasci ainda outra vez no jornal O Brado Africano. Muito desporto marcou-me o corpo e o espírito. Esforço, competição, vitória e derrota, sacrifício até à exaustão. Temperado por tudo isso”.

“Talvez por causa do meu pai, mais agnóstico do que ateu. Talvez por causa do meu pai, encontrando no Amor a sublimação de tudo. Mesmo da Pátria. Ou antes: principalmente da Pátria. Por parte de minha mãe, só resignação. Uma luta incessante comigo próprio. Autodidacta. Minha grande aventura: ser pai. Depois, eu casado. Mas casado quando quis. E como quis. Escrever poemas, o meu refúgio, o meu País também. Uma necessidade angustiosa e urgente de ser cidadão desse País, muitas vezes, altas horas à noite.”

Sobre o escritor

Craveirinha, como disse acima é considerado o poeta maior de Moçambique. Em 1991, foi o primeiro autor africano a receber o Prêmio Camões, um dos mais importantes prêmios da literatura mundial.

Assista a um video que traz mais informações sobre a obra e vida do autor.

Como jornalista, trabalhou em vários impressos de Moçambique: O Brado Africano, Notícias da Tarde, Voz de Moçambique, Notícias da Beira, Diário de Moçambique e Voz Africana.

Falar desse escritor é falar de um negro “mulato”, operário da poesia, analfabeto e autodidata, que tem muita expressão por aqui. Pelo que percebo, é um homem que inspira a juventude moçambicana e seu legado continuará influenciando as gerações futuras de seu país. Assim como inúmeras pessoas que marcaram a história de Moçambique, Craveirinha era pobre e um dos sobreviventes da “Babilônia”, nome que se dá para as periferias e favelas por aqui. E crescer em meio ao “caos”, o formou socialmente e politicamente.

O escritor esteve preso entre 1965 e 1969 por fazer parte de uma célula da 4.ª Região Político-Militar da Frelimo. Em sua obra, além do evidente “quê poético”, o poeta revela fatos dolorosos de seu país.

Foi também um dos escritores moçambicanos com mais livros lançados, com vários reeditados, como é o caso do Nkaringana wa Nkaringana (Era uma vez) e Xigubo (Batuque). Sua obra foi traduzida para várias línguas, com enorme sucesso no francês, italiano e russo. Craveirinha subiu para o andar de cima em 06 de Fevereiro de 2003.

Semana passada comprei um livro do autor chamado: “O Folclore Moçambicano e suas Tendências”. Super bacana. Para além da sua poesia, esse livro traz uma compilação de textos do jornalista de 1955 a 1987, em que fica evidenciado sua vertente crítica preocupada com a consolidação das tradições de seu país. Mostra o folclorista que foi. Muito interessante.

Abaixo, seguem dois poemas de Craveirinha super legais também. Tomara que você curta…

UM HOMEM NÃO CHORA

“Acreditava naquela história
do homem que nunca chora.

Eu julgava-me um homem.

Na adolescência
meus filmes de aventuras
punham-me muito longe de ser cobarde
na arrogante criancice do herói de ferro.

Agora tremo.
E agora choro.

Como um homem treme.
Como chora um homem”

 EU QUERO SER TAMBOR

“Tambor está velho de gritar
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
corpo e alma só tambor
só tambor gritando na noite quente dos trópicos.

Nem flor nascida no mato do desespero
Nem rio correndo para o mar do desespero
Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero
Nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero.

Nem nada!

Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terra
Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra
Só tambor cavado nos troncos duros da minha terra.

Eu
Só tambor rebentando o silêncio amargo da Mafalala
Só tambor velho de sentar no batuque da minha terra
Só tambor perdido na escuridão da noite perdida.

Oh velho Deus dos homens
eu quero ser tambor
e nem rio
e nem flor
e nem zagaia por enquanto
e nem mesmo poesia.
Só tambor ecoando como a canção da força e da vida
Só tambor noite e dia
dia e noite só tambor
até à consumação da grande festa do batuque!
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
só tambor”

 

 

67 respostas em “Escritores Moçambicanos

  1. A literatura e os escritores moçambicanos precisam de incentivos para termos mais oubras no mercado nacional. Apoio para ediçoes de jovens escritores

  2. nada a comentar, sou natural de África, e mesmo que tente fugir esta em meu sangue o espírito africano, mesmo depois, mesmo depois da `suposta` independência sinto colonizada em minha alma, se ate Alemanha teve de pagar avultadas multas após a guerra Mundial, por que estes do ocidente não remuneraram os danos aos africanos causados? seremos nos inferiores do que eles? para mim a colonização esta só começando… ainda há muito a advir… estamos apenas a viver uma utopia passageira…. Os meus cumprimentos.

  3. Kanimanbo Moçambique, Kanimanbo terrasdemozambique, é desse tipo de coisas que estamos a precisar, mais divulgação da cultura Moçambicana sobretudo da parte de literatura.
    Obrigado ao blog, porque nos tempos em que estamos deficil é encontrar pessoas que possa fazer este trabalho. Kanimanbo

  4. Cada dia que passo pesquisando sobre o povo moçambicano e sua cultura me apaixono mais!
    No primeiro contato virtual que tive com alguém nativo, percebi a força poética abrangente … Sou brasileira, tenho hoje 23 Anos de idade, gosto de escrever também… e achei esse blog muito produtivo!
    Muito bom divulgar autores tão gloriosos como esses!

    Janaina FRT

  5. literatura que nãoa acaba,sentimentos que renascem a cada nova gerão crescim, sem lites emocionais mostrando uque foi,uque e uque sera da nossa história sofrida e e vivida por muitos.para a história dum pais primeiro tem quem entender os seu poétas e escritore do mesmo.

  6. literatura que não acaba,sentimentos que renascem e a cada nova geração crescem sem limites emocionais trasmitindo uque foi,uque é e uque sera da nossa história vivida e sofrida por muitos moçambicanos.para entender um pais primeiro temque entender os seus poêtas.

  7. Oi sou brasileiro e preciso fazer um trabalho sobre a literatura moçambicana. Porém como é muito recente quase nada encontrei. Você poderia postar um resumo sobre a literatura moçambicana com uma história prévia, estilo e um pouco sobre os escritores.
    Agradeço se ouver a possibilidade de fazer isto. Muito Obrigado!

  8. sinto-me entusiasmado pelo facto de termos varios escritores de reconhecivel merito, mas ao mesmo tempo sinto um aperto no coracao como se o mundo voasse no espaco vago da nossa existencia humana, por nao sabermos valorizar pensadores que possuimos “escritores” pois do nada surgem aqueles que nunca pensamos existir, mas o nada sempre existio na sonolencia de que nao consegue alcanca-lo. esxpero que os nossos escritores continuem a escrever pois precisamos de beber da fontenaria dos meus mestres escritores e pensadores da luz.

  9. Extremamente fantastico, sem sombras de duvidas que Craverinha ainda vive nos nossos coracoes. A sua poesia toca os nossos coracoes em seguida caem lagrimas de tantas saudades suas.

  10. Queridos irmaos/as Mocambicanas e com grande amor que vos saudo. quero do fundo do meu coracao dizer que realmente a literature Mocambicana esta progredindo. isso e muito bom, mas e preciso olharmos tambem para os nosso irmaos que vivem ou estudam no estranjeiro e considerarmos a eles. estou surprendido que aqui na Africa do sul e muito raro encontrar livros sobre a nossa literature Mocambicana. vamos sair for a do pais.

  11. Parabéns pelo site. Sou brasileira, e estou me aprofundando nos escritores africanos que falam minha língua. Que mais pessoas como vc, continuem preservando a cultura africana. Um abraço.

    • Saudar a iniciativa desta pagina de divulgação de escritores moçambicamos, embora que a pagina não é nova é de lamentar que os escritores moçambicanos que a relação se refere sejam os mesmos de ha dez anos. atraz. Será que Moçambique não produziu mais escritores?
      Sim o escritor Moçambicano é produto desta gloriosa Pátria.
      Os escritores moçambicanos a maior parte estão filiados por numa Associação reconhecida pelo Governo na pessoa do Ministério da Justiça, Os mesmos pagam as suas quotas, então pergunto:
      A direcção dessa Associação não tem nada a dizer sobre uma página que vem sendo alterada a alguns anos só com os mesmos mesmos nomes? Ou acomoda~se porque o nome de alguns deles tem sido citado?
      Compatriotas o escritor e uma personalidade muito importante num País isto para não arriscar a dizer no mundo. Pois tal como o jornalista traz ao cimo mensagens que podem ser de extrema valia para a humanidade. Pode abrir Horizontes mesmo daqueles que são ou se consideram bem esclarecidos.
      Não faz sentido que V. excias queiram manter no anonimato até os que estão filiados e vivamos no mundo de SAL~SE QUEM PODER.
      Condeno que a relação de esritores Moçambicanos mantenha um rande numero no anonimato.
      Com todo o respeito .
      Avozinha
      FaLanga

  12. Finalment vi q nada vale dok xtar atualizado cm os sistemas d globalizaçao/por isso vos camaradas k vams la ler ler e ler mesmo p entendr ha muita coisa a nossa xpera, sobretdo a literatura moçbcna a nossa nigritde”Merdiano do rosario 820710233″ ligue e falams…

  13. Em primeiro lugar saudar os fazedores desta iniciativa ,parabens louvo.todos os mocambicanos deviamos ter o habito a leitura, assim nao o temos porque o nosso pais ainda esta em vias de desevolvimento dificel ainda entrar numa livraria e adquirir um livro ,talvez com o tempo e o crescimento do pais.ADORO ler os livros da Paulina Chiziane, Mia,Craveirinha e mas vamos todos incentivar aos demais a leitura em particular a mocambicana que com ela temos muito a aprender parabens parabens Mocambicanos AFRICANOS somos todos iguais.

  14. É de louvar a vossa filosofia versificada que nos inteiramos no mundo dos sentimentos pessoais, da patria e do mundo em Geral. Do que ja li, nao comento de errado se nao dizer forxas k nós precisamos do vosso conhecimento no nosso… sucessos p/todos escritores mocambicanos e do mundo.

  15. E com muita honra,louvar os nossos queridos escritores mocambicanos,isto e nossa identidade cultural.gostaria tanto que houvesse mais desempenho por parte da juventude aos estudos para que possamos desenvolver mais a nossa literatura substituindo os mais velhos.Meus cumprimentos.

  16. É sempre bom ter um lugar pra descobrir a nossa literatura. E poder torna-la nosso alimento assim como uma forma de aprender, AEMO esta de parabens pelo blong…
    Pois ontem de madrugada tive vontade de escrever um poema de amor, mas infelizmente a unica coisa que consigui escrever foi um poema de dor.

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